Um mês depois: o que mudou com a guerra na Ucrânia

Velhos problemas ganharam um novo significado e a incerteza está custando mais caro do que nunca. Com um mês de guerra na Ucrânia, o custo do conflito já é global e a conta segue aumentando.

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Velório de militar ucraniano morto durante conflito com tropas russas no leste da Ucrânia (Joe Raedle/Getty Images)
(Joe Raedle/Getty Images)

Em 1997, Thomas Friedman (o jornalista, não o economista) descreveu em uma coluna do jornal The New York Times aquela que viria a ser conhecida como “a teoria dos arcos dourados”.

Usando um exemplo satírico, Friedman comenta que “nunca na história dois países que possuem uma franquia do McDonald’s entraram em guerra”.

Trata-se de uma visão em parte ingênua sobre a importância do comércio global e da abertura econômica na manutenção da paz.

Mas, ainda que a teoria não tenha durado tanto (a invasão russa na Criméia em 2014 mostrou que não é bem assim que o mundo funciona), a atual guerra na Ucrânia, que completou um mês nesta quinta (24), demonstra que há um racional poderoso na lógica de Friedman.

O custo de uma guerra pode ser medido em armas e na manutenção das forças militares, como os US$ 300 milhões gastos por dia pelos EUA no Afeganistão. Mas ele também pode ser medido pelo custo de se isolar do mundo, de se tornar um “pária”.

Com um mês de conflito, é preciso dizer que nunca antes na história uma nação foi tão sancionada quanto a Rússia de Vladimir Putin.

E as sanções sequer acabaram de serem estabelecidas. Neste momento, a União Europeia e os Estados Unidos negociam um embargo aos dois maiores produtos russos: petróleo e gás.

O resultado, ao menos até o momento, é o aumento da dependência russa em relação à China, que tem se aproveitado para comprar não apenas petróleo mais barato, como também empresas russas.

Os chineses têm estendido a mão, mas de maneira mais tímida do que se supunha inicialmente. Isso acontece porque ambos os países, apesar de serem aliados neste momento, têm um histórico de divergências considerável.

Entre 1953 e 1989, China e União Soviética, as duas maiores potências comunistas, sequer possuíam relações diplomáticas. A China era aliada dos Estados Unidos na região, enquanto a URSS era a maior rival dos EUA.

A situação mudou bastante nos últimos anos. Mas décadas de desconfiança não se resolvem do nada.

Entre as principais razões para desconfianças, está uma visão sobre objetivos finais.

Ao contrário da Rússia, a China se projeta como uma nação que busca um espaço de liderança global. Na visão do Partido Comunista Chinês, esse é um papel “natural” do país, que deve ser exercido à medida que a China ganha destaque nas organizações globais já existentes.

Por isso, enquanto Trump brigava com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a China dava mais dinheiro à entidade. O mesmo ocorria em cada ponto que o ex-presidente americano buscava diminuir a influência americana, graças a sua visão mais nacionalista e menos “globalista”.

Já a Rússia se destaca como uma potência cada vez mais regional, pouco interessada no andamento da ordem global. Seus interesses se estendem para a Ásia Central (onde disputa influência com a própria China), o Leste Europeu e o Oriente Médio. Em duas décadas no poder, Putin jamais sinalizou qualquer pretensão de influência global.

Ainda assim, o conflito na Ucrânia, a primeira invasão de uma nação soberana e democrática na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, coloca a Rússia no centro de uma questão global, tirando o país de um canto do mundo e colocando-o no centro do tabuleiro geopolítico.

Como bem lembrou Keynes em seu clássico “As Consequências Econômicas Da Paz”, escrito em referência em vexatório Tratado de Versailles que acabou com a Primeira Guerra mundial, é possível que as decisões que o mundo tomar quando o conflito acabar sejam tão ou mais custosas do que o conflito em si.

Até o momento, o maior dos custos para o planeta é justamente a incerteza.

Nas últimas semanas, o petróleo chegou a atingir o maior valor em oito anos, batendo os US$ 130 por barril, fazendo os EUA irem buscar apoio na Venezuela e Brasil, além de pressionar outros países a aumentarem sua produção (pedido negado pela Arábia Saudita, terceiro maior produtor do combustível no mundo).

A crise de combustíveis, que nem de longe é apenas brasileira, ameaça a estabilidade social em diversos países, mesmo nos desenvolvidos.

A recuperação econômica da pandemia, ainda incompleta, faz com que o preço dos combustíveis pese no bolso mesmo de quem vive em países ricos.

O resultado, claro, é insatisfação generalizada. E há pouco que se possa fazer para convencer a população da mentira que esse é um aumento causado por Putin (o governo dos EUA apela até para influencers do TikTok na tentativa de fazer colar essa versão).

Outras commodities também têm seguem em alta. É o caso do trigo (pão, massas), níquel (fundamental nas baterias de carros e outros elétricos) e produtos alimentícios.

Toda essa situação leva o cenário global para uma inflação ainda mais preocupante.

Mesmo por aqui, onde a expectativa é de que a elevação de juros colabore para uma queda do dólar e consequente queda na inflação, não há sinais de que voltaremos tão cedo a uma inflação “razoável”, ou dentro da meta do Banco Central.

Nos EUA, o anúncio é de que o Federal Reserve deve aumentar os juros sete vezes, o que pode levar a taxa por lá para 2-2,5%. São anúncios tímidos, especialmente pois a taxa de juros reais continuaria em -2%, dada a inflação em 5-6%.

Mas já seria o suficiente para indicar um fortalecimento do dólar e dos títulos públicos americanos, o que elevaria os custos no Brasil.

Outro ponto debatido, claro, é o que será da transição energética europeia, uma área que está no centro da polêmica e que foi responsável nos últimos anos por colocar centenas de bilhões de dólares nas mãos do governo russo.

Sem o gás russo, países europeus terão de rever sua estratégia, aumentar importações da pacífica Noruega ou da monarquia absolutista do Qatar (um país nem tão simpático e que será sede da Copa do Mundo neste ano).

As energias renováveis, como eólica e solar, devem ganhar ainda mais força na Europa. A energia nuclear, zero poluente, ainda segue combatida.

E o resultado, como você já deve ter percebido, é que a Europa seguirá com um modelo energético dependente de fontes intermitentes, cuja produção de energia depende de bons ventos ou do sol, além de uma termelétrica a carvão ou gás natural a postos.

Isso, como já vinha levantando a Bloomberg em 2021, leva o cenário para uma instabilidade energética elevada, fazendo com que crises na área se tornem cada vez mais comuns nas próximas décadas, ao menos até termos a tal transição completa.

São cenários que podem impactar a economia brasileira de inúmeras formas. Afinal, continuamos dependentes do que acontece no resto do mundo.

Por aqui, as consequências até o momento podem ser sentidas na manutenção das taxas de inflação mais elevadas, ainda que menores do que os 10% de 2021

É um cenário complicado, tendo em vista que a alta de juros iniciada em 2021 deveria, em tese, nos entregar juros menores. Podemos acabar, ao menos por um período, tendo juros mais altos e inflação persistente.

No campo, de onde sai boa parte da nossa balança comercial, as notícias são boas e ruins. A boa, claro, é a valorização dos produtos. A ruim é um aumento no custo de produção.

Nesse cenário, pouco muda a expectativa de PIB baixo para o Brasil em 2022. Mas abre-se um precedente para que o país consiga ficar firme em meio a instabilidade. Se não crescer nada de absurdo, ao menos conseguirá manter uma redução de desemprego e retomada da economia.

 

Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com