Isso é o que o coronavírus pode causar na economia brasileira

Que o ano de 2020 não será nada fácil, parece uma sentença já decretada. Daqui pra frente, cabe aos países evitar e retardar situações piores

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(Crédito: Fotos Públicas)

Acordei mais cedo com uma mensagem meio preocupada do meu pai, motorista de Uber, no WhatsApp. Infelizmente, a mensagem não era uma tradicional figurinha de bom dia, mas uma questão meio angustiante: “Você está vendo o que está rolando na Itália? O que acha que vai rolar por aqui?”

Sim, há parentes que perguntam a cotação do dólar e outros que perguntam coisas assim. Mas convenhamos que, se você tem acompanhado a situação e não caiu no conto do “é só mais uma gripe”, já deve ter pensado nisso.

A experiência de viver em uma cidade deserta, sob toque de recolher ou mesmo com proibição de circulação permanente pode ser meio distante para boa parte das pessoas, mas há alguns paralelos.

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No fatídico maio de 2018, o Brasil parou por cerca de dez dias durante a greve dos caminhoneiros. Ideologias à parte, apoie-se ou não a greve, ela teve um custo, e bem maior que os R$ 12 bilhões em subsídios para o diesel (sim, estamos subsidiando diesel no século 21, este é o nível de bagunça em que vivemos no Brasil).

Segundo o Ministério da Economia, em um estudo conduzido pela secretária Ana Paula Vescovi, a greve teve um efeito de 1,2% no PIB. Em valores nominais, isso significa que deixamos de criar R$ 60 bilhões em riqueza (número cinco vezes maior que o custo dos subsídios para diesel ao país).

Para o caso atual, ainda que seja bastante cedo para definir (e, como lembrou o professor Renan Pieri da FGV, a situação ainda demande mais dados para ser de fato mensurada), a Secretária de Política Econômica (SPE) estima um impacto de até 0,56% de queda no PIB, no pior cenário (o estudo da SPE foi publicado no dia 11 de março, e portanto, utiliza os canais de transmissão possíveis no momento, como as exportações, para mensurar o impacto).

Veja: uma queda de 1,2% no PIB significa que perdemos naqueles dez dias de maio de 2018, e nas consequências que ele gerou ao longo daquele ano, o equivalente a tudo que crescemos em 2019. Mesmo metade disso, como estima a SPE agora, significaria mais um ano de resultados fracos para o país, que sofre para superar a pior crise econômica de sua história.

Porém, ao contrário do imaginário popular, a economia não respeita datas comemorativas e não recomeça do zero a cada novo ano. Os efeitos de um locaute ou quarentenas são sentidos por anos em mecanismos de transmissão.

Efeitos na economia

Temos no Brasil, por exemplo, um sistema engenhoso de impostos que atribui às indústrias a responsabilidade de cobrar impostos. Os políticos chamam de “Substituição Tributária”, mas você pode chamar de “Terceirização de cobrança de impostos”.

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Por esse modelo, uma indústria que produza um produto para ser vendido em uma loja, paga os impostos da própria indústria, do distribuidor ou atravessador, e da própria loja. O efeito disso é um aumento de arrecadação do Estado, que agora fiscaliza uma indústria e não mais mil lojistas.

Outro efeito, sentido em casos como a greve dos caminhoneiros e em um possível fechamento por conta do Coronavirus, é o das indústrias com produtos já produzidos sem ter para quem vender, e que para piorar, precisam pagar impostos antes de vendê-los.

Segundo os balanços de companhias de capital aberto, os dez dias de greve geraram perda de R$ 1,2 bilhão em Ebitda apenas nas 10 maiores empresas do país. Ao menos 68% das empresas que compõem o índice Bovespa tiveram prejuízos.

No comércio, que movimenta 12% do PIB do país, cada dia parado equivale a R$ 2 bilhões a menos em vendas. Em supermercados e no agronegócio, o problema são os perecíveis. Com restrições à circulação, as vendas caem e muitos produtos não são aproveitados.

Porém, pouco mais de cinco anos após a crise, agora há uma preocupação ainda maior. Por volta de 5 milhões de brasileiros têm sua renda vinda de algum aplicativo, seja Uber, iFood, Rappi etc. E não há seguro que garanta a eles uma renda com a queda nas vendas.

Por mais que você possa continuar demandando produtos enquanto fica em casa, o número de estabelecimentos fechados tende a crescer, e consequentemente, a demanda pelos apps.

A coisa piora para os donos de estabelecimentos. Os salários terão de ser pagos independentemente de o comércio ou a indústria seguirem funcionando.

Neste caso, o impacto pode ser sentido por anos. Desde falências de pequenas empresas que não têm como arcar com um mês de custos sem nenhum faturamento, até o custo com a contratação de linhas de capital de giro, que por sua vez irão expor as empresas a um endividamento que limita seus investimentos no curto e médio prazos.

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Este efeito bola de neve poderia ainda se estender para a inflação, uma vez que há uma queda brusca na produção a ser compensada posteriormente.

Uma questão global

Dentre os setores da economia, o turismo é de longe o mais afetado. Na Itália, país que está há meras duas semanas com entraves à circulação de pessoas, a estimativa já dá conta de que 32 milhões de pessoas poderão deixar de visitar o país neste ano, retirando € 5 bilhões da economia.

Na mesma Itália, segundo o ex-chefe do tesouro do país, o PIB sob o isolamento do coronavírus está entre 10 e 15% abaixo do normal. No setor de turismo, a queda é de 90%, enquanto a produção industrial caiu 10%. Excluindo o setor de alimentos, o varejo na Itália se encontra 50% abaixo do normal. No trimestre, o país deve perder 0,3% do PIB, enquanto que no segundo trimestre a estimativa está em 1,2%.

Do outro lado do mundo, a China também contribui negativamente. Apenas Hollywood estima perdas de $ 5 bilhões com o fechamento de 73 mil cinemas no país asiático. Muito mais impactante que isso, porém, é o efeito do fechamento chinês nas cadeias de suprimento globais.

Algumas consultorias já avaliam internamente que o vírus possa provocar uma mudança drástica no suply chain global, uma vez que a produção chinesa paralisada pode afetar fábricas nas mais remotas localidades do mundo.

Como aponta a consultoria Capital Economics, o coronavírus pode impactar a economia mundial em até US$ 280 bilhões, gerando um trimestre inteiro perdido.

Para a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA), o prejuízo apenas com as companhias aéreas pode chegar a US$ 113 bilhões.

De volta ao Brasil, empresas como a Azul já suspenderam o guidance para o ano de 2020. No setor de eletrônicos, a paralisação na China já se faz sentir com atrasos na entrega de componentes para produção de celulares, por exemplo.

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Tudo isso pode parecer drástico, e de fato é, mas possui sua razão para ocorrer. Pelo que temos visto ao redor do mundo, o coronavírus leva ao menos 20% de seus infectados a demandarem tratamento hospitalar, com cerca de 5% deles precisando de uma UTI.

Sem qualquer medida para controlar, bastaria que 1% da população brasileira fosse contaminada pelo vírus para que todos os nossos leitos hospitalares fossem utilizados. Neste mesmo cenário, o número de leitos de UTI necessários seria de 100 mil, contra os 44 mil existentes no Brasil hoje.

Que o ano de 2020 não será nada fácil, parece uma sentença já decretada. Daqui pra frente, cabe aos países evitar e retardar situações piores.

Nessa linha de minimizar os danos da maneira mais eficiente possível, a Coreia do Sul pode dar um bom exemplo. Por lá, foram feitos até 140 mil testes por dia.

O custo pode parecer alto, mas convenhamos, encontrar aqueles que estão infectados pelo vírus e dar o tratamento adequado é uma maneira muito mais efetiva do que fechar as cidades por completo. Gasta-se recursos de imediato, mas os custos humanitários e econômicos são fartamente compensados na medida em que a produção segue e mais vidas são salvas.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com