É preciso mudar para evitar que se mude

Cedo ou tarde, presidente irá perceber que não se ganha eleição com inflação em 9%. E, para contornar o problema, irá impor mudanças

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(Alan Santos/PR)

2005 foi um ano conturbado. Escândalos de corrupção tomaram conta de Brasília, levando a percepção de que reeleger o então presidente Lula demandaria uma guinada na política econômica adotada até então.

Por dois anos, Antônio Palocci havia sido a ponte entre uma equipe econômica que não era alinhada ao partido do presidente e a sua base política.

Insultos e xingamentos de petistas tradicionais ao Ministério da Fazenda eram relativamente comuns, uma vez que eles esperavam uma postura mais heterodoxa da pasta. Para alguns, a manutenção da política econômica do governo FHC era um ato de “traição”.

O papel do médico e ex-prefeito Antônio Palocci era essencialmente político.

Em um escândalo no qual abusou do seu poder para quebrar o sigilo bancário de um caseiro que havia deposto em uma CPI contra ele, o então ministro da Fazenda, uma das figuras centrais do governo, perdeu o cargo.

A política bem sucedida de Lula na época, que havia acalmado o mercado e reduzido drasticamente a inflação de 12,53%, em 2002, para 5,69%, em 2005, se viu ameaçada.

Havia sobrado uma única ponta de toda esta política: o Banco Central (BC).

Henrique Meirelles, político tucano e primeiro estrangeiro a presidir uma instituição financeira de grande porte nos Estados Unidos, comandava o BC em uma política que setores do PT acreditavam se tratar de “arrocho”.

Na prática, Meirelles e o Comitê de Política Monetária reduziam os juros lentamente, mantendo a inflação também em queda.

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Palocci e sua equipe haviam contribuído bastante para manter este cenário, uma vez que o ministério produzia gordos superávits primários, facilitando a queda nos juros (a lógica é simples: uma vez que o governo tem menores déficits, ele demanda menos recursos para se financiar, o que diminui a pressão sobre os juros).

Sem um Ministro da Fazenda “rigoroso” com os gastos, Lula acabaria sendo convencido por políticos do seu partido e aliados, como Dilma Rousseff, a rever a política econômica.

Via de regra, bancos centrais ao redor do planeta possuem mandatos que os obrigam a perseguir um aumento no nível de emprego, além do controle da inflação. No caso brasileiro, esse tipo de mandato era, até fevereiro de 2021, exclusivo sobre a inflação.

Em resumo, o Banco Central possui o poder de determinar o preço do ativo central de qualquer economia: o dinheiro (por meio dos tais juros). Ao fazer isso, o BC pode sinalizar à economia que o dinheiro custará menos, e que, portanto, as empresas podem investir mais a um custo menor.

Ao pressionar Meirelles a fazer isso, Lula acabou se deparando com um pedido de demissão. O então presidente do Banco Central colocou o cargo à disposição caso o governo quisesse interferir e alterar sua política monetária.

Na ânsia de ganhar a disputa de 2006, Lula acreditava que um PIB maior, e, portanto, mais empregos, garantiria mais benefícios eleitorais, ainda que a inflação também fosse maior.

A percepção do cálculo político é, de fato, correta, em especial no cenário em questão, de forte crescimento econômico graças ao boom de preços de produtos agrícolas e minerais que o Brasil produzia.

Instintivamente, trabalhadores costumam olhar para os números nominais quando o assunto é renda. Em suma, se o salário cresce 10%, mas a inflação cresce também 10%, a probabilidade de as pessoas estarem mais satisfeitas do que em um cenário onde o salário cresce 2%, mas a inflação cresce 1%, é maior.

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Essa questão, que o psicólogo e prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman explica em sua tese que lhe rendeu o Nobel, é uma equação perigosa.

Não é razoável ser leniente com a inflação diante deste cenário. Afinal, se a inflação subir demais, as pessoas ficarão incomodadas, ainda que todo mundo seja milionário, como no Brasil dos anos 1980.

Há ainda um outro problema mais óbvio. Metade da população brasileira possui um trabalho informal, o que significa dizer que um aumento do salário mínimo tende a não afetá-las. Em suma, muitos acabam perdendo renda para a inflação.

O fato é que Lula perdeu a queda de braço e o BC manteve sua política, reduzindo ainda mais os juros. Sem conseguir dobrar o BC, Lula apelou para o fiscal, com Guido Mantega na Economia.

A virada de chave completa ocorreria apenas com Dilma Rousseff e a substituição do comando do Banco Central (e o resultado você já deve estar cansado de saber).

Esse é um exemplo histórico sobre como determinadas variáveis de política econômica podem, facilmente, incomodar ambições eleitorais.

Resultados que sejam melhores para o país no longo prazo podem facilmente ruir em função de ambições políticas.

Isto pode parecer óbvio, mas o exemplo histórico, geralmente, é difícil de ser percebido no momento. Daí a necessidade de entendermos a História para entender os sinais que ela apresenta.

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No atual momento, estamos em meio a uma longa turbulência política interna, e um Ministério da Economia alinhado ao Banco Central para promover uma política pesada de ajuste fiscal.

Em fevereiro deste ano, o BC recebeu oficialmente sua independência por meio de um projeto aprovado no Congresso Nacional.

Isso garante ao Banco Central força para resistir à pressão política, mas dificilmente lhe dará imunidade. Por isso, é preciso entender onde estamos.

Vivemos um cenário previsível de aumento da inflação ao redor do planeta.

Durante todo o ano de 2020, o mundo viu um aumento expressivo de dinheiro em circulação. Durante a pandemia, os Estados Unidos imprimiram cerca de 1 em cada 4 dólares já criados desde 1917.

A retomada econômica e o crescimento da China, que volta aos níveis pré-pandemia, pressionam o preço dos alimentos e outros produtos no Brasil.

Às vésperas de uma das eleições mais conturbadas da história, o presidente terá de lidar com uma inflação que hoje chega a 9,68% em 12 meses, e claro, terá de fazer isso com menos poder de alterar a política monetária.

Ainda que os apoiadores do presidente digam que sua vitória se trate de uma luta por questões morais, a economia segue sendo a pauta central da eleição.

Como Larry Summers, secretário do Tesouro americano, falou sobre a reeleição de Bill Clinton, “é a economia estúpido”.

Pouco importa que o presidente defenda armas, que diga não ter havido corrupção em seu governo, que defenda o fim do pronome neutro ou qualquer outra pauta similar. Sem a economia ajudar, não haverá reeleição.

O PIB do próximo ano está sendo revisado para baixo. A inflação segue acima da meta.

Corremos o sério risco de entrarmos em uma “estagflação”. Baixo crescimento econômico e elevada inflação.

De quebra, o Executivo federal parece ouvir pouco a questão.

Paulo Guedes está comprometido com o longo prazo, fazendo um ajuste fiscal severo, que deve entregar resultado primário possivelmente em 2023, mas ignorando o custo político dessa decisão.

Não se pode negar que o papel de Guedes seja, em essência, ajustar as contas, algo que ele tem feito. Mas é preciso pensar nas consequências deste ajuste via inflação, e no seu impacto social hoje.

É preciso mudar para evitar que mude.

É preciso que a política atual seja mais severa em combater a inflação e tenha um foco social relevante. Do contrário, o presidente poderá intervir de maneira muito menos ortodoxa para garantir sua reeleição, criando medidas populistas que coloquem em risco um ajuste de longo prazo.

De fato, é possível que sequer haja tempo para reverter o quadro e garantir uma reeleição, mas não faltará vontade.

Cedo ou tarde, o presidente será forçado a enxergar que não se ganha eleição com inflação corroendo renda.

Para remediar o cenário, porém, não se espera que atue para combater a inflação, mas que vá como qualquer populista, buscando alternativas para compensar a alta de preços. No fim das contas, sabemos também pela história que este é um caminho muito mais custoso.

 

 

 

Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com