De sem teto ao PhD na Califórnia, como Gil desafia a estatística de mobilidade social no Brasil

Nascido em uma de tantas famílias pobres pelo Brasil, o participante da atual edição do Big Brother é um exemplo de transformação pela educação, desafiando os obstáculos que fazem do Brasil um país onde a ascensão social é uma das difíceis no mundo

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Gilberto Nogueira, participante do BBB 21 (reprodução: TV Globo)

“Eu crio realidades paralelas na minha cabeça […] Sei que já dormi na rua, sei o que é ter um pai viciado, ser despejado de casa por não ter dinheiro. A vida inteira eu criei as coisas na minha cabeça para aguentar as coisas.”

O desabafo de Gil, participante da atual edição do Big Brother Brasil, teve grande repercussão na internet ao retratar os desafios dos mais de 52 milhões de brasileiros vivendo na pobreza.

Quando falamos de crianças, a situação é ainda mais desoladora, com 42% dos brasileiros de até 14 anos vivendo em situação de vulnerabilidade social.

A frase usada pelo brother remete às suas lembranças de uma infância pobre, em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife, passando por episódios de despejo e fome à rejeição paterna.

Ainda na mesma fala, Gil chega a mencionar a maneira como escolheu seu curso, de economia, mencionando a história de Christopher Gardner, cuja vida, também repleta por momentos similares aos dele (abandono paterno e a situação de pobreza que o levou a viver na rua), foram inspiração para o filme “À procura da felicidade“, com Will Smith.

Hoje, com 2 aprovações em PhDs no exterior, é possível dizer que o garoto de Jaboatão está certamente bem encaminhado para construir seu futuro. Infelizmente, porém, esta tem sido mais uma exceção do que uma regra quando falamos de Brasil.

Na teoria, você não precisa ter a sorte de estar em um programa de televisão, concorrendo a R$ 1,5 milhão em prêmios. O caminho da educação, aquele escolhido por Gil, é, segundo um estudo dirigido pelo pesquisador de Economia Aplicada da FGV, Daniel Duque, o meio mais favorável para garantir uma melhora no seu padrão de vida.

O estudo, que mensurou o impacto da renda dos pais na renda dos filhos, revelou que a associação entre ambas caiu 20 pontos percentuais, de 75% para 55% entre 1996 e 2014 (o que, na prática, significa dizer que a geração atual está menos propensa a repetir a renda de seus pais, permitindo assim uma ascensão de renda em relação à geração passada). A conclusão foi a de que a expansão e a universalização do acesso à educação básica ocorrida em meados dos anos 90 teve papel decisivo na progressão de renda destas gerações.

Este fator existe em qualquer sociedade, mesmo naqueles consideradas mais igualitárias, mas em poucos lugares é tão destoante quanto no Brasil. Por aqui, uma criança que nasça em uma família 2 vezes mais rica do que outra, chegará à fase adulta com, em média, 70% mais renda em igualdade de condições. Na Noruega, a criança de uma família mais rica teria 20% mais renda do que a outra.

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Apesar dos avanços, no ano de 2019, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), passadas duas décadas após a universalização do ensino básico portanto, mais da metade da população adulta (51,2%), cerca de 69,5 milhões de brasileiros, não concluiu o ensino médio.

O estudo também revelou uma evasão escolar alarmante, apontando que cerca de 1 em cada 5 jovens abandonaram a escola. Dentre os principais fatores, a necessidade de trabalhar representa ao menos 39,1% dos casos, enquanto os afazeres domésticos representam outros 11,5% (o que corrobora a relevância da renda dos pais na formação de renda dos filhos).

Em suma, ainda que a educação seja sabidamente o caminho mais conhecido para uma progressão social, os obstáculos enfrentados por jovens impedem que ela seja usufruída de fato.

Por questões como estas, o Banco Mundial estima que uma criança nascida entre os 20% mais pobres leva em média 9 gerações para atingir a renda média do país. No Chile, o número é de 5 gerações, e na Dinamarca, de 4 gerações. Este é, em essência, o conceito de “mobilidade social”.

Em um número mais simples de entender. Entre as crianças que nascem em famílias que compõem os 20% mais pobres da população, apenas 7% deve chegar aos 20% mais ricos. Na média da OCDE, o número é de 17%.

Não menos relevante, em especial quando falamos de Brasil, está a violência urbana. Por aqui, cerca de metade dos homicídios envolvem jovens entre 15 e 29 anos. Se fosse um país isolado, o “Brasil jovem” teria taxas de 69,4/100.000, números superiores ao de regiões de conflitos recentes, como Síria ou Iraque.

Este é um caso marcante quando citamos, por exemplo, Jaboatão dos Guararapes e a região de Recife, que em 2018 figurava como a 22ª região mais violenta do planeta.

Acesso à educação e mesmo aos serviços de saúde pública e exposição à violência urbana variam em função de um fator determinante: a renda.

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Um estudo publicado pela Salurbal (projeto de saúde urbana na América Latina), mostra que a expectativa de vida dentro de uma mesma cidade pode variar até 18 anos no continente. Em São Paulo, por exemplo, ela varia 14 anos entre os distritos mais ricos e os mais pobres.

Em outro dado, desta vez do IPEA do governo federal, aponta que a probabilidade de alguém com ensino superior ser assassinado no país é até 15,9 vezes menor do que a de algum brasileiro sem o ensino médio completo.

Em suma, trata-se de uma “armadilha de renda”. Pais com menor renda tendem a morar em locais com menor oferta de serviços públicos, como saúde, educação e segurança, criando assim maiores dificuldades para que as gerações futuras escapem deste mesmo cenário.

Que Gil tenha superado todos os desafios e ido contra as probabilidades mais surreais possíveis entregues a ele por este país aqui é um feito relevante e digno de nota. Como a ciência que ele escolheu abraçar ensina, porém, há alguns caminhos que podemos adotar para evitar que os sucessos se tornem memoráveis pela exceção.

James Heckman, PhD e Nobel de economia explica que investir na infância é uma escolha que faz sentido sob qualquer aspecto. Nas contas de Heckman, para cada dólar investido em uma criança até os 5 ou 6 anos, há um retorno para a sociedade de 14 centavos ao ano durante toda a vida.

Trata-se de uma conta simples, com um ROI (return on investiment no jargão da Wall Street ou da Faria Lima), invejável.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com