Com 10 greves em 9 anos, os Correios seguem perdendo relevância

Entre 2007 e 2013, os Correios não apenas perderam o monopólio de entregas, como também sofreram saques de R$ 6 bilhões do seu caixa. O resultado é uma empresa incapaz de investir para concorrer, que se encontra em situação falimentar

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O ano de 2010 foi marcado por euforia quase generalizada no Brasil. A economia crescia em níveis recordes e os sinais da crise que se instalaria dali a 4 anos ainda eram invisíveis para a ampla maioria da população.

Neste mesmo ano, enquanto o país se ocupava de xingar Dunga por não convocar Neymar e mais uma vez frustrar o sonho do hexa, o governo promovia a maior capitalização de uma empresa da história do planeta, dando US$ 70 bilhões para a Petrobras investir.

Apesar da euforia com as campeãs nacionais, dos investimentos maciços em estatais e de um crescente papel do BNDES em financiar grandes empresas, de maneira discreta o governo também promovia um desmonte de outra estatal, os Correios.

Fundado em 1663, os Correios são, por larga vantagem, a empresa mais antiga do país, assim como a maior empregadora.

Ao longo de sua história, a companhia avançou em reestruturações, incorporando novas funções e modernizando seus serviços, até chegar a forma como conhecemos hoje, mais ou menos pelo início da década de 1970.

Ao final desta mesma década, em 1978, o ditador Ernesto Geisel promulgou a esdrúxula resolução Lei Nº 6538/78, decretando o monopólio dos Correios sobre entregas e pena de detenção de até 2 meses para quem violasse o monopólio estabelecido.

O problema? Como qualquer manual de economia ensina, monopólios detestam inovação, criam comodismo e tendem a extrair renda dos consumidores ao maximizar preços (afinal, não há concorrência).

Foi apenas em 2009, quando a gigante do comércio eletrônico Amazon já tinha 15 anos de idade e os e-mails e celulares já haviam tornado a comunicação por cartas obsoleta, que o monopólio de entregas foi quebrado.

Para os Correios, entretanto, a perda do monopólio foi apenas um dos inúmeros “ataques”, a empresa.

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Não apenas o setor pode enfim ter alguma concorrência e novos fornecedores, diminuindo drasticamente os custos para os consumidores, como a estatal ainda se via constantemente alvo do governo para que fornecesse mais dividendos.

Até este momento, os Correios ainda possuíam um lucro razoável. Em 2010 por exemplo, lucraram R$ 2 bilhões. Entre 2007 e 2013, a estatal forneceu R$ 6 bilhões ao Tesouro Nacional.

Tratava-se de uma empresa como outra qualquer que, se não entregava resultados ao consumidor, pelo menos não gerava prejuízos ao governo, seu único dono.

Com a quebra do monopólio e os saques de recursos constantes, os problemas começaram a ficar evidentes. A estatal foi perdendo fôlego para investir e competir.

Como em uma amostra de que o Brasil é frequentemente um dançarino desengonçado, demos um passo adiante para beneficiar o setor de e-commerce, e dois para trás quando em 2012 a ex-presidente Dilma Rousseff sancionou a lei Lei Nº 12.741/12, criando regulações esdrúxulas sobre o setor.

Com essa regulamentação, o comércio eletrônico precisava não apenas cumprir uma série de burocracias e preencher infindáveis papeladas, como também pagar ICMS no Estado de onde a venda era feita e no Estado onde ela se destinava.

Se, neste momento, os Correios eram a única empresa capaz de atender todo o território nacional, o governo tratava de, por um lado, retirar recursos da empresa e travar um setor no qual os Correios poderiam crescer.

Com os saques constantes, ficou evidente que o monopólio criou inúmeros problemas para a estatal.

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Os Correios, recém destituídos do seu monopólio, tinham agora que competir com empresas novas, que não tinham os mesmos vícios.

Em 2011 por exemplo, reportagem de O Globo mostrou que havia 1 gerente para cada 2 funcionários da empresa, e 9 mil funcionários em licença médica.

Neste mesmo período, os Correios mantiveram seu generoso plano de saúde. Em 2016 por exemplo, o plano consumiu R$3,5 bilhões. Em média, de cada R$ 100 em gastos de saúde, a estatal banca R$ 93.

Trata-se de um plano com 400 mil beneficiários, incluindo aí pais e mães de funcionários (desde que obedeçam critérios de renda). Destes, 91 mil possuem mais de 60 anos, o que acarreta em mais custos.

Trata-se de um valor equivalente a 7 vezes o investimento da estatal em 2017 por exemplo. Um custo médio de R$9 mil por beneficiário, ou mais de 6 vezes o gasto do governo com a saúde de cada habitante do país.

Este, porém, não é um juízo de valor acerca dos benefícios dados aos empregados. Nos Estados Unidos, por exemplo, a General Motors promove fartos benefícios em saúde, chegando a gastar mais com planos de saúde para os funcionários do que em aço para produção de seus carros.

O fato é que os Correios foram sendo empurrados para condições cada vez menos favoráveis. Não possuíam condições de competir com as empresas que se propunham a atuar no setor de comércio eletrônico em nascimento.

Os resultados de tamanho descompasso não demoraram a acontecer.

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Conforme apurou a Controladoria Geral da União em 2017, apenas entre 2010 e 2016 os Correios tiveram um aumento de 1054% no valor das indenizações por perdas de mercadorias.

Sem investimentos em modernização, as perdas tornaram-se comuns, retroalimentando os custos da estatal.

O valor pago em indenizações apenas em 2017, de R$ 201,7 milhões, é equivalente a todo investimento da estatal naquele mesmo ano.

Na outra ponta, empresas como o Mercado Livre, hoje a maior empresa Latina, investiram não apenas em modernização, com investimentos que saíram de R$ 1 bilhão em 2017 para R$ 3 bilhões em 2019  (mais de 6 vezes os investimentos dos Correios no mesmo ano), como também aproveitaram para complementar serviços.

Hoje, o Mercado Pago, serviço da empresa, garante até 90% do valor da mercadoria em caso de produtos não entregues. Em troca, a companhia cobra de seus vendedores uma taxa e atua como financeira.

Preso ao setor de entregas, os Correios não possuem meios de explorar um serviço similar. Servindo apenas como entregadores e não como markeplace.

Neste exato momento, enquanto os funcionários da estatal anunciam sua 10ª greve em 9 anos, o Magazine Luiza agrada os investidores ao mostrar que sua plataforma de vendas saiu de 9 para 32 mil vendedores no espaço de um ano.

O Magalu, cujo caixa com R$ 5 bilhões está gordo em função de constantes captações de recursos, segue investindo em modernização do sistema de vendas e de entregas.

Segundo o último relatório da empresa, cerca de 85% dos vendedores utilizam o Magalu Entregas, que assim como o Mercado Livre, possuem parcerias com os Correios.

Na teoria, os Correios poderiam se tornar uma empresa que distribui produtos de markeplaces diversos. Ainda que isso impeça a estatal de explorar outros serviços, como adiantamentos aos vendedores, seria um nicho de mercado razoável.

Seria, é claro, se as empresas estivessem paradas e confortáveis em depender da estatal. Este, porém, não é o caso. Há dois anos, o mesmo Magalu adquiriu a Logbee e hoje conta com 4 mil pequenos transportadores. A empresa, que investe em centros de distribuição, utiliza um serviço de retirada em loja, ou meramente utiliza suas lojas físicas como pequenos centros de distribuição.

Na prática isso reduz custos e prazos. Pressionando os Correios ainda mais.

Não há dúvidas de que a logística seja o maior desafio para o e-commerce no país. Se nos Estados Unidos a discussão se dá sobre “a última milha”, em que empresas como a Amazon compram shoppings para transformar em centros de distribuição próximos aos consumidores, no Brasil o desafio segue sendo entregar em 24h.

Para a estatal, que carrega custos exorbitantes, a competição é mais do que injusta, e sim uma barreira quase intransponível.

Esperar que os Correios consigam competir com empresas que valem R$140 bilhões, como no caso do Magazine Luiza, ou R$320 bilhões, é algo fora de cogitação, mesmo para o mais otimista dos nacionalistas.

A grande questão, entretanto, é que a privatização – o sonho de uns e pesadelo de outros – também não é tão simples.

É improvável que surja qualquer comprador disposto a levar a empresa inteira. Afinal, há inúmeros passivos trabalhistas além, é claro, de um rombo bilionário no Postalis, o fundo de pensão que investiu em títulos da da Venezuela e Argentina, além de comprar ações de empresas do grupo X de Eike, e títulos do Lehman Brothers (aquele mesmo que quebrou e deu início a crise de 2008).

Para além dos custos que tornam os Correios um ativo não tão desejado quanto se faz crer, existem serviços, como as entregas de cartas e faturas, que atuam sob diferenças perspectivas.

Também é improvável que uma empresa se disponha a comprar e operar um serviço que possui lucro em determinadas regiões, como São Paulo, e prejuízo em regiões de cidades pequenas em locais afastados.

Essa, porém, não deveria ser a questão que trava a discussão. Diversos setores de infraestrutura, como energia ou telefonia, operam sob um modelo em que o setor privado continue garantindo acesso aos mais pobres em locais menos rentáveis, para que possam explorar locais mais rentáveis.

O programa Luz para todos, por exemplo, garante um subsídio para que regiões rurais também sejam atendidas por concessionárias de energia. Facilmente o serviço postal poderia ser atendido da mesma maneira, ou ainda, ele poderia continuar estatal e operando em prejuízo, sendo uma “estatal dependente”.

Na prática, estatais dependentes são aquelas cujo serviço é relevante, mas não possuem condições ou interesse para que se mantenham no mercado. Um exemplo clássico é a estatal de gestão dos hospitais universitários.

Nada disso, porém, significa que precisamos manter os Correios em um serviço essencialmente privado, como a distribuição de pacotes de mercadorias.

Este setor, tão importante para atender pequenos comerciantes, demanda investimentos pesados para manutenção e modernização. Não faz sentido do ponto de vista social, alocar recursos do governo para financiar uma transportadora.

O entrave, porém, é que as greves realizadas não têm por objetivo solucionar o impasse em que os Correios se encontram como empresa, mas sim garantir que continue arcando com os custos de uma empresa monopolista que já não existe.

Por mais justas que as reivindicações dos funcionários sejam, e claro, há inúmeras delas bastante razoáveis, elas não tocam no ponto central da decadência da empresa.

A escolha do destino dos Correios deve ser feita pela sociedade – e os caminhos são claros. Ou a empresa torna-se independente, podendo buscar recursos para investir, mantendo-se como um grande player no mercado, ou ela de torna apenas mais uma estatal dependente em função do seu caráter social.

O que não é razoável esperarmos, porém, é que o Estado aporte recursos para modernizar a distribuição e assim subsidiar as grandes varejistas.

Não é justo, ou ético, que o governo cumpra o papel de garantir as entregas de vendas feitas por empresas privadas.

O resultado, entretanto, será como tudo que envolve os Correios, político.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com