Baixo crescimento e inflação em alta: o novo normal pós-pandemia

O menor crescimento populacional, uma tendência das últimas décadas, tem se intensificado nos últimos anos, ganhando ainda um novo componente: uma matriz elétrica instável em função das energias renováveis. O resultado? Choques de inflação e crescimento econômico em queda se tornando mais comuns

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Foi em 1855 que o francês Achille Guillard introduziu a palavra “Demografia” ao mundo, em seu livro sobre o comportamento populacional humano.

Do grego, Demos significa povo, enquanto Grafia, significa “escrita”. E a despeito de o tema parecer meio entediante (de fato é, mas também é importante), restrito a censos e contagem populacional, ele tem sido um dos indicadores mais relevantes para a sociedade nas últimas décadas.

Quer um exemplo? Em 1960, a idade média dos brasileiros estava em 18,6 anos. Isso significa dizer que somando a idade de todo mundo por aqui, dividindo pelo total da população, éramos praticamente adolescentes.

Em 1995, chegamos a uma média de 23,9 anos. Já em 2020, a média de idade chegou a 33,5 anos. Em suma, envelhecemos quase 2 vezes mais rápido nos últimos 30 anos do que no mesmo período anterior.

Isso foi crucial para, enfim, aprovarmos uma idade mínima na aposentadoria. Essa mesma ideia havia sido derrubada em 1997, o que mostra nossa letargia para nos anteciparmos aos problemas.

Estamos envelhecendo, e rápido. Em 2040, a idade média dos brasileiros deve chegar a 41,6 e em 2050, chegara aos 45,1.

O mais provável, porém, é que não cheguemos a nos tornar um país rico nesse meio tempo.

Trata-se de uma fatalidade possível de ser evitada, claro, mas bastante difícil.

Veja, nos últimos 30 anos o Brasil cresceu em média 2,3% do PIB. Deste valor, 1,7% veio do aumento populacional. Em 2010, este aumento já havia caído para aproximadamente 0,9% ao ano. Em 2020, foi de 0,55%.

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É bastante provável que ali pelo ano de 2031, a população brasileira chegue ao seu auge. E dali em diante, comece a cair.

Isso significa que, se quisermos manter o mesmo crescimento de 2,3% (muito baixo), nas próximas décadas, teremos triplicar o aumento de produtividade, saindo dos 0,7% para até 2,3%.

É uma tarefa bastante difícil, e que não conseguimos nos últimos 40 anos, mas que mostram, em resumo, o quanto nos acostumamos a ser um país gigante.

Ao contrário do mito, o Brasil está longe de ser um país rico. Trata-se de um país grande, com elevada população e mercado consumidor, mas longe de ser rico.

Os desafios demográficos que enfrentamos agora, porém, não são uma questão restrita ao Brasil. Este desafio é global.

Com exceção de algumas nações africanas, como Uganda, Nigéria e Etiópia, e outras asiáticas, como a Indonésia, são poucos os países do mundo que não estão envelhecendo.

Na China, que por décadas restringiu o número de nascimentos, a população idosa crescente é provavelmente a maior ameaça já enfrentada pelo partido comunista chinês.

O motivo? O país não possui nenhum sistema de seguridade social. Não há previdência ou políticas públicas do tipo. A responsabilidade de sustentar os idosos é dos filhos.

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Este modelo favorece bastante a poupança, uma vez que os jovens precisam economizar recursos para ter uma renda que ajude a garantir o bem-estar da sua família, além de si próprios.

Ocorre que 70% do patrimônio dos chineses estão em um único ativo: imóveis.

Com menos pessoas nascendo, há menos pessoas entrando no mercado de trabalho. Isso reduz o crescimento econômico, e consequentemente a demanda por novos imóveis.

Na prática, os chineses estão vendo seus imóveis se tornarem menos demandados, o que apresenta um risco de que o retorno deles irá cair. Para além disso, a construção representa até 30% do PIB chinês.

Com menos pessoas comprando imóveis, a economia desacelera. Para o Brasil, que exporta minério de ferro, também não é lá uma notícia animadora.

Nos Estados Unidos, o fator imigração tem levado a mudanças drásticas na Demografia.

Além de jovens mais pobres que seus pais, o perfil dos americanos tem mudado, e muito. É provável que essa população migrante ganhe ainda mais peso nas próximas décadas, e impacte significativamente a sociedade americana.

O “velho mundo” dispensa apresentações. A população europeia, que banca 50% dos gastos sociais do planeta para cerca de 10% da população mundial, já tem problemas com essas mudanças há um bom tempo.

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Tudo isso somado, é bastante provável que o crescimento econômico mundial vá diminuir.

Mas este é apenas um dos fatores da mudança demográfica.

É esperado que com menor crescimento, os juros se mantenham mais baixos, o que favorece projetos de longo prazo.

Uma população mais jovem também consome mais da sua renda (mesmo na China), o que reduz a poupança disponível.

Com mais poupança disponível, os juros caem, assim como os retornos de curto prazo.

Valuations hoje considerados “malucos” podem se tornar um padrão. Em uma economia onde o dinheiro parado rende -1% ao ano como na Suíça, ou -4% como nos EUA, uma empresa cujo lucro 10% ao ano se torna um grande negócio.

Neste cenário, onde o crescimento menor é uma questão quase certa, há dois caminhos.

Podemos entrar em um cenário de “japanização”, em referência ao crescimento baixo somado a uma deflação visto no Japão, ou uma estagflação, com crescimento baixo e inflação elevada.

No momento atual, e ainda longe portanto dessas mudanças demográficas futuras, o cenário que se desenha é uma nítida estagflação”.

A bagunça global no setor de energia, pode levar a uma alta ainda maior no preço do petróleo, que se estima poder atingir até US$ 100 dólares o barril (+25% em relação a hoje).

O preço do gás natural, por sua vez, já subiu +400% na Europa. Em suma, o crescimento econômico que poderia haver em função da retomada pós pandemia, está ameaçado pela falta de energia.

O cenário atual é um retrato de uma instabilidade que tende a se tornar cada vez mais natural. A ausência de ventos, ou chuva, tem se mostrado um fator crucial para determinar a oferta energética de um país, e consequentemente seu nível de preços.

No Brasil, por exemplo, a falta de chuvas e a alta do petróleo lá fora elevam a pressão sobre a inflação, que já chega a 9,68% em 12 meses.

Para 2022, o crescimento que já chegou a 2,2%, agora está mais próximo de 0,5%.

É bastante plausível que nesse cenário de oferta incerta de energia, de dificuldades sociais e menor crescimento econômico, as crises, incluindo aí tensões sociais, possam se encurtar.

Quando enfim sairmos da pandemia e de suas consequências (algo que ainda não sabemos bem quando será), o desafio de reverter a tendência demográfica e impactar a produtividade voltará não como uma possibilidade, mas como um imperativo.

Do contrário, é melhor se acostumar a longos períodos de estagflação.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com