A vingança do petróleo

Com o aquecimento global e mudança de matriz energética em pauta, o petróleo saiu de patinho feio para um combustível cada vez mais valorizado, e deve continuar assim por um bom tempo
Por  Felippe Hermes -
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Matt Damon é provavelmente um dos principais nomes de Hollywood quando o assunto é militância política.

Além de uma carreira sólida como ator, Matt se consagrou como defensor de causas e movimentos voltados aos direitos humanos.

Em 2012, porém, uma polêmica envolvendo seu nome virou filme. “Terra Prometida”, um filme entediante sobre a indústria do petróleo, alertava sobre os perigos das perfurações em terra para produção de petróleo e gás natural.

O problema? O filme foi financiado pelos Emirados Árabes, um dos maiores produtores de petróleo e gás natural do mundo, e de longe um dos maiores interessados em minar a concorrência na área.

O período em questão marcou o auge do “fracking”. Em uma política levada a cabo por George W. Bush e Barack Obama, os EUA se tornaram “independentes” quando o assunto é petróleo.

A política foi tão bem sucedida que em questão de poucos anos o “óleo de xisto” fez dos EUA o maior produtor mundial de petróleo, algo capaz de garantir a segurança energética por lá.

O sucesso da política americana em questão também foi sentido por aqui, mas na ponta oposta.

Neste mesmo período o Brasil havia decidido que iria investir sozinho, abrindo mão de recursos privados internacionais para explorar o pré-sal.

O resultado foi que acabamos sobrecarregando a Petrobras (PETR3;PETR4), que se endividou de maneira alarmante, dispensamos investimentos externos em um momento onde a liquidez global atingiu níveis nunca antes vistos (dinheiro literalmente a juro 0 para investir), e ao final, ali por 2015, vimos o preço do petróleo desabar com o aumento da produção nos EUA.

Com uma oferta excessiva e uma agenda ambiental crescente, seria possível dizer que o petróleo estava com os dias contados e que os preços não voltariam a subir. Ocorre que nos últimos anos o mundo tem visto justamente o oposto.

Massacradas por investidores e pressionadas por governos, as petrolíferas se tornaram um investimento bastante atrativo. Seu principal produto está cada vez mais escasso e é mais difícil de produzir, com regulações e pressões em torno de questões ambientais dominando a pauta política.

Na outra ponta, a demanda segue praticamente estável, afinal, a mudança de matriz energética não é algo que ocorre do dia para a noite.

Para piorar, a aposta na transição energética tem sido calcada em fontes como eólica e solar, ou seja, fontes intermitentes e que demandam uma nova infraestrutura de linhas de transmissão.

Ao contrário de uma usina a gás natural, ou carvão, uma usina eólica não pode ser implementada do lado de uma cidade; ao contrário, precisa ficar distante. Nos cálculos da VOX, mudar apenas a grade elétrica dos Estados Unidos pode custar ao menos $ 700 bilhões, e levaria cerca de 20 anos.

Na prática, isso significa que ainda dependeremos do petróleo, ou gás natural, por um bom tempo.

Isso, porém, não é todo o problema. Os investimentos em produção de petróleo tem caído drasticamente, para cerca de US$ 40 bilhões ao ano, contra US$ 100 bilhões em 2008.

Em resumo, estamos entrando em uma fase onde a intermitência na geração de energia será um problema grave na economia global, e onde fontes seguras de energia, como o gás natural ou o petróleo, seguirão cada vez mais controladas por países “politicamente instáveis”.

Esta é, como mencionei neste artigo anterior, a melhor notícia possível para a Rússia, cuja influência está crescendo na medida em que a maior economia europeia, a Alemanha, segue cada vez mais dependente da energia vinda da Sibéria.

O tabuleiro do poder global deve ser significativamente afetado nos próximos anos em função da mudança energética, com países como China já declarando que “a segurança energética é uma questão crucial a ser mantida em meio a pressões ambientais”.

E o componente político não se limita aos rios de dinheiros que países autoritários tendem a ganhar às custas da preocupação ambiental no ocidente. Eles se espalham para todos os lados, com a alta de combustíveis cobrando seu custo.

As razões para sentirmos essa alta são parte da psicologia econômica, tendo em vista que nosso referencial de comparação de preços pode ser literalmente a semana anterior. Em suma, sabemos quanto custava há 7 dias e vemos o quanto custa hoje.

O sentimento de alta aqui é muito mais visível do que um índice abstrato de inflação ou a alta do preço de um produto entre tantos que compramos no mercado.

Tudo isso, claro, deve terminar em tensões políticas, e está muito longe de ser algo exclusivo do Brasil. Combustíveis subiram, e muito, em diversos países.

Não chega a espantar, porém, que o tema seja ponto central em discussões políticas por aqui.

O tema envolvendo a Petrobras e o preço dos combustíveis encontra visões distintas em Lula, Bolsonaro, Moro e Ciro.

E a real razão para isso, é que ao contrário de países como a Rússia, que produz 27,5 barris de petróleo por habitante, o Brasil produz 6,3.

Nem de longe nos beneficiamos dessa alta, a despeito de ser uma “commodity”, nossa especialidade.

O custo da alta do barril é essencialmente repassado para o consumidor local, e não gera divisas extras ao Brasil.

Infelizmente, porém, a discussão por aqui dificilmente envolverá uma compreensão das disputas geopolíticas na área.

Conhecendo nosso Congresso, é provável que o tema gire em torno de subsídio ou uma medida tampão.

O certo é que o petróleo está se vingando daqueles que por décadas decretaram o seu fim – e que acreditam ser fácil se livrar de uma fonte de energia extremamente barata e eficiente.

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Felippe Hermes Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com

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