A nova oportunidade que a alta das commodities garante ao Brasil

Ao longo da história brasileira, assim como a da América Latina em geral, a dependência de commodities promoveu inúmeras oportunidades de desenvolvimento. A escolha pelo caminho mais fácil, o do populismo, impediu que isso ocorresse. Agora um novo ciclo abre novamente essa porta

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Foi em junho de 1981 que Paul Volcker, o presidente do banco central americano, o Federal Reserve, marcaria seu mandato à frente da instituição. As taxas de juros da maior economia do planeta chegaram a inacreditáveis 20%, em um rigor que buscava debelar de vez a inflação.

Trata-se de um número surreal, em especial hoje quando vemos os juros americanos oscilarem entre 0 e 0,25% ao ano, mas que se adequava a um momento também surreal.

Após a revolução iraniana e o segundo choque do petróleo, os americanos viam uma inflação sem precedentes na história, de 14,3% em 12 meses. Para piorar, o desemprego também atingia níveis recordes, colocando fim a uma ideia consensual na época de que um pouco mais de inflação permitiria maior geração de empregos e vice-versa.

O período duro enfrentado pelos EUA, porém, soa como uma calmaria diante das consequências dessa alta de juros em economias na América Latina.

Se por lá a política de Volcker reduziria a inflação para 3% no final de seu mandato, por aqui levaria o Brasil a uma crise, com queda de 8,5% no PIB entre 1980 e 1985.

Por aqui, os anos 80 ficaram conhecidos como “a década perdida”. Começando pelo México, onde o termo nasceu, os países da região que haviam se endividado enormemente durante os anos 70 se viam agora presos a uma dívida em dólar, com juros em níveis recordes e uma economia global desacelerada.

Durante todo o século 20, países latinos viram seus altos e baixos ligados essencialmente ao rumo da economia mundial. Em períodos de crescimento, a região via um boom de commodities (como petróleo, soja, trigo, carne e minérios), inundar os cofres públicos e o bolso dos seus cidadãos de dólares. Em outros momentos, como nos anos 80, ocorria o oposto.

Em inúmeras ocasiões, períodos do tipo levaram a uma crença de que “enfim, os países latino-americanos haviam encontrado a fórmula do sucesso”.

Nossa dependência de commodities já garantiu alguns momentos que hoje poderiam ser encarados como balela. Nos anos 40, por exemplo, Argentina e Venezuela chegaram a ter a sexta e a quarta maior renda per capita do planeta respectivamente.

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Após o fim da segunda guerra, uma onda de imigrantes espanhóis tomou conta de uma efervescente Venezuela, que via o preço de commodities como o petróleo aquecer em função da retomada da Europa.

Ainda que não tenha atingido níveis tão altos na escala global, o Brasil também surfou momentos de euforia. Até hoje, o recorde de período com mais aberturas de capital em bolsa pertence ao ciclo de alta das commodities que antecedeu a primeira guerra mundial, quando vimos 250 empresas abrindo capital em um período de 6 anos.

Há de considerar um fator relevante entretanto. Até a década de 1970, a agricultura brasileira estava quase que restrita ao sul e sudeste. O Centro-Oeste ainda não era considerado o celeiro que é hoje, e nossa produção de petróleo só foi atingir níveis consideráveis após 1997 com o fim do monopólio, de modo que nossos ganhos nestes booms ficaram quase que restritos aos minérios, ou alguma monocultura como o café.

Ainda assim, três décadas após o desenvolvimento agrícola do centro-oeste, veríamos um novo super ciclo, e dessa vez, puxado pela China e sua entrada na OMC.

O super ciclo que durou entre 2000 e 2014 é ainda hoje bastante presente na memória da população do país. Suas consequências positivas, elevando o crescimento do país, a geração de empregos e inundando o Brasil de dólar, fizeram a festa de todas as classes sociais, além dos políticos, que diante da fartura não pouparam ideias mirabolantes sobre como torrar a bolada que entrava no país via superávits comerciais.

O crédito explodiu no período, a construção civil viu seu maior período de vendas, assim como a indústria de automóveis e outros bens de consumo.

Não apenas tivemos nosso primeiro boom de commodities pós revolução verde, como também após um breve período de reformas, culminando em uma combinação quase perfeita.

Ao final dos anos 90, o Brasil já tinha superado seu problema com alta de preços, criado mecanismos rígidos de controle da dívida pública, adotado um câmbio flutuante e metas de inflação.

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Passamos pelo fim da paridade do real com o dólar sem perder o controle sobre os preços, como ocorreu na vizinha Argentina, que junto da euforia do crescimento viu seu índice de inflação chegar aos 40% em 2010.

De fato, bem que tentamos promover distorções na inflação, represando aumentos nos preços de combustíveis e editando medidas provisórias para reduzir a conta de luz.

A primeira, causou prejuízos de R$ 120 bilhões à Petrobras, enquanto a segunda gerou prejuízos de R$ 140 bilhões ao setor elétrico. Em boa parte, estão atreladas a crise que passamos em 2014-2016, com uma queda de 8,1% no PIB.

Em comum com outras épocas há um fator importante. Não fizemos qualquer avanço institucional ou reformas enquanto a economia ia bem. Quando o clima permitiria discutir com calma os próximos passos e evitar um derretimento da economia quando os preços de produtos que vendemos voltassem a realidade.

Via de regra, fazemos ajustes por aqui apenas nos momentos de crise. Nadamos contra a maré, sempre.

Neste exato momento, porém, podemos estar de volta ao início do ciclo. Nos últimos meses as commodities, como minério de ferro, soja e petróleo, têm se recuperado na medida em que a economia volta à normalidade com o avanço da vacinação e o controle da pandemia.

Os efeitos já são bastante visíveis. Tivemos no primeiro trimestre deste ano uma geração recorde de empregos. Foram 841 mil postos de trabalho nos 3 primeiros meses do ano, o segundo maior número desde o início da série.

Nossa balança comercial também tem reagido bem. A expectativa é de que ao final do ano, o país tenha o maior superávit comercial da história, fechando em $83 bilhões.

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Ao contrário do último ciclo, entretanto, há causas menos sólidas neste momento. A economia mundial está crescendo menos, apesar de um 2021 de maior crescimento em função da base deprimida em 2020.

O cenário pode ajudar o país a retomar mais rapidamente sua economia em relação ao período pré-pandemia.

O momento, porém não é de voltar a repetir o que sempre fizemos e abandonar ajustes, reformas e gastar a grana extra que o mundo está pagando pelos nossos produtos.

Sabemos que a conjuntura do país não é nada fácil, que nossa demografia está mais frágil, com cada vez menos trabalhadores e uma produtividade de crescimento incipiente.

Podemos, entretanto, quebrar o ciclo que nos prende ao subdesenvolvimento, ainda que seja difícil, e focarmos em resolver nossas questões de longo prazo em um momento de aparente bonança.

Seria histórico, mas não é uma tarefa das mais fáceis.

Tivemos também recordes de arrecadação por parte do governo. Como convencer servidores de que a reforma administrativa é um imperativo de longo prazo neste cenário? Caberá ao congresso liderar a questão.

Da mesma maneira, o Congresso pode vir a se inspirar na agricultura, o único setor cuja produtividade no país cresce consideravelmente.

Na última década, a produção de soja no Brasil teve um ganho médio de 5,1% ao ano em produtividade, o que significa maior produção em menor área, surfando com isso em ganhos relevantes.

Deveríamos estar hoje olhando para os diferenciais da agricultura e replicá-los para o restante da economia.

Há neste setor uma tributação muito menos complexa que na indústria ou serviços, menor custos de capital e maior acesso a tecnologia de ponta no mundo.

Além disso, nossa agricultura, ao contrário de nossa indústria, compete fortemente com o resto do planeta, na medida em que produz commodities, ou seja, produtos comuns.

Uma abertura comercial também depende de boa vontade do congresso e articulação do Congresso.

Em suma, uma nova chance está disponível para o país. A maneira como vamos usá-la é o que irá, mais uma vez, definir o destino do país.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com