A nova corrida espacial é repleta de ressentimento contra os ricos

Mais de um século depois de um milionário extravagante, Santos Dumont, ter inventado o avião, seguimos acreditando que viagens espaciais são uma mera brincadeira de gente rica.

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(Blue Origin)

Em 20 de julho de 1873, nascia Alberto Santos Dumont. Radicado em Paris, o brasileiro se tornaria cerca de três décadas depois um dos responsáveis por iniciar a era da aviação.

Aos olhos de hoje, é possível que Dumont, porém, não passasse de “um rico extravagante brincando de aviãozinho”, como são chamados Elon Musk e Jeff Bezos.

De fato, pouco após se mudar para Paris para estudar, aos 21 anos, seu pai acabou falecendo e lhe deixando parte de uma herança que, em valores de hoje, somaria algo como US$ 300 milhões.

Foi com esses recursos que, não apenas sua educação, mas seus modelos de balões e aviões, foram financiados.

O fato de ter herdado uma quantia mais do que razoável para se sustentar e poder investir em sua paixão faz de Santos Dumont um espécime completamente distinto de suas contrapartes americanas, os irmãos Wright.

Orville e Wylbur Wright trabalharam em seu projeto de avião mantendo “segredo industrial” sobre sua invenção.

O objetivo dos irmãos, ao contrário de Dumont, era bastante claro: patentear e vender a inovação para o governo americano, e assim, tornarem-se ricos.

Dumont, por outro lado, publicou seus modelos em revistas, permitindo que qualquer um pudesse criar um modelo como os seus e voar.

Mais de um século depois, a corrida se tornaria outra: o espaço. Os personagens, entretanto, acabariam por mesclar um pouco de Dumont e os irmãos Wright.

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Jeff Bezos, Elon Musk e Richard Branson são os três bilionários por trás das empresas que hoje promovem uma corrida para chegar ao espaço. Como Dumont, são todos ricos e têm na exploração espacial uma paixão pessoal. Mas, como os Wright, todos possuem alguma intenção comercial por trás.

O caráter comercial, entretanto, não costuma ganhar corpo quando o assunto é a nova corrida espacial. Justamente por conta disso, as críticas se sobressaem.

Bezos já foi ridicularizado em matérias de revistas americanas por “investir em foguetinhos”, enquanto sua ex-esposa se tornava uma das maiores filantropas do planeta, doando bilhões de dólares para causas ligadas a Covid-19 e aos direitos humanos (ironicamente, Bezos liderou a lista de maiores filantropos naquele ano).

De fato, em todas as aparições e entrevistas nas quais aborda sua empresa Blue Origin, Bezos parece focar essencialmente na inovação tecnológica, em falas sobre o futuro da humanidade colonizando outros planetas, transferindo a produção industrial para bases na lua ou, sinteticamente, “1 trilhão de humanos habitando a galáxia”.

O lado comercial, porém, é a forma como estes sonhos se tornam palpáveis.

Nesse cenário, o turismo é uma fonte relevante de recursos. Considere que há, apenas nos Estados Unidos, 8 milhões de milionários. Se cada um deles decidir pagar US$ 100 mil para conhecer o espaço, estamos falando de algo como US$ 800 bilhões em um mercado endereçável.

Mais palpável ainda é a rede de satélites que tanto Bezos quanto Musk querem construir e que deve garantir o acesso à internet em qualquer lugar do planeta.

A Starlink de Musk já está inclusive em pré-venda no Brasil, por um preço de US$ 99, ou R$ 520 sem impostos, que garantem acesso a uma internet de 1 Gb/s.

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Na prática, esse mercado é estimado em US$ 30 bilhões por ano, o suficiente para pagar as contas da “brincadeira”.

Portanto, soa estranho que um empreendimento comercial como outro qualquer, exceto pelo risco (afinal, a SpaceX foi fundada em 2002 enquanto a Blue Origin foi fundada em 2000, e por duas décadas foram apenas pré-operacionais), mereça tamanhas críticas, como sendo apenas “brincadeira e extravagância de gente rica”.

Tal crítica, que compõe por exemplo o artigo mais lido da Folha de S.Paulo, além de inócua, é ainda completamente sem sentido.

Seria como voltar ao final do século XIX e dizer que “esse negócio de carro é só um hobby de milionários”, ou reclamar que a aviação comercial seria algo exclusivo para os muito ricos.

Há inúmeros exemplos ao longo da história de tecnologias que nasceram como “algo restrito aos muito ricos”, e que se tornaram banais mais tarde. Vestir sapatos, usar talheres ou comer carne já foram hábitos de ricos.

Sob essa mesma lógica, financiando inovação e produção em massa e iniciando as vendas para os muito ricos, Elon Musk construiu a Tesla.

O que eu e você sabemos bem é que o que de fato incomoda aos críticos é justamente o fato de “alguém possuir tamanha riqueza capaz de bancar essa aventura”.

Mesmo que todos os empreendimentos aqui citados tenham custado uma mera fração do patrimônio dos envolvidos, nos acostumamos a encarar viagens espaciais como algo custoso, que demanda investimentos tão grandes que apenas governos poderiam fazer.

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Justamente por isso achamos natural que o governo brasileiro tenha investido US$ 10 milhões por uma carona de um astronauta tupiniquim em uma nave russa, mas condenamos uma empresa privada por vender uma experiência por uma fração deste valor.

Também na crítica promovida no artigo de opinião da Folha, está a questão ambiental e o temor de que a corrida espacial gere mais poluição. Na realidade, longe das críticas vazias, Bezos já garantiu US$ 10 bilhões em financiamento para causas ambientais, valor mais do que o dobro do aportado em sua empresa aeroespacial.

Em suma, não é difícil perceber que a causa central das críticas esteja não no empreendimento em si, algo mais banal do que o teor futurista aponta, mas nas pessoas envolvidas.

A causa de tamanha disponibilidade de recursos, entretanto, é mais difícil de entender.

Seria chover no molhado dizer que Bezos não possui US$ 200 bilhões na conta bancária. Afinal, esse valor está em ações da Amazon, sua empresa que vale US$ 1,6 trilhão.

O fator menos óbvio está na razão de tais ações terem se valorizado tanto.

Desde ao menos 2008, o mundo vem enfrentando mudanças significativas, com uma diminuição no crescimento econômico e um novo modelo de política monetária. Na prática, os bancos centrais iniciaram um programa massivo de incentivos, jogando dinheiro no mercado.

Com excesso de liquidez e juros cada vez menores, investidores precisam se proteger e buscam um porto seguro em empresas como a própria Amazon, dado que seu crescimento é exponencial.

Empresas de tecnologia, que conseguem crescer sem demandar tantos recursos e de uma maneira acelerada, se tornaram um investimento mais razoável do que as demais.

As fortunas de Bezos, Musk, Zuckerberg e tantos outros são apenas um reflexo dessa mudança.

Em meio à crise do coronavírus, o que já era uma expansão relativamente rápida ganhou ainda mais impulso.

A distribuição de recursos via crédito foi tão grande que os milhões de americanos que receberam cheques de US$ 1200 para sobreviver à crise alocaram ao menos metade deste valor comprando ações ou Bitcoin (10% foi convertido na criptomoeda, segundo o banco Morgan Stanley).

Boas empresas que apresentem resultados crescentes são escassas. No instante em que o dinheiro vai se tornando menos escasso é natural que ele as procure. Isso torna Bezos e Musk cada vez mais ricos.

Essa é uma tendência cada vez mais difícil de ser revertida. É improvável que a taxa de juros dos EUA suba acima da inflação, pois isso tornaria a dívida pública do país impagável.

Como o Brasil, os EUA tendem a seguir promovendo um ajuste fiscal por meio de inflação (o que não deve ser confundindo com aumento de preços de produtos).

Os ativos devem continuar subindo na medida em que se tornam cada vez mais escassos aqueles capazes de gerar retorno maior do que os títulos públicos.

O problema, é claro, é que esse movimento tende a prejudicar dramaticamente aqueles que não possuem bens e ativos que ganharão com esse cenário, ou em resumo: os mais jovens.

Falamos aqui de um problema sério, que pode ter consequências sociais relevantes.

Infelizmente, o debate seguirá discutindo as consequências, pautado em demonizar bilionários, ignorando as causas, para a sorte dos políticos.

Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com