A inflação global permanentemente transitória

Por décadas, os Estados Unidos se aproveitaram do privilégio de emitir a moeda do mundo, mas nunca fizeram isso de maneira tão exacerbada quanto agora

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Notas de moeda americana
Imagem mostra notas de dólar, a moeda americana

Joachimsthaler foi o nome dado a uma moeda cunhada na Boêmia em 1518. Composta de prata, a principal base monetária na época, a moeda tornou-se aceita em toda a Europa.

Para os alemães, era chamada de Thaler. Para os nórdicos, o Daler. E, para os britânicos, o Dólar. Em suas obras, Shakespeare costumava se referir ao “dólar” como uma palavra sinônima a “dinheiro”.

Também donos de uma moeda de prata, o “Real de 8”, os espanhóis terminaram por massificar o nome, chamando sua de moeda de “dólar espanhol”.

Como o nome já sugere, o Real de 8 foi uma moeda cunhada pelo Rei da Espanha composta por oito partes de prata.

Por se tratar da maior potência comercial da época, a Espanha fez do seu dinheiro a moeda global. Anos mais tarde, inspiraria um grupo de caipiras no norte das Américas a criar o seu próprio dólar.

A riqueza espanhola, porém, estava ao sul. Seja em Potosí, na Bolívia, a segunda cidade mais populosa do mundo, e considerada a mais rica, no século XVII, ou ao longo do Rio da Prata, ali pela Argentina (que significa Terra da Prata, em latim).

Foi essa descoberta de tamanha quantidade de riqueza que, ligada à dominância espanhola no comércio global, levou ao primeiro surto inflacionário da Europa desde o fim do Império Romano.

Ao longo de 150 anos, os preços na Europa sextuplicaram! Sim. Foi um evento global, causando perturbações sociais, que terminaria conhecido como a “revolução dos preços”.

Na prática, isso significa dizer que a inflação europeia foi de, em média, 1,5% ao ano.

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Em um mundo dominado por metais preciosos, isso foi suficiente para fazer com que a própria Espanha declarasse falência ao menos quatro vezes nesse período. Foi também uma época de falência generalizada no campo, considerando os aumentos constantes de custos para arrendamento de terras.

Esse período conturbado acabaria com a criação de um modelo pautado no ouro, e não mais na prata.

Os séculos seguintes foram relativamente tranquilos em termos de inflação, com a nova potência dominante, a Inglaterra, sendo bem mais cautelosa do que a sua antiga rival Espanha (cabe lembrar que a adoção do “padrão ouro” foi proposta por Isaac Newton, quando o físico inglês se tornou responsável pela Casa da Moeda).

Esse período de aparente tranquilidade, porém, não durou para sempre. Com uma nova potência tomando corpo no século 20, os Estados Unidos (a mesma turma de caipiras e o seu dólar), as coisas voltaram a mudar.

Como os espanhóis, os americanos se tornaram uma potência no comércio internacional, tornando a sua moeda, o dólar, uma reserva global, em boa parte graças à ausência de concorrentes.

Com a Europa devastada por duas grandes guerras, seria improvável alguém continuar a usar o franco ou a libra (exceto se estivermos falando do franco suíço, uma moeda tão estável quanto a própria Suíça).

Por serem os responsáveis pela moeda global, os americanos se tornaram complacentes quando o assunto é preço.

Como o presidente francês Charles De Gaulle definiu, o dólar exerce um “privilégio exorbitante”. Leia-se: os americanos imprimem dólares e utilizam esses dólares para comprar bens e serviços de outros países.

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Ao importar bens e serviços em troca de, basicamente, papel pintado, os EUA mantêm uma inflação relativamente estável e sob controle.

O mundo, por sua vez, precisa garantir que terá acesso a moeda americana. Do contrário, é possível que crises ocorram com relativa frequência, como é comum, por exemplo, na América Latina.

Nunca na história global, porém, uma potência abusou tanto do poder que possui.

É verdade que não utilizamos mais modelos metálicos, como prata ou ouro. Portanto, nossa moeda (aqui ou em qualquer lugar), não possui lastro real, exceto pela confiança que temos (supostamente) nos governos que as emitem.

Ao menos desde 2008, o governo americano, na figura do Federal Reserve, o banco central, vem aumentando sucessivamente a quantidade de dinheiro em circulação.

Trata-se de um período de abundância sem igual. Tamanha liquidez tem levado a recordes sucessivos nos mercados de capitais, além de uma alta de ativos como imóveis.

Ainda que o Brasil não tenha minimamente se esforçado para atrair esse capital (ao contrário, criamos uma crise interna que terminou por afastá-lo ainda mais), acabamos por ser afetados.

Em meio à crise de 2020, quando a aposta do Fed e dos governos europeus dobrou, injetando ainda mais dinheiro para reativar a economia, acabamos por sofrer pesadamente as consequências da expansão global de moeda.

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Para os mais velhos, é possível lembrar que ocasiões do tipo já ocorreram ao redor do planeta nos anos 1980, também precedidas por uma expansão de dinheiro (como o fim do padrão-ouro em 1971).

No caso atual, soma-se a questão monetária uma confusão generalizada nas “cadeias de suprimento”.

Como o presidente americano Joe Biden comentou, citando Milton Friedman, a produção global de um simples lápis pode envolver dezenas de países, uma vez que a madeira vem do Brasil, o grafite da Indonésia, a borracha das Filipinas e assim por diante.

O mesmo efeito ocorre em praticamente qualquer outra indústria. Em meio à retomada incerta da economia, é natural que os aumentos de preços ocorram.

O que, claro, é também uma desculpa conveniente aos responsáveis pela política monetária.

Em 1980, a culpa da inflação galopante no mundo foi colocada sobre os países árabes que elevaram o preço do petróleo ou a Revolução Iraniana, em 1979, que causou “perturbações e incertezas”.

Neste momento, é conveniente que falemos sobre os problemas de suprimento, oferta e demanda. Também é mais fácil adotar o discurso de que “tudo é transitório”, como reiteradamente tem dito o mesmo Fed.

O problema é que a expansão de moeda iniciada em 2020 dificilmente irá retroceder. Afinal, a economia global tende a crescer menos, dado o envelhecimento da população.

É possível que vejamos ao longo dos próximos anos surtos cada vez mais comuns de inflação por conta de um ou outro fator, seja a alta do gás natural e do petróleo, seja a ausência de chuvas e assim por diante.

O que é certo, porém, é que, da mesma maneira como nos perguntamos como os europeus do século 17 podiam achar elevada uma inflação de 1,5% ao ano, por um bom tempo iremos nos acostumar a dizer o mesmo da inflação global no início da década passada.

O sonho de uma inflação em 4% ao ano, que une economistas de diversas vertentes, é algo que tende a continuar nos EUA. Afinal, uma alta de preços por lá eleva o valor dos ativos americanos, obrigando o resto do mundo a correr em busca de mais dólares para manter o seu padrão de consumo.

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Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com