A crise energética global é só a ponta do iceberg

Uma crise energética global e cadeias de suprimentos desorganizadas têm elevado a inflação ao redor do planeta. Como se não bastasse, o Brasil absorve esse cenário agregando seus próprios problemas

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Em 1760, o falido George III, rei da Inglaterra, chegou a um acordo com o parlamento britânico para entregar todas as suas posses, incluindo terras e outros direitos, em troca de uma “mesada” anual.

O acordo feito por George criou o chamado “Crown Estate”, e tem sido prorrogado por todos os monarcas que o sucederam, incluindo Elizabeth II.

Atualmente, as terras e direitos estão avaliadas em cerca de £ 14,5 bilhões, gerando £ 350 milhões anuais de lucro, com cerca de 15% indo para a rainha e o restante ficando com o governo.

Nos últimos anos, além de shoppings e condomínios residenciais, o administrador dos bens da família real têm ganhado dinheiro graças a um direito considerado “inútil” na época da criação do acordo: o leito marinho.

Em teoria, todo o leito marinho britânico pertence a rainha Elizabeth II, o que faz dela a maior beneficiária de uma nova tecnologia: as usinas eólicas “off-shore”.

De fato, nenhum país do mundo tem investido tanto em usinas eólicas em alto-mar como o Reino Unido, com 8% de toda energia instalada sendo provida por essa fonte, que rende a rainha £ 41 milhões em lucros todos os anos.

A meta do Reino Unido é chegar a 33% em 2030. E uma possível meta de 80% da energia sendo provida por geração eólica offshore em 2050 está sendo considerada.

O problema? A crise energética no Reino Unido atual ajuda a expor a fragilidade causada por essa dependência.

Fontes de geração eólica e solar são essencialmente fontes intermitentes de energia, o que significa que funcionam em horários não previsíveis e podem parar de funcionar sem aviso.

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No último ano, a geração eólica chegou a representar 25% de toda geração no Reino Unido. Neste verão, época em que o consumo aumenta e os ventos diminuem, a geração eólica caiu para 7% do total, levando a ao aumento da demanda da importação de gás.

O preço do gás no mercado internacional, porém, está explodindo na medida em que a recuperação econômica da pandemia se mostra mais rápida do que o esperado. Neste ano, o gás natural chegou a subir 400% no mercado internacional, provocando um aumento de 250% no preço da energia.

A crise se estende também por conta do aumento da demanda do petróleo que, por sua vez, provoca desabastecimento, além de efeitos perversos na produção de alimentos, dependente de fertilizantes.

Do outro lado do Canal da Mancha, na França, problemas similares têm ocorrido. A diferença é que os franceses possuem produção elevada de energia nuclear, o que reduz os danos de um aumento na energia.

Na Alemanha, também dependente de importação de gás, a energia já subiu cerca de 113%.

Na Ásia, onde a recuperação econômica foi ainda mais ágil, a pressão sobre a indústria está sendo dupla: a crise energética e uma cadeia de suprimentos bagunçada.

A China busca lidar com o problema aumentando sua produção de carvão, a fonte mais poluente de todas, mas os fechamentos de fábricas já estão ocorrendo.

Uma crise da indústria de semicondutores também afeta o crescimento global, com as duas crises somadas gerando o pior cenário econômico possível: redução de crescimento econômico e aumento da inflação.

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A possibilidade de crescimento zero no terceiro trimestre afeta, em especial, a China. Mas essa hipótese tem se espalhado ao redor do planeta por meio da queda no preço de commodities como o minério de ferro.

Esse cenário é preocupante para o Brasil.

Por aqui, estamos lidando com nossa própria crise: a dependência de chuvas. Não é um problema novo.

A hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, possui uma capacidade instalada de 11.200 Mw, mas viu sua geração variar entre 6.800 Mw, em fevereiro, e 280 Mw em outubro (dados de 2019).

Em resumo, nossos problemas nessa área não são novos, de maneira que a crise energética brasileira também não chega a ser nova.

A grande questão, em meio a bagunça global, é a posição do Brasil no mundo. Não estamos no lado das commodities ligadas à energia (petróleo e gás), mas sim daquelas que possuem forte ligação com crescimento econômico (soja, carne e minério de ferro).

Com uma redução do preço do minério de ferro, nossas exportações caem, pressionando o dólar, o que por sua vez eleva o preço em Real e puxa a inflação brasileira para cima.

Ao mesmo tempo, commodities como o petróleo possuem grande impacto no índice de inflação brasileiro.

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Por conta da alta no barril de petróleo lá fora e da desvalorização do Real, a gasolina já subiu cerca de 45% no ano até aqui.

A bagunça generalizada nas linhas de suprimentos também pressiona o Brasil.

Por conta da pandemia, que levou as pessoas a ficarem em casa e aumentarem o consumo de eletrônicos (vendas de computadores e eletrônicos globais cresceram 26% em 2020), além de uma guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, que tirou de cena a maior fabricante chinesa de semicondutores, boa parte das indústrias tem reduzido sua produção.

Em suma, a demanda segue crescendo na medida em que as pessoas estão retomando sua vida cotidiana por conta da vacinação. Mas a oferta tem sido reduzida.

A indústria de automóveis, em especial, tem sido obrigada a fechar fábricas. Assim como a produção de smartphones e outros eletrônicos.

A retomada econômica pressiona cadeias de produção incapazes de atender seus consumidores, o que causa um efeito chamado de “choque de oferta”. Ao mesmo tempo, condições climáticas e dependência de fontes intermitentes levam a uma instabilidade energética poucas vezes vistas.

Na soma de tudo, o mundo tem visto a inflação crescer de maneira galopante.

Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e mesmo o Brasil estão com seus índices de inflação bastante acima da meta.

Isso acaba por corroer a renda, reduzindo o efeito que uma geração de empregos positiva, como no Brasil atual (com 2,2 milhões de empregos gerados até agosto) possa ter a médio e longo prazo.

Para os bancos centrais, tal inflação é fruto dessa bagunça e, portanto, transitória. Na prática, o mundo está promovendo uma transição energética em velocidade nunca vista, o que eleva a instabilidade e deixa cenários como o atual mais propensos.

O problema é que os BCs também possuem sua parcela de responsabilidade. No nosso caso, o Banco Central reduziu as taxas de juros de forma acelerada. Agora ele se vê obrigado a correr atrás da meta, gerando uma alta de preços em um momento onde todo o planeta já está instável.

Além de elevar a meta de inflação, o BC brasileiro também rebaixou a expectativa de crescimento. O PIB brasileiro, que alguns acreditavam poder crescer 7% esse ano, parece cada vez mais longe de atingir esse valor.

Como se fosse pouco, não devemos esquecer que o próximo ano será repleto de tensões eleitorais por aqui, um ambiente que, via de regra, já não favorece o câmbio.

Há inúmeros fatores ou interesses políticos que podem decorrer deste cenário global tão complicado. Para cada um deles, o Brasil parece ter um complicador próprio.

Em todo caso, convém ter precaução, ainda que a nível individual.

Felippe Hermes

Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com