O que nos une ou separa dos mercados mais maduros do Franchising?

Muito se fala sobre o crescimento sustentado do franchising nacional frente a outros mercados mais antigos com a Europa, ou mesmo mais maduros no sistema, como os EUA. Neste artigo faço uma análise comparativa entre os mercados de franchising brasileiro, norte-americano e europeu.

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Muito se fala sobre o crescimento sustentado do franchising nacional frente a outros mercados mais antigos com a Europa, ou mesmo mais maduros no sistema, como os EUA.  No Brasil, o franchising cresce acima dos 16% ao ano, retrato dos últimos cinco anos.

Já no mercado americano, que em 2008 sofreu uma séria retração em razão da crise que acometeu o país, o crescimento em número de unidades franqueadas voltou a ficar positivo somente no ano passado. Desde 2008, os empreendimentos no setor ficaram estagnados. Na Europa, a crise não afetou tanto o franchising, que prosperou com destaque especial para a Polônia.

Na última edição do Fórum Internacional de Franquias realizado em abril de 2013 pelo Grupo BITTENCOURT, tivemos a oportunidade de saber de perto as realidades dos mercados norte americano e europeu por meio dos maiores especialistas em franchising e varejo desses continentes, o que nos ajudou a refletir sobre o que nos une ou separa desses mercados, e isso vai muito além do aspecto econômico. 

Um grande diferencial é em relação aos aspectos legais do sistema, a regulamentação da relação franqueado x franqueador no Brasil se beneficia da experiência e aprendizados vindos de outros mercados. Como no Brasil o franchising é relativamente novo, a regulamentação do sistema veio acontecer apenas em 1994, nos apropriamos de algumas boas práticas para compor a nossa legislação –  unimos o melhor de cada experiência para regulamentar o mercado. E, fato importante para que o setor fale a mesma língua, é termos uma única lei regendo todo o sistema.

Nos EUA, apesar de existir uma regulamentação federal desde 1978, 14 estados do país possuem sua própria lei de franquias. Ou seja, o sistema se apresenta complexo e cheio de especificidades para as marcas locais que desejam expandir além das fronteiras de seu próprio estado e, muitas vezes se torna ininteligível para marcas estrangeiras. Esse fato aliado à dificuldade de adaptar a marca ao gosto dos americanos e a alta concorrência fazem que a barreira se torne ainda maior para se entrar no país.

No caso Europeu, a relação é ainda mais aberta. Não existe uma regulamentação da União Europeia (UE) que estabeleça as regras das relações entre franqueado e franqueador. Apenas cinco países possuem políticas formalizadas para acordos de pré-venda de franquias (que contemplam – direitos e obrigações das partes, condições financeiras, definição clara do objeto do contrato e etc), porém a maioria dos países se auto regulam pelo código de ética da EFF (European Franchise Federation).  A instituição existe desde 1972, e tem sede em Bruxelas. É composta por 17 associações de estados membros e 4 de não membros. Apesar da abrangência e de ter muito bem definidos os termos e condições dos contratos de franquias, se resume apenas a boas práticas e não tem força de lei.

Com relação ao tamanho desses mercados, temos que hoje os EUA ficam atrás somente da China em número de marcas franqueadas. O país tem cerca de 3.000 marcas e a China 4.000. O Brasil aparece em terceiro no ranking individual, com suas 2.426 marcas. Os países da União Europeia somam mais de 12 mil marcas franqueadas, sendo que no ranking por país, o único da UE que figura entre os 10 maiores é a França que aparece em 7º lugar, com cerca de 1.570 marcas.

No que se refere ao número de franquias, ainda estamos (Brasil e UE) muito aquém do mercado americano – nos EUA o número médio de franquias por marca é de mais de 400 unidades. Na Europa, e o no Brasil, o número médio é de cerca de 40 por marca. As redes americanas tendem a ser maiores, 25% das marcas franqueadas tem de 51 a 500 unidades, 6% tem acima 501 e unidades, sendo que dessas, 2% tem mais de mil unidades. No Brasil, as redes com mais de mil unidades são apenas 10, sendo que dessas, o Boticário é a que tem melhor desempenho, a única que supera a marca de 2000 unidades, chegando a quase 3600 unidades franqueadas.

Olhando para esses mercados, nossa reflexão é de que sim, estamos no caminho certo, pois em pouco tempo atingimos um nível de maturidade grande, principalmente no que se refere à regulamentação do mercado. A lei de franquias passa por sua primeira revisão, e deixa explícito algumas jurisprudências já aplicadas como, por exemplo, a inexistência de vínculo empregatício entre franqueado e franqueador, a inaplicabilidade do código de defesa do consumidor nessa relação.

Estamos caminhando para um futuro de formalização das relações, de profissionalização do setor e também de uma forte busca das redes na melhoria das práticas de gestão. Isso refletirá positivamente nas pequenas e médias empresas e fará com que o sistema tenha um crescimento ainda mais sustentável ao longo dos anos. 

Já passamos da fase em que o franchising era escolhido apenas pelo empresário que desejava expandir, porém sem recursos próprios, ele já conquistou as indústrias e o varejo tradicional. Os grupos financeiros, como Carlyle, BTG Pactual, Mercatto, Actis, Endurance, etc, também descobriram a força do setor e fazem no Brasil um movimento que já ocorreu nos EUA anos atrás, injetam nova força e recursos no segmento e pressionam por resultados e crescimento. 

Talvez o que nos distancie mais de EUA e UE é no que se refere à infraestrutura do país. O crescimento das redes no Brasil esbarra numa carga tributária complexa e pesada. Num transporte caro e inseguro que torna as questões relacionadas à logística de abastecimento das redes um sério problema para se enfrentar. E se distancia também no que se refere à qualificação da mão de obra. Não há empresário que não enfrente problemas para fechar posições em suas empresas. Ou seja, por mais empreendedores que sejamos, por mais impulsionados pela vontade de vencer, ainda sim, existe um longo caminho para percorrer no que se refere à base para nos aproximar das realidades dos mercados mais antigos e desenvolvidos no sistema de franquias.

Lyana Bittencourt