A nostalgia virou a linguagem de desejo da Geração Z

Mais do que saudade, a nostalgia se tornou uma forma de lidar com a ansiedade, a sobrecarga digital e as incertezas do presente

Ewerton Mokarzel

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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A geração que cresceu com smartphone na mão, algoritmos e uma pandemia no meio da adolescência chegou à vida adulta em estado de sobrecarga.

Segundo a American Psychological Association, a Gen Z é a geração com os maiores níveis de estresse reportados entre todos os grupos etários nos Estados Unidos.

No Brasil, o cenário não é diferente: pesquisa do Instituto Cactus, de 2024, mostra que 60% dos jovens de 18 a 24 anos relatam sintomas frequentes de ansiedade.

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O passado, nesse contexto, não é o que foi. É o que poderia ter sido.

Uma época sem notificações, sem crises no feed, sem algoritmos disputando atenção a cada segundo e sem um mercado de trabalho que pede cinco anos de experiência para uma vaga de entrada.

Um passado que talvez nunca tenha existido exatamente assim, mas que hoje funciona como contraponto a um presente marcado por excesso de estímulos, incerteza e cobrança permanente.

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Para um aplicativo usado principalmente por jovens, o TikTok é estranhamente obcecado por nostalgia.

Seja pela fascinação com memórias da infância ou pela estética Y2K, o feed é constantemente invadido por conteúdos que celebram uma saudade idealizada do passado.

A primeira evidência aparece no comportamento de busca dos jovens. A análise do TikTok Ads Brasil mostra que a Geração Z, entre 18 e 24 anos, consome conteúdos relacionados à nostalgia 64% acima da média da plataforma.

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Hashtags como #nostalgiacore, #nostalgia2000, #nostalgia90s e #nostalgic acumulam volumes que nenhuma marca deveria ignorar.

No Google Brasil, as buscas por “anos 2000” cresceram 1.861% desde 2004, revelando que o interesse por referências nostálgicas não é pontual. Ele se intensifica ao longo do tempo. 

Créditos: Dados Timelens

Por que o passado virou refúgio

O presente ficou caro demais para imaginar.

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No Brasil, o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos alcança 14,9%, quase o triplo da média nacional. Globalmente, 67% da Geração Z relatam dificuldades para arcar com custos de moradia e 42% vivem de salário em salário.

Independência financeira, casa própria e estabilidade profissional. Os marcos tradicionais da vida adulta foram empurrados para um horizonte cada vez mais distante. Quando o futuro parece inacessível, o passado oferece algo que ele já não consegue entregar: a sensação de que as coisas podiam ser mais simples.

O presente ficou pesado demais para aguentar

Globalmente, 42% da Geração Z relatam sintomas contínuos de depressão e 61% convivem com ansiedade. No Brasil, uma em cada quatro adolescentes afirma já ter sentido que a vida não vale a pena ser vivida.

Estudos de psicologia do consumo mostram que experiências de adversidade ativam sentimentos nostálgicos como mecanismo de regulação emocional. A nostalgia reduz sensações de solidão, ansiedade e falta de propósito. O passado não precisa ter sido melhor para funcionar como refúgio. Precisa apenas parecer menos incerto do que o presente.

O presente ficou acelerado demais para sentir

Cerca de 78% dos jovens afirmam já ter sentido dependência das redes sociais. No Brasil, os índices de dependência de smartphones entre adolescentes chegam a 55%.

A hiperconectividade produz um paradoxo: quanto mais estímulo, menor a capacidade de presença. Nesse contexto, a nostalgia surge como uma busca por experiências percebidas como mais autênticas, menos fragmentadas e anteriores ao ciclo infinito de notificações.

Para onde o brasileiro quer fugir

A análise da Timelens sobre os 500 posts de Instagram com maior engajamento relacionados à nostalgia, entre janeiro de 2025 e junho de 2026, revela algo importante para o desenvolvimento de marcas e negócios: o brasileiro não foge para um passado histórico abstrato.

Ele foge para territórios afetivos concretos. Música, TV brasileira, infância, humor de época e cinema e séries concentram 58,9% de todas as interações da base analisada.

O que esses temas têm em comum é o fato de serem experiências coletivas: aquilo que muita gente viu, ouviu, cantou, comprou ou assistiu ao mesmo tempo.

A nostalgia mais potente é aquela que reconecta as pessoas a um repertório compartilhado, um conjunto de referências capaz de unir diferentes gerações em um mesmo ponto de reconhecimento, e não apenas em memórias individuais.

Créditos: Dados Timelens

Podemos organizar os dados da Timelens em um mapa com cinco principais rotas de fuga:

Juventude sonora
Músicas, shows e hits que funcionam como gatilhos de memória imediata.
Brasil televisivo
Programas, novelas, auditórios e referências da TV que ajudaram a construir um repertório comum.
Infância cotidiana
Escola, brincadeiras, desenhos, brinquedos e pequenos rituais que marcaram a formação afetiva.
Consumo afetivo
Marcas, embalagens, sabores e produtos que materializam lembranças.
Mundo menos acelerado
Objetos, práticas e formas de relacionamento percebidas como anteriores à ansiedade digital.

Mais do que uma rota de fuga, a nostalgia se consolidou como um sinal comportamental com implicações diretas para marcas, consumo, cultura e qualquer negócio que precise entender o que move uma geração de consumidores.

Leia também: O analógico voltou

A nostalgia deixou de ser território exclusivo dos quarentões. Ela se tornou a linguagem de desejo da Geração Z. Não porque essa geração queira voltar ao passado, mas porque encontrou nele referências emocionais capazes de tornar o presente mais suportável e o futuro menos ameaçador

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Ewerton Mokarzel

Ewerton Mokarzel é designer e executivo com mais de 25 anos de experiência em branding. CEO e sócio da FutureBrand, lidera projetos de transformação para grandes empresas no Brasil e no exterior, com passagens pela Austrália e Singapura. Reconhecido por unir estratégia e execução criativa, conquistou mais de 250 prêmios nacionais e internacionais, incluindo os mais importantes do setor, e consolidou a FutureBrand como a maior consultoria de marcas do país e uma das líderes globais. Ao longo da carreira, já trabalhou com empresas como Grupo Boticário, Santander, Nestlé, Hering, BTG Pactual, Track&Field, Localiza, Banco do Brasil, Porto Seguro, JBS, Nespresso, entre outras.