Trump, tarifas e o mito do reequilíbrio comercial

Ao contrário do seu 1º mandato, Trump chegou chegando e em poucos meses elevou as tarifas comerciais dos EUA, que sempre foram um dos poucos praticantes exemplares do livre-comércio

Evandro Buccini

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Surpreendendo grande número de pessoas, eu inclusive, um presidente cumpriu suas promessas de campanha. Infelizmente.

Ao contrário do seu primeiro mandato, Trump chegou chegando e em poucos meses elevou as tarifas comerciais dos EUA, que sempre foram um dos poucos praticantes exemplares do livre-comércio.

Tudo pode mudar, pode ser um blefe ou um convite mal-educado para negociação, mas se as tarifas anunciadas no “dia da liberação” forem implantadas, a alíquota média cobrada das importações americanas subirá de menos de 4% para 20%, maior nível em um século.

Continua depois da publicidade

Em função da confusão generalizada sobre os números anunciados na cartolina de Trump, ninguém sabia claramente explicar qual foi o cálculo efetuado para chegar na alíquota final por país. Mas dado o número de 10% atribuído ao Brasil (a alíquota mínima para todos os países), a reação dos observadores locais foi de forte surpresa positiva, um sentimento de que saímos “ilesos” de uma situação potencialmente adversa.

Se o termo “alíquota recíproca” tivesse sido interpretado literalmente, muito possivelmente teríamos saído com uma alíquota bem diferente. Temos ainda barreiras fortes que excedem as tarifas de importação elevadas sobre bens industrializados.

Mas então, de onde veio esse número? O cálculo não é sofisticado, muito menos individualizado pelas linhas tarifárias impostas por cada parceiro comercial. Na verdade, em termos simples, trata-se de uma tarifa linear com base no déficit comercial dos EUA de acordo com cada parceiro comercial. Uma fórmula no seguinte estilo:

Continua depois da publicidade

= (Exportações para o país i – Importações para o país i)/ importações do país i

Esse cálculo não tem nada de recíproco. Ele reflete qual seria a tarifa necessária para que houvesse m equilíbrio na balança comercial com cada contraparte. Ou seja, “quanto temos de tarifar nossos parceiros comerciais para reverter ou estabilizar nosso déficit comercial com cada um deles?”.  O incômodo não é com o descompasso entre as tarifas adotadas pelos EUA e seus parceiros, mas na verdade, algo muito maior. Trata-se de uma intolerância para todo e qualquer déficit comercial. Fruto da visão equivocada de que todo déficit comercial é ruim e as tarifas são uma bala de prata contra esse desiquilíbrio.

Citando um artigo do The Economist sobre o tema: “A definição da alíquota não é menos aleatória que tributar uma pessoa baseada no número de vogais em seu nome”.  Nesse ambiente, a estratégia mais eficiente para o Brasil parece ser a de nos mantermos distantes do centro do debate, junto dos outros “inbetweeners”, como tem sido denominado o grupo de países no meio do caminho entre China e Estados Unidos.  Essa tese está bem discutida no artigo “Shifting world order suits ‘inbetweener’ economies”.

Continua depois da publicidade

Com a implementação das tarifas recíprocas, somadas às que já estão em vigor, a alíquota efetiva de importação dos EUA sai da mínima histórica de 3%, para algo próximo a 20%. O maior nível em mais de um século, quando foi imposto o Smoot-Hawley Act. A Lei Tarifária de 1930, que implementou políticas comerciais fortemente protecionistas nos EUA. A medida vai contra todo o arcabouço teórico-econômico sobre comércio internacional que foi acumulado até hoje.

Primeiro, pela visão do presidente Trump de que a indústria precisa ser integralmente centralizada nos EUA, como se fosse possível simplesmente colocar tarifas, e magicamente assistir o país se tornar uma nação industrial novamente. Diferentemente de bens finais, como commodities, os bens industriais têm enorme fragmentação na cadeia de produção. As empresas exploram inteligentemente as vantagens comparativas de diferentes países diversificando as etapas produção, a fim de reduzir o custo final da forma mais eficiente o possível.

Pegue de exemplo a Apple, que perdeu mais de 300 bilhões de dólares em valor de mercado desde o anúncio das tarifas recíprocas de Trump. A Apple faz a pesquisa, design e desenvolvimento na Califórnia, em sua sede.

Continua depois da publicidade

A produção de chips é realizada no Taiwan, pela TSMC. As telas são fabricadas na Coréia do Sul e Japão, juntamente à produção de outros componentes, como a memória flash e RAM e câmeras. Por fim, a montagem final é realizada na China.

Ou seja, a produção de um iPhone envolve uma cadeia global de valor, em que cada país contribui om aquilo que faz de forma mais eficiente ou mais barata. Se a Apple tentasse produzir e montar o iPhone inteiramente nos Estados Unidos, os custos de mão de obra seriam substancialmente mais altos, faltaria infraestrutura industrial integrada, o acesso a fornecedores especializados seria menos eficiente, e, por fim, a produção seria consideravelmente mais lenta e cara.

Os impactos econômicos do anúncio das ditas alíquotas recíprocas já podem ser observados parcialmente nos indicadores de confiança e sentimentos de mercado. As empresas registram aumento nos preços pagos a fornecedores, queda em novos pedidos feitos à indústria manufatureira, e redução na atividade do setor.

Continua depois da publicidade

Além das externalidades negativas das tarifas, elas também falham em cumprir o objetivo final da equipe econômica: estabilizar o déficit em conta corrente através de melhora no déficit comercial. O ponto principal é que, por ser a moeda de reserva internacional, e desfrutar do que é denominado como “privilégio exorbitante”, há uma demanda estrangeira substancial por dólares, o que fortalece a entrada de fluxo estrangeiro, e, por sua vez, causa superávit na conta capital.

A consequência dessa demanda elevada é a apreciação forte da moeda, que tem como contrapartida o barateamento das importações, aumentando a atratividade de bens estrangeiros. Isso tudo para dizer que o déficit em conta corrente não será corrigido pelas tarifas, uma vez que depende de variáveis muito mais complexas e estruturais. Ou seja, renuncia-se ao crescimento econômico e estabilidade de preços, por um objetivo inalcançável e que nada contra a corrente de toda a literatura econômica que dispomos dentro de comércio internacional.

É difícil dizer qual a intenção do presidente dos EUA com o tarifaço. O mais provável é que seja uma medida puramente populista, que busca agradar a base eleitoral afetada por fechamentos de fábricas e automação. Os apoiadores otimistas acreditam que começou um período de negociação bilateral, que não se sabe onde vai acabar. Os EUA não vão conseguir reduzir significativamente os déficits comercial e fiscal com a medida e deve gerar aumento de inflação e provavelmente uma recessão.
 
Agradeço a José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, pelo auxílio fundamental para esse artigo.

Autor avatar
Evandro Buccini

Sócio e diretor de gestão de crédito e multimercado da Rio Bravo