A queda da Selic pode afetar os ativos de crédito?

As opiniões dos economistas e a precificação no mercado de juros passaram a indicar um corte de 50bps da Selic em março, acabando o ano perto de 12%

Evandro Buccini

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Agora vai? Parece que finalmente o Banco Central vai embarcar em um ciclo de corte de juros. Apesar dos estímulos fiscais dos últimos anos, o juro real extremamente restritivo atuou pelos tradicionais canais de transmissão.

Entre eles o câmbio, que foi mais ajudado pela fraqueza global do dólar do que pelo diferencial de juros e foi o principal fator pela redução da inflação de 5,5% em março para 4,25% em dezembro de 2025. Esse período de juros altos atraiu fluxos de investimentos em renda fixa e crédito no Brasil. Como ficarão esses ativos com a queda da Selic?

Na reunião do Copom em janeiro, a diretoria do Banco Central passou uma mensagem clara e importante no comunicado: “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião…”.

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As opiniões dos economistas e a precificação no mercado de juros passaram a indicar um corte de 50bps da Selic em março, acabando o ano perto de 12%. Os modelos utilizados pelo BC indicam IPCA de 3,4% no final de 2026 e de 3,2% em 2027, supondo taxa de câmbio de R$5,35/US$. Lembrando que a meta de inflação é de 3% com tolerância de 1,5% para cima e para baixo.

O IPCA atual, em 4,25% nos 12 meses até dezembro de 2025, esconde duas realidades diversas: os preços de bens, sujeitos à competição internacional e ao câmbio, sobem pouco. Por exemplo: os alimentos apenas 1,4% e os industriais 2,4%; já os serviços, muito afetados pelo forte mercado de trabalho e crescimento das transferências do governo, sobem muito acima da meta: 7,1%. Essa dicotomia deve continuar.

A taxa de desemprego está perto das mínimas, a renda real crescendo e nenhum sinal de redução significativa do déficit público. O Real se favorece da fraqueza da moeda americana e ganha também dos outros países. Na comparação mais ampla, a taxa de câmbio multilateral (chamada de efetiva pelos economistas), ponderada pela participação deles na balança comercial, sobe mais de 7% em 12 meses.

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Juros altos, crescimento relativamente forte e inflação controlada é uma combinação que favoreceu a demanda para ativos e fundos de crédito. Entre 2021 e 2023, as emissões de títulos de crédito no mercado de capitais foi, em média, R$428 bilhões por ano.

Em 2024 e 2025 passaram de R$700 bilhões. Nesse período a Selic saiu de 2% para 15%. O forte crescimento dos ativos foi causado por debêntures e FIDCs, enquanto CRIs e CRAs foram prejudicados por apertos regulatórios.

A hiperatividade regulatória e a ânsia tributária impactaram os fluxos. Em 2024, os FIDCs foram beneficiados pela não incidência de come cotas, mas sofreram com a novela do IOF no ano que acabou.

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No começo de 2025, o CMN apertou as regras para CRIs e CRAs. Ano passado a discussão de taxação de debentures incentivadas (que acabou não acontecendo) atraiu bilhões para os ativos diretamente e fundos que compram as debentures criadas pela lei 12.431. Em 2023, houve emissão de R$67,8 bilhões delas e, em 2025, R$177 bilhões. Os prêmios (muitas vezes negativos) pagos por esses ativos são os menores da história.

Fundos de renda fixa tiveram captação R$258 bilhões em 2024, compensando os resgates em quase todas as outras classes de fundos, especialmente multimercados. Em 2025 o mesmo fenômeno, com um pouco menos de força – captaram R$84 bilhões, mais do que o resgate de ações e multimercados somados.

Em 2025, fundos que compram majoritariamente crédito (sem incluir previdência) passaram de R$3,3 tri para R$3,9tri. Todos os fundos, de todas as classes somadas, têm mais R$10,7 trilhões de patrimônio.

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A curva de juros indica taxa de juros de quase 12% nos próximos anos. A pesquisa Focus do Banco Central mostra Selic chegando a 9,5% apenas em 2029. Não há expectativa de queda suficiente para gerar fortes resgates de fundos ou vendas de ativos de crédito, mas é natural crescimento mais rápido do fluxo para outros ativos de risco, como ações e multimercados. As projeções são de crescimento do PIB perto de 2% e inflação controlada.

Pode haver correções de excessos, com aumentos de prêmios de crédito e volatilidade, mas a importância que o mercado de capitais ganhou é estrutural e deve ser apenas desacelerada, se for, pela conjuntura macroeconômica.

*Todos os dados de fundos e mercado de capitais citados no texto são da Anbima.

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Evandro Buccini

Sócio e diretor de gestão de crédito e multimercado da Rio Bravo