Uma retrospectiva 2025: a surpresa das ações brasileiras

Conforme esperado, em 2025, como todos os anos, os preços de alguns ativos não se comportaram como o esperado

Evandro Buccini

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Conforme esperado, em 2025, como todos os anos, os preços de alguns ativos não se comportaram como o esperado – essa é uma lição de humildade que trabalhar no mercado financeiro nos ensina. A grande surpresa no ano que passou foi o retorno das ações no Brasil: o Ibovespa subiu mais de 30%.

Foi o rally menos comemorado da história, pois a maioria dos investidores locais estava sub alocado nessa classe de ativo. Para ser justo, muitas, ou talvez a maior parte das expectativas se confirmaram, como para os ativos de crédito.

2025 começou tumultuado com os mercados no Brasil reprecificando o risco fiscal, após o não pacote de corte de gastos do governo e o anúncio da isenção de IR para aqueles que recebem até R$5 mil. As taxas de juros subiram, o câmbio desvalorizou.

Continua depois da publicidade

A expectativa de corte de juros foi completamente apagada das projeções. Nesse cenário, todos esperavam que os ativos de risco não teriam boa performance. Com a situação se acomodando, o dólar desvalorizando, principalmente por fatores externos, o que ajuda a inflação e a economia mantendo nível adequado de crescimento, a bolsa foi a grande surpresa.

Os juros elevados e a permissão, no final de 2024, para marcarem títulos públicos sem as volatilidades diárias, levaram os fundos de pensão a continuarem diminuindo sua exposição em renda variável brasileira. O pico da exposição foi 20% em 2020, caiu a 9% em 2024 e estava em 7,8% em agosto de 2025, última informação disponível. Nos fundos de investimentos, a participação dos fundos de ações em relação ao total era 6% em agosto de 2025, 6,4% no mesmo mês de 2024 caindo de 10% em 2020. Por isso a alta não foi tão comemorada.

Mas a bolsa não subiu apenas por fatores domésticos. Foi mais um ano positivo para o S&P500 nos EUA, que subiu 17% e também para muitos países que se beneficiaram com alguma saída de recursos da bolsa americana após as imprevisibilidades de Trump. No Canadá a bolsa subiu 29%, a maior alta em 16 anos. Na Europa, 16,7% e no Japão, com a reflação, subiu 26%. O índice de ações de países emergentes subiu mais de 30%, com alguma ajuda do câmbio.

Continua depois da publicidade

Seguindo a lista de melhores desempenhos do ano passado estão os fundos imobiliários. Após cair em 2024, o IFIX subiu 21%, sendo mais de 3% em dezembro, e bateu seu recorde histórico. O destaque foram os fundos de tijolo, especialmente de logística. A provável redução da taxa SELIC parece ter começado a ser incorporada nos preços.

O bom desempenho dos ativos de crédito pode ser resumido nos dois principais índices do setor, que medem o desempenho de debentures indexadas ao CDI e ao IPCA, que subiram 16% no ano. Como base de comparação, o CDI subiu 14,25%. Apesar da boa rentabilidade aconteceram alguns percalços, que mostram que há risco no crédito e isso está melhor precificado agora do que no passado, o que é visível nas cotas dos fundos abertos.

Casos como Braskem, Casas Bahia e Ambipar mostram que não adianta só olhar o alto retorno esperado, que pode não compensar o risco e o suor para receber o dinheiro de volta. O melhor exemplo é o Banco Master, que não afetou nenhum fundo relevante, mas estava na carteira de milhões de investidores.

Continua depois da publicidade

A demora do FGC em pagar os CDBs ajuda a refletir sobre casos assim no futuro. Assumindo CDI a 15% e um CDB que paga 120% do CDI, três meses de demora no FGC para pagar o seguro deixa o investimento menos rentável do que outro que remunera a 100% do CDI. Lembrando que o FGC paga o valor atualizado até o dia do “sinistro”.

Com rentabilidade abaixo do CDI, os títulos públicos curtos indexados à inflação refletem o IPCA consideravelmente abaixo do planejado no ano. O Focus, no começo de 2025, apontava para alta de 5% no ano e a inflação deve ficar perto de 4,3%. Já o desempenho dos títulos com vencimentos longos, que subiram 11,5% refletem recuperação do nível elevado (pensando em taxa) do início de 2025, mas sem otimismo, já que não houve nenhuma grande mudança estrutural na economia brasileira que mudasse o quadro de confiança de longo prazo.

Se não bastasse as dificuldades usuais dos investidores em montarem e seguirem seus planos de investimentos, a bagunça tributária bateu recorde nos últimos anos.

Continua depois da publicidade

Os fundos de previdência foram taxados para investimentos acima de R$50 mil. Mais uma vez houve tentativa frustrada de acabar com os títulos e fundos isentos e, para coroar, a invenção do imposto de renda mínimo, que irá incluir na sua base de cálculo os rendimentos advindos de investimentos não isentos, mesmo que já tenham sido taxados, e os dividendos.

Os brasileiros já sabem que o que importa é o retorno final, pós imposto, mas como investimento é um assunto de longo prazo e todo ano o governo inventa alguma coisa, é difícil acertar. Mais uma vez vale a regra: a diversificação é uma boa proteção.

Autor avatar
Evandro Buccini

Sócio e diretor de gestão de crédito e multimercado da Rio Bravo