Quer pagar como?

Depois de transformar produtos, plataformas e acesso, o mercado de investimentos começa a mudar também a maneira como o investidor remunera quem cuida do seu patrimônio

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Quem assistia à televisão brasileira nos anos 2000 provavelmente se lembra de uma pergunta que virou quase um bordão nacional: “Quer pagar quanto?”

Era a Casas Bahia falando sobre prestações. Décadas depois, guardadas todas as proporções, a evolução do mercado financeiro me faz lembrar daquela campanha.

Só que talvez a pergunta agora seja outra: quer pagar como?

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Durante boa parte da história recente dos investimentos no Brasil, essa escolha praticamente não existia.

A indústria se desenvolveu predominantemente a partir de um modelo transacional, no qual a remuneração de quem distribuía investimentos estava relacionada, de alguma maneira, aos produtos adquiridos pelo cliente.

Esse modelo teve papel importante no desenvolvimento da indústria.

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O investidor brasileiro ganhou acesso a mais produtos, plataformas abertas, investimentos internacionais e um nível de informação impensável há algumas décadas. Mas mercados amadurecem.

E amadurecer também significa discutir os incentivos sobre os quais foram construídos.

Não é uma discussão sobre caráter

Existe um conceito conhecido na economia chamado problema do principal-agent. Em termos simples, ele aparece quando alguém presta aconselhamento em nome de outra pessoa, mas possui incentivos econômicos que podem não estar perfeitamente alinhados aos dela.

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Um estudo do Center of Finance da Universidade de Regensburg sobre proibições de comissões no mercado financeiro aplica essa lógica à distribuição de investimentos.

Os pesquisadores discutem como uma remuneração associada aos produtos pode criar situações em que aquilo que maximiza a remuneração do profissional não necessariamente coincide com aquilo que seria mais interessante para o investidor.

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Isso não significa presumir má-fé de quem trabalha com comissão. O debate não é sobre caráter. É sobre incentivos.

Alguns mercados decidiram enfrentar a questão por meio da regulação. Reino Unido, Holanda, Austrália e outros países adotaram, com diferentes abrangências, restrições ou proibições a determinadas comissões na distribuição de produtos financeiros.

Os Estados Unidos seguiram outro caminho. Não houve uma proibição geral, mas modelos baseados em fees se disseminaram no aconselhamento financeiro. O próprio estudo chega a considerar os EUA, em um de seus testes, uma espécie de mercado de “quasi commission ban”.

Isso é particularmente interessante porque mostra que uma transformação não precisa acontecer apenas por imposição regulatória. Ela também pode acontecer porque o mercado evolui.

Quando muda a remuneração, muda o cardápio

Talvez a consequência menos óbvia dessa transformação esteja nos próprios produtos que chegam à carteira. Imagine dois instrumentos adequados ao mesmo objetivo. Um remunera melhor a cadeia de distribuição.

O outro custa menos, mas praticamente não remunera quem o distribui. Mesmo sem qualquer intenção inadequada, há um incentivo econômico evidente nessa escolha.

Quando a remuneração passa a estar mais relacionada ao serviço prestado do que ao produto adquirido, essa equação muda. E isso ajuda a entender o espaço conquistado pelos ETFs.

Um relatório da AAWZ destaca justamente essa característica: ETFs não carregam a mesma estrutura de rebates encontrada em diversos produtos tradicionais.

Em uma arquitetura dependente da remuneração da distribuição, isso pode torná-los menos interessantes economicamente para quem os oferece. Quando a remuneração está no serviço, essa restrição diminui.

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Segundo dados da Cerulli, reproduzidos no relatório da AAWZ, ETFs já representam aproximadamente 22% da carteira do cliente médio atendido por RIAs nos Estados Unidos, com projeção de superar 25%.

Isso não significa que ETF seja sempre melhor do que fundo ativo. Significa que, quando a remuneração depende menos do produto escolhido, mais instrumentos podem disputar espaço na carteira por aquilo que entregam ao cliente.

Nenhum modelo elimina os conflitos

Seria tentador terminar aqui e concluir que encontramos o modelo perfeito. Não encontramos. Os próprios pesquisadores alertam que estruturas baseadas em fees também podem produzir conflitos.

Quando a remuneração corresponde a um percentual dos ativos acompanhados, por exemplo, existe incentivo para concentrar mais patrimônio sob gestão.

Mudamos os incentivos, não eliminamos a natureza humana.

Por isso, transformar essa discussão em uma disputa entre um modelo “bom” e outro “ruim” empobrece o debate. Comissão pode fazer sentido para determinados clientes. Fee fixo ou percentual sobre patrimônio pode fazer sentido para outros.

A evolução está justamente na possibilidade de escolha.

Durante muito tempo, para boa parte dos investidores brasileiros, o custo do serviço financeiro esteve diluído nos produtos e nas estruturas de distribuição. Agora começamos a construir um mercado no qual essa remuneração pode aparecer de formas diferentes e mais explícitas.

Isso obriga a indústria a responder uma pergunta importante: qual valor está sendo entregue em troca do que o cliente paga?

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E talvez essa seja a parte mais saudável de toda essa transformação.

O mercado brasileiro já evoluiu na quantidade de produtos, na tecnologia, no acesso ao exterior e na democratização dos investimentos.

É natural que também evolua na forma como profissionais e clientes estabelecem sua relação econômica.

Não precisamos decretar vencedores e perdedores. Precisamos reconhecer que o mercado mudou e que novos modelos merecem ser compreendidos e respeitados.

Afinal, durante muito tempo a pergunta foi:
“Quer pagar quanto?”

Talvez o amadurecimento da indústria esteja justamente em permitir que o investidor finalmente responda a outra: “Quer pagar como?”.


Economista com pós-graduação em Economia. Sócio e Head de Private Bank na Alta Vista Investimentos, atua com planejamento patrimonial e sucessório para clientes de alta renda. Embaixador XP B2B e apresentador do podcast Ponto de Vista.