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Você já deve ter notado como as crianças reagem ao perder. Um jogo de pedra-papel-tesoura, uma corrida, uma disputa qualquer. A frustração é desproporcional, imediata, exagerada. Elas ainda não desenvolveram o filtro social que adultos usam para disfarçar o incômodo.
Mas o incômodo continua lá durante toda a nossa vida. Apenas aprendemos a escondê-lo melhor.
No universo dos investimentos, essa mesma reação infantil aparece de formas mais sofisticadas, mas igualmente destrutivas. A diferença é que, em vez de um par ou ímpar, estamos falando de patrimônio real. E as consequências de uma reação emocional mal calibrada podem durar anos.
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A matemática cruel da perda
Em 1979, os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky mapearam algo fundamental sobre como processamos ganhos e perdas. Eles descobriram que a dor de perder é aproximadamente duas vezes mais intensa que o prazer de ganhar o mesmo valor.
Isso tem nome: aversão à perda. E não é um traço de personalidade que você pode escolher não ter, é uma característica da arquitetura cognitiva humana.
Perder R$ 500 dói mais do que ganhar R$ 1.000. Sempre.
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Quando você vê sua carteira no vermelho, além de estar processando informações financeiras, está lidando com uma resposta emocional que foi calibrada ao longo de milhões de anos de evolução. E essa resposta não foi desenhada para lidar com volatilidade de mercado, foi desenhada para evitar ameaças imediatas à sobrevivência.
O problema é que no mercado financeiro, o instinto de fugir do perigo costuma produzir exatamente o resultado que você quer evitar: a perda permanente.
É comum ouvir investidores dizerem que “sabem que o mercado oscila”, que “estão preparados para quedas”, que “até preferem quando cai porque podem comprar mais barato”. É bonito no discurso e reconfortante acreditar nisso.
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Mas quando o Ibovespa despenca 8% em três dias, a realidade é outra. A vontade de “proteger o patrimônio” vira compulsão, a sensação de que “dessa vez é diferente” parece absolutamente racional e a tentação de vender antes que “piore ainda mais” se torna quase irresistível.
É um excesso de emoção em um momento em que a emoção deveria estar fora da equação.
Os dados mostram isso de forma cristalina. Segundo estudos da Dalbar (especificamente o relatório Quantitative Analysis of Investor Behavior (QAIB)), que analisa comportamento de investidores há décadas, o retorno médio do investidor individual fica consistentemente abaixo dos índices de mercado.
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Não porque escolhem ativos ruins, mas porque compram na euforia e vendem no pânico. O emocional destrói mais patrimônio que qualquer análise equivocada.
O que acontece no seu cérebro quando o mercado cai
Quando você vê perdas, áreas do cérebro associadas à dor física são ativadas. E quando estamos sob dor, o raciocínio lógico perde espaço para a reação instintiva.
Outro fator é o viés de recência. Nosso cérebro dá peso desproporcional a eventos recentes. Três dias de queda na carteira parecem mais relevantes que três anos de estratégia bem planejada, e mesmo sabendo racionalmente que isso não faz sentido, a sensação vence a razão.
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Por isso que tantos investidores dizem uma coisa e fazem outra.
Uma reflexão prática
Se você está montando uma estratégia de longo prazo agora, faça um exercício. Imagine o Ibovespa caindo 20% nas próximas semanas. Noticiário negativo, especialistas pessimistas, todo mundo dizendo que é hora de sair.
Nesse cenário, o que você faria? E mais importante: você conseguiria de fato executar o que está planejando agora?
Porque se a resposta sincera é “não sei” ou “acho que venderia”, sua alocação atual está errada. Não por ser tecnicamente inadequada, mas por ser emocionalmente insustentável.
Investir é um processo de autoconhecimento tanto quanto de análise financeira. Reconhecer que você não lida bem com perdas é lucidez.
Por isso, construir uma estratégia que leve isso em conta pode ser a diferença entre acumular patrimônio ou apenas acumular arrependimento.
No fim, não se trata de eliminar a emoção, mas de não deixar que ela tome decisões por você no pior momento possível.
Nos vemos em breve. Até a próxima!