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O endividamento das famílias brasileiras acaba de atingir o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2005: 49,9% do saldo total das dívidas em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses. O país já soma 81 milhões de negativados, segundo o FGV/IBRE.
Há um lado dessa história que faço questão de encarar desde já: existem casos reais de vício, ciclos destrutivos e muito tristes de acompanhar. Já ouvi relatos de empresários cujo maior problema hoje com funcionários não é a performance, mas os pedidos de adiantamento salarial para pagar dívidas com apostas.
Isso não é uma estatística distante para mim. É o RH de empresas reais lidando diariamente com as consequências de um hábito que, na minha visão, entrou na sociedade brasileira de forma doentia.
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O elo entre os dois fenômenos já tem números concretos: a própria CNC estima que cerca de 270 mil famílias passaram a um quadro de inadimplência severa por causa dos gastos com apostas.
É parte relevante, e crescente, de uma conta em que o volume movimentado saltou de R$ 4 bilhões para R$ 30 bilhões mensais em apenas três anos, um crescimento de mais de sete vezes, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio, com base em dados do Banco Central.
Acumulado entre janeiro de 2023 e março de 2026, esse dinheiro drenado do varejo já soma R$ 143,8 bilhões, valor equivalente ao faturamento de dois Natais inteiros do comércio brasileiro.
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Esses números retratam milhões de famílias que, cedo ou tarde, vão sentir esse efeito no próprio bolso, se é que já não o sentiram.
O problema vai muito além do ato de apostar
Segundo levantamento do Procon-SP, quase um em cada cinco apostadores ouvidos pela pesquisa (18%) gasta mais de R$ 1 mil por mês em apostas esportivas e jogos on-line. E uma parcela relevante desse grupo já não aposta por diversão. Aposta para tentar se salvar de uma situação que o próprio hábito ajudou a criar.
E mais de 4 em cada 10 apostadores (42%) já têm dívidas em atraso há mais de 90 dias, segundo o DataSenado (coleta de junho de 2024).
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O paralelo que faço é com qualquer outro hábito que, em excesso, faz mal: comida, álcool ou cigarro. Nenhum deles é eliminado por um simples decreto de vontade.
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O que funciona é o que chamo de educação para o uso: saber o limite, dosar e, principalmente, entender o efeito de cada decisão sobre aquilo que realmente importa na vida.
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É justamente essa educação que torna alguém menos suscetível às perdas mais graves: patrimônio, família e, às vezes, até a própria vida.
Se você tem um bom planejamento financeiro, reserva de emergência constituída, planejamento de curto, médio e longo prazo bem definido, e decide apostar, o estrago dessa decisão tende a ser muito menor.
A lógica é simples, mas raramente é dita: quem tem objetivos claros e uma estrutura financeira consistente tende a estar menos vulnerável aos impulsos de curto prazo.
Nem todo mundo chegou ao fundo do poço… ainda
Vale um contraponto importante: a maioria de quem aposta não está em ruína.
Segundo levantamento da Datatudo, 62% dos apostadores gastam até R$ 50 por mês com bets, um valor destinado ao lazer, comparável ao custo de um streaming ou de um cafezinho no fim de semana.
O risco não está nessa maioria. Está justamente na cauda que descrevi acima e, principalmente, no fato de que qualquer pessoa pode migrar de um grupo para o outro sem perceber, quando não existe nenhuma estrutura sustentando a queda.
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Como lidar com esse fenômeno, que se somou a tantos outros fatores que já dificultam a capacidade do brasileiro de investir? Essa é uma pergunta que ouço com frequência, inclusive em entrevistas.
Prefiro ser direto desde já: não sou a favor das apostas.
Mas o ponto que quero levantar aqui não é sobre certo ou errado. É sobre estrutura.
A fundação muda o motivo pelo qual você aposta
Aqui está a virada mais interessante desse raciocínio: com um planejamento financeiro estruturado, se você decidir apostar, estará apostando por diversão — e não porque está tentando extrair dinheiro de um lugar de onde ele não deveria sair.
A diferença entre essas duas motivações é o que separa entretenimento de autossabotagem.
É aqui que a metodologia goal-based, que tenho discutido nas últimas colunas, entra com força.
Quando um planejador compreende profundamente os objetivos de vida de alguém — aposentadoria, faculdade dos filhos, casa própria — torna-se muito mais fácil desconstruir um viés de curto prazo, como o impulso de fazer uma aposta maior do que deveria.
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O gatilho passa a ser outro: se você seguir por esse caminho, o objetivo que você mesmo definiu como prioridade simplesmente deixará de acontecer.
Resumo tudo isso em uma palavra que pode soar antiga, mas que considero central: princípios.
Quem tem um propósito claro e maior do que o prazer imediato não se deixa levar tão facilmente por algo rápido e passageiro.
É prioridade definida com antecedência. E isso, no fim das contas, é a própria definição de planejamento financeiro 360°.
Antes de apostar novamente, faça um diagnóstico rápido
- Você possui uma reserva de emergência equivalente a três a seis meses do seu custo de vida? Se não, esse é o primeiro projeto — não a aposta.
- Que porcentagem da sua capacidade mensal de poupança os gastos com apostas consomem? Se esse valor compete com seus objetivos de curto e médio prazo, o sinal de alerta já apareceu.
- Você aposta para se divertir ou para tentar recuperar uma perda anterior? A resposta honesta a essa pergunta diz mais sobre sua saúde financeira do que qualquer extrato bancário.
- Seus objetivos de vida estão escritos, com nome, prazo e valor definidos? Sem isso, não existe gatilho de prioridade capaz de competir com o estímulo imediato de uma aposta.
O fenômeno das bets não vai desaparecer. Mais cedo ou mais tarde, ele vai bater à porta de alguém que você conhece — talvez já tenha batido à sua.
Fingir que ele não existe não protege ninguém.
O que protege é ter uma vida financeira estruturada o suficiente para que uma aposta seja exatamente aquilo que deveria ser: uma pequena parcela do orçamento, escolhida com consciência e sem competir com o que realmente importa.
Você está apostando por diversão ou tentando resolver, com uma aposta, um problema que só o planejamento financeiro é capaz de resolver?