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Existe uma contradição curiosa na maneira como algumas famílias organizam seu patrimônio. Pais passam décadas trabalhando, construindo empresas, acumulando investimentos e fazendo sacrifícios para proporcionar uma vida melhor aos filhos.
Quando chega a hora de discutir o destino desse patrimônio, porém, quase sempre partem da mesma premissa: um dia, quando eu não estiver mais aqui, tudo isso será deles.
É uma decisão perfeitamente compreensível. Deixar patrimônio também é uma forma de cuidar de quem amamos. O que me chama atenção é como discutimos o tamanho da herança e sua organização jurídica, tributária e sucessória, mas raramente fazemos uma pergunta mais simples: em que momento da vida dos nossos filhos esse dinheiro será mais útil?
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Aos 30 anos, esses recursos podem interferir em decisões importantes. Décadas depois, uma herança muito maior continuará sendo valiosa, evidentemente, mas chegará quando boa parte das grandes escolhas da vida provavelmente já tiver sido feita.
Foi difícil não pensar em Bill Perkins enquanto refletia sobre isso.
Em Morra sem nada, Perkins parte de um título extremamente provocativo para discutir uma ideia menos radical do que parece. Seu argumento não é que devemos gastar irresponsavelmente tudo o que construímos.
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É que dinheiro tem utilidades diferentes ao longo da vida e, portanto, acumular cada vez mais não deveria ser um objetivo desvinculado daquilo que esse patrimônio pode proporcionar.
Morgan Housel segue por outro caminho em A arte de gastar dinheiro. Passamos muito tempo aprendendo a ganhar, economizar e investir e, proporcionalmente, muito pouco aprendendo a usar bem o dinheiro. Saber construir patrimônio e saber transformá-lo em uma vida melhor são habilidades diferentes.
A combinação dessas duas ideias produz uma pergunta desconfortável para quem passou a vida inteira acumulando: será que deixar o maior patrimônio possível é necessariamente a melhor maneira de ajudar os filhos?
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Há alguma evidência econômica interessante por trás dessa reflexão.
Kristian Blickle e Martin Brown estudaram como transferências financeiras entre gerações afetam a aquisição de imóveis.
Utilizando dados de famílias suíças, encontraram um aumento de aproximadamente 6 a 8 pontos percentuais na probabilidade de beneficiários deixarem o aluguel e comprarem a própria casa após uma transferência.
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Outro estudo, de Douglas Holtz-Eakin, David Joulfaian e Harvey Rosen, investigou a relação entre heranças e empreendedorismo nos Estados Unidos.
Os pesquisadores encontraram evidências de que o recebimento de uma herança estava associado tanto à probabilidade de iniciar um negócio quanto ao volume de capital colocado nele.
Sem defender a doação ou não, o que esses estudos nos mostram é que ter acesso ao capital em determinado momento da vida pode mudar as escolhas disponíveis.
R$ 500 mil continuam sendo R$ 500 mil aos 30 ou aos 60 anos. A utilidade desses R$ 500 mil, provavelmente não.
Aos 30, eles podem significar formação, moradia, um negócio ou liberdade para assumir determinado risco profissional. Aos 60, talvez encontrem alguém com casa própria, carreira consolidada, filhos criados e patrimônio construído.
O dinheiro não perdeu valor. A vida mudou ao redor dele.
Primeiro, os pais
Só que existe um limite importante para essa ideia. Antes de pensar em antecipar patrimônio aos filhos, os pais precisam garantir o próprio futuro.
Quando fazemos planejamento financeiro para uma família, não sabemos quanto tempo aquelas pessoas viverão, como serão seus gastos com saúde aos 80 ou 90 anos, quais crises econômicas atravessarão ou que mudanças acontecerão dentro da própria família.
Uma pessoa saudável aos 60 pode ter mais quarenta anos pela frente.
Por isso, a pergunta não deveria ser simplesmente “quanto posso dar aos meus filhos?”. Antes dela existe outra, que é quanto preciso preservar para continuar independente deles?
Essa ordem importa.
A generosidade dos pais não deveria criar sua dependência financeira no futuro. Antes de qualquer transferência, é preciso projetar custo de vida, longevidade, liquidez, investimentos e uma margem razoável para aquilo que nenhuma planilha conseguirá prever.
E a planilha também não resolve tudo. Dar dinheiro aos filhos mexe com a dinâmica familiar. Um pode querer empreender, outro comprar um imóvel, outro estudar fora. Um pode estar preparado para receber recursos aos 25, outro talvez não esteja aos 35.
Tratar todos exatamente da mesma maneira pode parecer justo e, ainda assim, produzir resultados muito diferentes.
É nesse ponto que a conversa deixa de ser apenas financeira.
Herança em vida
Uma das partes mais interessantes dessa discussão é justamente aquilo que não aparece no patrimônio líquido da família.
Quando os pais ajudam um filho a realizar um projeto enquanto estão vivos, podem acompanhar o que acontece depois. Podem aconselhar, discordar, corrigir rotas e também assistir àquilo que seu patrimônio tornou possível.
Um pai pode deixar dinheiro para que o filho faça uma especialização depois de sua morte. Ou pode ajudá-lo a fazer essa especialização agora e estar na primeira fila quando ele receber o diploma.
Financeiramente, podemos calcular as duas alternativas. Não tenho certeza de que conseguimos colocar na planilha a diferença entre elas.
É por isso que gosto da provocação de Perkins e Housel. Os dois, de maneiras diferentes, lembram que patrimônio não deveria existir separado da vida. Construí-lo é importante. Preservá-lo também. Mas chega um momento em que precisamos perguntar para que ele existe.
Durante muito tempo, o planejamento sucessório se concentrou em organizar o que acontecerá com nossos bens quando não estivermos mais aqui. É uma pergunta necessária e continuará sendo.
O Wealth Planning, porém, permite acrescentar outra conversa: o que esse patrimônio pode proporcionar às pessoas que amamos enquanto ainda estamos aqui?
Não existe uma idade certa para transferir patrimônio, assim como não existe um percentual que todas as famílias deveriam antecipar aos filhos. Algumas concluirão que devem preservar praticamente tudo. Outras perceberão que possuem recursos muito superiores àquilo que provavelmente consumirão durante a vida.
O importante é que essa seja uma decisão, e não simplesmente o resultado da inércia.
Melhor do que deixar aos filhos uma grande herança é ter a oportunidade de assistir ao que eles fizeram com uma pequena parte dela.