A Ferrari não vende para qualquer um. O seu patrimônio também não deveria

Quando o acesso a algo extraordinário exige mais do que dinheiro

André Fixel

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Na coluna anterior, falei sobre o que a Patek Philippe ensina sobre legado: a ideia de que não somos donos definitivos do que construímos, mas gestores temporários de algo que, se bem cuidado, atravessa gerações. [Quem quiser ler pode acessar o texto completo aqui.]

Hoje quero continuar esse raciocínio, mas por um caminho diferente e com uma marca que, à primeira vista, parece falar apenas sobre velocidade, mas que, na prática, construiu um dos modelos mais sofisticados de gestão de valor e reputação que o mundo corporativo conhece.

Reprodução

A Ferrari nasceu de teimosia. Enzo Ferrari não queria ser fabricante de carros, mas ser piloto de corrida e, quando percebeu que não era bom o suficiente para os melhores, decidiu construir os carros que outros pilotos dirigiriam.

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Fundou sua empresa em Maranello, no norte da Itália, em 1947, com uma obsessão que nunca o abandonou: a reputação do carro era mais importante do que o carro em si. Ele acreditava, com uma convicção quase irracional, que cada Ferrari precisava ser merecida, tanto por quem a construía quanto por quem a dirigia.

Essa filosofia sobreviveu a ele, atravessou décadas, resistiu a crises e se tornou a espinha dorsal de uma das marcas mais valiosas do planeta.

O que pouca gente sabe (e que transforma a Ferrari em uma metáfora perfeita para este texto) é que ter dinheiro para comprar um de seus modelos mais exclusivos não garante que a compra aconteça. A montadora avalia o perfil de quem pretende adquirir certos veículos com uma atenção que vai muito além da capacidade financeira.

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Ela analisa o histórico do comprador com a marca, a forma como tratou modelos anteriores, o comportamento público, a reputação. Em alguns casos, exige que o candidato tenha percorrido uma trajetória dentro do próprio ecossistema Ferrari antes de ter acesso às edições mais raras, como se houvesse um rito de passagem que o dinheiro, sozinho, não é capaz de encurtar.

Por exemplo: clientes que adquiriram modelos exclusivos e os revenderam rapidamente por lucro muito provavelmente já foram simplesmente removidos das listas de acesso futuro, sem explicação formal.

A Ferrari compreendeu, antes de qualquer escola de negócios sistematizar esse conceito, que o valor de algo extraordinário depende inteiramente de quem o carrega. Um Ferrari nas mãos erradas não é apenas uma venda malfeita, mas uma ameaça à marca inteira.

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É por isso que eles agem menos como uma montadora e mais como uma guardiã de um patrimônio que ela se recusa a deixar ser diluído.

O paralelo com a gestão patrimonial é direto e desconfortável. Muitas famílias constroem fortunas relevantes sem nunca estabelecer critérios claros sobre quem pode gerir esse patrimônio, em que condições e com quais responsabilidades.

O acesso ao que foi construído é dado por laço sanguíneo, não por preparo. E assim como a Ferrari viu compradores sem perfil destruir o valor de seus carros ao usá-los como troféus descartáveis, famílias assistem a herdeiros sem formação adequada desfazerem em anos o que levou décadas para ser erguido.

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A pergunta que a Ferrari faz antes de vender um carro é, no fundo, a mesma que toda família de patrimônio relevante deveria se fazer antes de transferir ativos: essa pessoa está preparada para carregar o que estamos entregando? Tem a postura, a maturidade e a compreensão do que esse patrimônio representa?

Enzo Ferrari era obcecado com a ideia de que um carro de corrida era uma obra de arte, e que obras de arte merecem ser tratadas como tal. O que ele construiu sobreviveu a ele exatamente porque ele se recusou a abrir mão do controle sobre quem poderia fazer parte desse universo.

Seu patrimônio funciona da mesma forma. Construir é a parte que a maioria conhece, agora, definir quem está apto a recebê-lo, em que condições e com quais responsabilidades, essa é a parte que separa riqueza de legado.

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Ao longo da nossa atuação na Verso, vemos com frequência histórias de empresários e profissionais que construíram patrimônios relevantes ao longo de décadas, mas que nunca tiveram tempo (ou orientação) para estruturar o que acontece depois: como organizar os ativos, como proteger o patrimônio, como preparar as próximas gerações e quais estruturas permitem que aquilo que foi construído atravesse o tempo.

Gestão patrimonial, quando chega neste nível, deixa de ser apenas sobre escolher investimentos.

Nosso papel é justamente ajudar clientes a transformar patrimônio em algo mais estruturado e duradouro, seja por meio de planejamento patrimonial, organização de investimentos, estratégias internacionais ou estruturas que protejam e deem continuidade ao que foi construído.

Porque, no fim, a pergunta que a Ferrari faz antes de entregar um de seus carros mais raros talvez seja a mesma que deveria existir em qualquer patrimônio relevante: quem está preparado para cuidar disso no futuro?

Nos vemos em breve. Até a próxima!

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André Fixel

No mercado financeiro desde 2006, consolidou sua experiência nas tesourarias da Petros, Lojas Americanas e B2W. Ingressou na XP em 2008 e, no ano seguinte, estruturou seu primeiro escritório de investimentos. Em 2022 fundou a Verso Investimentos, onde atua como CEO. Foi reconhecido diversas vezes como um dos principais captadores de recursos do ecossistema B2B da XP.