Publicidade
O novo acordo fechado pela UEFA pelos direitos de transmissão de seus torneios masculinos, em 19 territórios para o ciclo de 2027-2031, rendeu um total de US$ 910 milhões e representou um aumento de 40% em relação à última venda, segundo o The Athletic.
A Bloomberg projeta que os contratos devem elevar a receita da UEFA com direitos e acordos comerciais para mais de US$ 5,9 bilhões.
Uma fonte ouvida pela reportagem afirma que a inflação de preço foi impulsionada pela presença das gigantes norte-americanas de mídia, Disney e Paramount (que aguarda aprovação regulatória para adquirir a Warner Bros. Discovery). O processo de licitação envolveu a Europa e as Américas, excluindo os Estados Unidos.
Continua depois da publicidade
Leia mais: A saída da Netflix abre espaço para a Paramount redesenhar o mapa dos direitos esportivos
E os desdobramentos refletiram em uma nova configuração do cenário brasileiro.
Por aqui, a TNT garantiu a renovação de seu pacote, superando propostas da Globo e da CazéTV. A novidade será a exibição de 57 jogos selecionados no YouTube (provavelmente maioria da primeira fase). Enquanto a ESPN/Disney+ deterá 100% dos direitos de transmissão da UEFA Europa League e da UEFA Conference League em toda a América Latina.
Continua depois da publicidade
O contrato atual também supera o desempenho recente da UEFA nos principais mercados europeus. No último ciclo, a entidade já havia registrado um aumento de aproximadamente 20% na venda de direitos no Reino Unido, Itália, França, Alemanha e Espanha.
Leia mais: Novo acordo de mídia expõe o paradoxo da Champions League
Conforme explicou o The Athletic, os direitos comerciais e de mídia da Liga dos Campeões, Liga Europa e Liga Conferência são agora gerenciados pela UC3, uma joint venture entre a UEFA e a European Football Clubs (EFC), o grupo de lobby anteriormente conhecido como European Club Association, com a Relevent Football Partners atuando como agente de vendas da UC3.
Continua depois da publicidade
O resultado desses novos acordos é que a UC3 já garantiu mais de US$ 3,8 bilhões em receitas anuais de direitos de mídia a partir de 2027. O repórter Matt Slater lembra que ainda têm os leilões para as regiões da Ásia, Oriente Médio e Norte da África e África Subsaariana para serem realizados.
Daqui quatro anos, será a vez de renovar nos EUA. E até lá a UEFA entrará em uma briga ferrenha para provar o valor de sua propriedade intelectual justamente no mercado que hoje concentra 56% das receitas globais de IPs esportivas.
O relatório “2026 Sports IP Revenue League”, publicado pela Two Circles na semana passada, mostra que esse segmento gerou um recorde de US$ 174 bilhões em 2025. E, pela primeira vez, um país, os EUA, ultrapassa a marca de 50% de participação.
Continua depois da publicidade
E o ranking deixa explícita uma hegemonia norte-americana. NFL (US$ 14,9 bilhões) e NBA (US$ 8,1 bilhões) lideram globalmente, enquanto 45 das 100 maiores propriedades esportivas do mundo estão sediadas no país.

Neste ano, a UEFA e sua UC3 aparecem na quinta posição, com US$ 5,3 bilhões em receitas e um CAGR de 10% em 10 anos. Ou seja: a entidade cresce, mas ainda disputa espaço fora do mercado que efetivamente define o valor global.
O estudo revela outra lógica de poder deflagrada por quem domina a engenharia de monetização, e não necessariamente determinada pela concentração da audiência, conforme apontou o analista e ex-FIFA Luis Vicente.
Continua depois da publicidade
Como comparação, o mercado mundial tem apresentado uma taxa de crescimento anual composta de 6% desde 2015, quase o dobro do ritmo do PIB global, e a projeção é de que ultrapasse US$ 260 bilhões até 2033.
Fontes ouvidas pelo The Athletic indicam que a UC3 já atingiu 75% da sua meta para o ciclo, tornando a marca de US$ 5 bilhões plenamente alcançável.
Atualmente, as três competições geram cerca de US$ 4,2 bilhões por ano, com mais de 90% desse valor distribuído entre os clubes participantes.
O peso da mídia
Dos US$ 174 bilhões gerados pelo mercado global, US$ 58 bilhões (ou 33,3%) são atribuídos diretamente aos direitos de mídia.
O relatório da Two Circles aponta que a fragmentação da distribuição e a atomização do consumo têm forçado os detentores de direitos a se adaptarem a uma nova lógica de monetização.
Um dado citado pelo relatório ajuda a dimensionar essa mudança. O esporte já representa 9% de todo o conteúdo consumido globalmente, contra menos de 6% em 2020.
Em fevereiro, o Boston Consulting Group (BCG) já apontou que os direitos de mídia continuarão sendo o principal motor de crescimento, especialmente para as propriedades que conseguem combinar escala, engajamento e relevância global.
Entre 2014 e 2024, as dez maiores propriedades esportivas do mundo mais do que dobraram o valor de seus direitos, saindo de cerca de US$ 15 bilhões para US$ 32 bilhões. Já o segundo grupo, as 20 seguintes, aumentou de US$ 5 bilhões para US$ 7 bilhões.
Na prática, as principais propriedades cresceram quase três vezes mais rápido e hoje valem coletivamente quatro vezes mais.
Em suma, o valor da mídia está se concentrando em um número cada vez menor de ativos. O analista Simon Lane já alertava sobre isso, indicando que o restante do mercado passa a operar sob compressão.
O boletim Sports Pundit reforça que os contratos de direitos ainda seguem, em grande parte, um formato unilateral: o esporte fornece o conteúdo, enquanto as emissoras entregam distribuição.
Esses players controlam vastos ecossistemas de entretenimento, com propriedade intelectual própria e acesso direto a audiências que o esporte, isoladamente, dificilmente alcançaria. E, na prática, esse valor adicional raramente entra na equação.
No fim, a leitura feita pelo Unofficial Partner sobre a edição anterior do relatório permanece válida: o esporte continua sendo um negócio B2B, e cada vez mais concentrado nas mãos de quem domina a arquitetura de valor.