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O interesse de investidores pela creator economy esbarra em duas camadas. A primeira é a expectativa de negócios escaláveis no modelo clássico de startup, algo improvável neste mercado. A segunda passa pelas empresas de serviços, porém as margens das agências não se comparam às das grandes empresas de mídia.
No mês passado, Rafaela Lotto, CEO da YouPix, analisou bem essa assimetria ao tentar explicar por que uma indústria instável continua atraente. Para quem vem de mercados estruturados como oligopólios, com poucos players concentrando a maior parte do valor, a creator economy apresenta uma lógica distribuída. Oportunidades e capital se espalham por uma rede fragmentada de criadores e plataformas.
Há, porém, uma terceira camada pouco explorada. Lotto tratou de duas. Acrescento uma terceira que ganha força no mais novo desdobramento do case global CazéTV e LiveMode: a mídia do criador como ativo.
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Segundo apuração do InvestNews de 15 dias atrás, a LiveMode assumiu 100% da CazéTV após incorporar a fatia de 49% que estava com a CMiguel Produções. O movimento envolve a saída de Casimiro da sociedade direta do canal e sua entrada como sócio da holding LiveMode Cayman, que controla toda a operação. É um modelo de troca de ações, sem valores divulgados, que ainda depende da aprovação do Cade.
A LiveMode Cayman é o mesmo veículo que recebeu o investimento da General Atlantic e funciona como guarda-chuva societário do grupo. Quando escrevi sobre esse aporte em abril do ano passado, destaquei como a General Atlantic havia entendido há mais de uma década para onde a mídia caminhava.
O movimento tem suas raízes no segundo semestre de 2014, no momento em que o capital de risco decidiu olhar para empresas digitais de mídia como potenciais motores de crescimento.
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Agora, a integração definitiva de Casimiro à estrutura da LiveMode reacende essa discussão e demanda uma releitura atualizada do cenário. O maior caso brasileiro de mídia de criador ratifica uma tese recentemente adotada por uma das mais influentes firmas de venture capital global, baseada no tripé conteúdo + comunidade + distribuição.
A a16z passou a orientar seu portfólio a se posicionar primordialmente como empresas de mídia, e não apenas como negócios de tecnologia. O setor parece reconhecer que, hoje, capital isolado já não assegura vantagem competitiva sustentável.
Criadores sempre funcionaram assim. Construa o público. Entenda a demanda. Depois descubra o que vender.
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Doug Shapiro distingue bem as duas economias. A mídia corporativa opera com propriedade institucional, decisões centralizadas, portfólios de risco e intermediários cuidando de financiamento, marketing e distribuição. A mídia de criador, por sua vez, concentra todas as formas alternativas de monetização e parte de um ponto simples: independência editorial e relação direta com o público.
Samir, em uma edição do The Colin and Samir Show do fim do ano passado, resumiu isso ao dizer que um criador é alguém com mentalidade de distribuição: eles são empresas de mídia independentes que entendem como atingir escala.
É por essa razão que a a16z está ajustando seu manual. As startups relevantes são orientadas a dominar canais de distribuição. Elas internalizam o playbook de criadores que já operam como mídias independentes, tomando como exemplo a emblemática união entre Casimiro e a LiveMode.
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A mudança é reflexo da exaustão do modelo de mídia financiado pelo venture capital na década passada.
O fim do ciclo das mídias financiadas por VC
A rodada de US$ 50 milhões que avaliou o BuzzFeed em US$ 850 milhões e a entrada na captação de US$ 46,5 milhões da Vox Media foram os movimentos da General Atlantic no segundo semestre de 2014 aos quais me referi anteriormente.
Sete anos depois, BuzzFeed e Vice estavam no centro de uma reportagem do The Hollywood Reporter que descrevia sua última tentativa de sobrevivência.
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Durante o boom da mídia digital na década de 2010, fundadores falavam em dominar o mundo. Em 2014, Shane Smith, da Vice, declarou: “Não seremos a próxima CNN, ESPN ou MTV. Seremos dez vezes maiores.” Em 2015, Jonah Peretti, do BuzzFeed, afirmou que construía “uma rede global multiplataforma de notícias e entretenimento, algo que nunca existiu”.
Meia década depois, essas ambições desfizeram-se enquanto ambas as empresas disputavam migalhas do mercado de publicidade dominado por Facebook e Google.
A aposta final foi recorrer aos SPACs para levantar caixa e comprar concorrentes. Segundo um financista ouvido pelo THR na época, era “um último recurso”. E o contexto explicava: em 2021, o financiamento privado para aquisições já havia secado.
O capital de risco que bancara essas empresas migrava para jogos, realidade aumentada e apostas esportivas. Gigantes como Comcast e Disney, que haviam feito investimentos de nove dígitos, gastavam bilhões para competir com a Netflix.
Quase dois anos depois, o Vice Media Group entrou com pedido de concordata em 2023. Um grupo de credores assumiria os ativos por US$ 225 milhões, com passivos entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão.
Enquanto essas empresas definhavam, o capital privado redirecionava seus investimentos. O Business Insider listou ainda em 2021 as 11 principais empresas de private equity aplicando em mídia digital, incluindo a General Atlantic. A PwC já contabilizava mais de 170 acordos no setor de mídia e telecomunicações, somando US$ 55 bilhões.
Avançando para o novo cenário, o contraste fica evidente. Em 2023, a economia de mídia criadora representou quase 10% de um mercado global de mídia e entretenimento de US$ 2,5 trilhões. Mais importante: elevou-se muito mais rápido.
Enquanto o mercado total avançou 5% ao ano desde 2020, Shapiro estima que a mídia criadora cresceu perto de 25% anuais. Uma fatia menor, mas responsável por quase metade da alavancagem do setor.
As projeções do analista explicitam o tamanho da virada:
- Crescimento de 10% ao ano levaria o segmento a US$ 460 bilhões e 15% do mercado em 2030
- A 15% ao ano, chegaria a US$ 630 bilhões e ultrapassaria 20%
- A 20%, alcançaria US$ 850 bilhões e 30% do total
“Prevejo que a economia de mídia do criador mais que dobrará até o final da década, ultrapassando US$ 600 bilhões e 20% de todo o mercado de M&E”, escreveu Shapiro no final do ano passado.
A fronteira entre mídia e tecnologia desaparece no balanço das empresas
O Relatório de Fusões e Aquisições de 2025 publicado pela Bain no início deste ano confirma o que os dados já vinham sinalizando: a indústria de mídia tradicional está traçando uma nova rota de sobrevivência. As empresas que antes buscavam escala agora se movem para acordos de escopo, cruzando setores para enfrentar a pressão das gigantes de tecnologia.
Em 2024, mais da metade das transações de mídia e entretenimento já envolvia um alvo ou comprador fora do setor. É a consequência direta de um mercado em que streaming, varejo, publicidade e jogos se fundem em um mesmo lugar. O objetivo não é só diversificar receitas, mas também garantir presença em categorias onde a big tech já opera com folga.
Essa mudança também colocou a propriedade intelectual no centro das decisões. O IP duradouro se tornou um ativo estratégico porque funciona em múltiplas modalidades e mantém relevância mesmo com audiências fragmentadas. Não é coincidência que empresas como Sony, Disney e fundos de private equity tenham acelerado a compra de catálogos, estúdios independentes e ativos que entregam longevidade.
A Disney é o exemplo mais emblemático. Depois de anos priorizando acordos de escala, como as compras da Pixar e da Fox, a empresa passou a direcionar o capital para aquisições de escopo. O investimento na Epic Games marca essa transição. A Sony seguiu caminho semelhante ao adquirir a Alamo Drafthouse e criar uma divisão para experiências ao vivo, expandindo sua presença para áreas que antes não faziam parte do seu core.
Esse avanço para além das fronteiras tradicionais traz novos desafios. A due diligence em acordos intersetoriais é mais complexa, exige entendimento profundo do público alvo e uso mais intenso de dados para projetar sinergias de receita.
O risco cultural também aumenta. Empresas de mídia que compram negócios de tecnologia, varejo ou entretenimento ao vivo precisam equilibrar métodos de trabalho distintos sem diluir os ativos que justificaram a transação, alerta o estudo.
À medida que as plataformas de tecnologia continuam expandindo seu domínio, a convergência entre setores de mídia deve se intensificar. Anunciantes buscam novos fluxos de receita em mercados fragmentados, enquanto o valor da propriedade intelectual capaz de atrair audiências permanece em alta. O relatório da Bain avisa que a reinvenção através de aquisições intersetoriais é o imperativo de sobrevivência.
A creator economy é o laboratório do futuro da mídia
Shapiro enxerga na economia dos criadores o paralelo mais claro para o futuro de toda a mídia. Nesse ecossistema, as barreiras de entrada são praticamente inexistentes e a oferta de conteúdo é infinita.
Mesmo os criadores no topo da pirâmide, onde a desigualdade de audiência é extrema, já tratam seus vídeos, posts e podcasts como ferramentas de marketing para negócios maiores que a própria mídia.
Alguns números compartilhados pelo analista:
- MrBeast perdeu US$ 80 milhões em conteúdo no ano passado, mas gerou US$ 250 milhões em receita com a Feastables, sua marca de chocolates
- A CrunchLabs, assinatura de brinquedos de Mark Rober, fatura 10x mais que seu canal no YouTube
- Autores consagrados disponibilizam conteúdo gratuito para monetizar em outras frentes como no Substack
Jasmine Enberg, ex-Emarketer, define esse ecossistema como uma rede interconectada de sete partes interessadas: criadores, audiência, plataformas, marcas, agências, fornecedores e investidores. Todos estão envolvidos na criação, distribuição ou monetização de conteúdo, enquanto o próprio setor ainda debate seus termos fundamentais.
Rex Woodbury batizou essa nova fase de “Creator 3.0”: uma era que supera o modelo de hashtags patrocinadas. O venture capital subestimou o setor durante anos, focando em ferramentas superficiais como CRMs e links-in-bio. O verdadeiro potencial, segundo ele, está na interseção entre criação, comércio, jogos, SaaS e mídia:
“Existem empresas de mais de US$ 10 bilhões esperando para serem construídas na próxima geração da Creator Economy”.
Os dados macro confirmam esse movimento:
- Fusões e aquisições no setor cresceram 73% no primeiro semestre de 2025 (Quartermast Advisors)
- A receita global de criadores deve atingir US$ 376,6 bilhões até 2030, mais que dobrando o patamar atual (WPP Media)
Os criativos enfrentarão de forma permanente a decisão de quando, e se, devem desintermediar os antigos distribuidores e operar de forma direta. A maioria nunca pensou como proprietária do próprio negócio, mas a combinação entre tecnologia acessível e distribuição aberta torna a propriedade intelectual e o controle criativo uma opção cada vez mais concreta.
Para as empresas de mídia tradicionais, é preciso ultrapassar a fase de negação. Como conclui Shapiro, restam apenas duas escolhas: descobrir como participar ativamente dessa nova economia ou se conformar com um negócio em declínio perpétuo.
O futuro não será uma versão repaginada do passado, mas um ecossistema radicalmente novo sendo construído ao lado, e muitas vezes, apesar, do modelo tradicional.