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Jeff Blackburn parece confortável com uma ideia que ainda provoca certo desconforto no ecossistema esportivo: o gratuito não é um problema, é apenas um estágio.
Ele reconhece que o Tennis Channel 2, o canal FAST, está cada vez mais se tornando “uma rede própria adotada pela TV a cabo.”
O CEO da rede de TV 24 horas dedicada ao tênis e esportes de raquete descreve o T2 como uma espécie de “Spotify gratuito”. Um ambiente de entrada, de experimentação, no qual o usuário consome “não necessariamente o melhor das partidas”, mas o suficiente para entrar no ecossistema.
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É uma visão de quem atravessou a própria transformação da mídia digital. Ex-Amazon, Blackburn ajudou a estruturar Prime Video, Amazon Studios e a engrenagem de publicidade da companhia. Agora, tenta aplicar essa lógica ao tênis com o objetivo de reduzir atrito, ampliar superfície de exposição e empurrar o fã para dentro de um ambiente fechado.
Na entrevista concedida ao Deadline no fim de abril, Blackburn externa sua ambição: “queremos estar em todos os lugares” para “jogar o tênis na frente de todos.”
Nesse desenho, o Tennis Channel 2 perde a função de subproduto para ganhar o status de rede paralela (às vezes absorvida pelo cabo), incorporando a função de um canal gratuito, com anúncios, que serve como topo de funil.
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Com uma certeza quase programática, Blackburn garante que o fã “começará com T2, e vai pensar, tipo, “eu amo tanto essa tonelada de coisas”, também conhecidas como propriedades da plataforma. E entre elas está a Associação de Tênis Feminino (WTA).
A partir de 2027, a WTA adicionará um novo elemento ao seu mapa de distribuição: a CazéTV. E sua entrada é quase uma afronta ao discurso de que o gratuito funciona apenas como uma camada de entrada e experimentação, um estágio preliminar dentro de um negócio pensado para converter atenção em assinatura e retenção.
Entre o funil e o ecossistema
Há um ano, a renovação da WTA com o Tennis Channel garantiu as 2.000 partidas por temporada até 2032 nos EUA. O acordo, segundo o próprio Blackburn, implicou em um “aumento relevante nos pagamentos”, e contribuiu para impulsionar receitas comerciais da entidade que atingiram US$ 142,6 milhões em 2025.
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Sob gestão da WTA Ventures, estrutura criada com investimento de US$ 150 milhões da CVC Capital Partners em 2023, a liga feminina viu crescimento de 24% nas receitas comerciais logo no primeiro ciclo pós-parceria.
A audiência global também avançou, registrando 1,1 bilhão de espectadores em 2024, alta de 10%, com o WTA Finals alcançando 78 milhões, com destaque para aumentos relevantes de 23% na Itália, Espanha e América Latina.
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Essa expansão de audiência, por sua vez, não significa centralização de distribuição. Pelo contrário, o mapa segue fragmentado: Sky Sports no Reino Unido, Tennis Channel na Espanha, beIN Sports na França e DAZN em múltiplos mercados globais.
Na prática, a estratégia de crescimento é também uma resposta defensiva a uma erosão que tem em sua raiz a perda contínua da TV paga e a fragmentação dos direitos esportivos.
O modelo do Tennis Channel sob o aspecto da escala e custo
O próprio Tennis Channel opera dentro dessa contradição. Segundo reportagem da CNBC, a controladora Sinclair chegou a considerar a venda da rede no ano passado, porém recuou à medida que o canal passou a ser reposicionado como ativo estratégico no ecossistema de streaming e publicidade esportiva.
O canal foi adquirido em 2016 por cerca de US$ 350 milhões, e hoje tenta se equilibrar entre três camadas: TV a cabo, streaming pago via app direto ao consumidor (US$ 9,99 por mês ou US$ 109,99 por ano) e o Tennis Channel 2, o canal FAST gratuito.
Essa estrutura híbrida traduz o modelo descrito por Blackburn, ou seja, o gratuito como porta de entrada e o premium como destino.
Mas existe uma pressão evidente. A CNBC aponta que, mesmo com crescimento em segmentos digitais e audiência mais jovem, o Tennis Channel encontra-se em um ambiente no qual a TV paga segue em declínio, forçando migração gradual para streaming e monetização por assinatura e publicidade.
CazéTV e o deslocamento do eixo de valor
Daqui seis meses, a CazéTV ampliará esse mapa de pulverização. Segundo informou o jornalista Flavio Ricco, o canal de Casimiro substituirá a ESPN, que até então detinha os direitos da WTA na América Latina.
A troca de emissora após um ciclo de seis anos deflagra, na verdade, um deslocamento de modelo.
De um lado, o ecossistema tradicional funcionando com direitos pagos, janelas fechadas, distribuição controlada e monetização concentrada. Do outro, um formato alavancado dentro do YouTube, com distribuição gratuita, comunidade ativa, cauda longa de conteúdo e o impulso do algoritmo de descoberta.
A CazéTV já testou esse modelo no futebol e em grandes eventos globais, como em sua segunda Copa do Mundo transmitida e nos Jogos Olímpicos de Paris, transformando a transmissão em presença contínua no feed social, e não apenas como um evento programado.
O ponto não é romantizar o “grátis”. É entender que ele não substitui o premium, mas redefine a entrada no sistema.
Se o Tennis Channel trata o gratuito como Spotify de degustação, a CazéTV o redefine como ambiente principal de consumo.
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Importante lembrar que o modelo da Cazé não depende da conversão para o cabo. Ele precisa da permanência dentro da plataforma e da retroalimentação constante da comunidade.
Em sua entrada no tênis feminino, a CazéTV não é uma exceção à regra, e sim um player que causa dissonância. Ela buscará espaço em um ecossistema que ainda funciona sob o mantra da escassez de direitos, enquanto constrói um negócio pautado pela abundância de distribuição.
E aqui não é uma questão de apontar um modelo vencedor, mas de observar qual deles responde melhor a um mercado de mídia pulverizado.
Conforme mostrei aqui no início do ano, a mídia do tênis se tornou um sistema fragmentado, dos direitos de transmissão dos Grand Slams à circulação de melhores momentos nas redes sociais.
No ano passado, já havia explicadosobre como a distribuição do tênis se dilui entre plataformas e por que o esporte ainda patina para se comportar como um ativo de mídia plenamente moderno.
O vazio entre 2026 e 2027
É nesse ponto que o contrato da WTA com a DAZN, assinado em 2014 e estimado em cerca de US$ 525 milhões ao longo de 10 anos, se torna mais um marcador de transição.
Com o vencimento no fim deste ano, abre-se um espaço que permite à própria WTA avaliar desde novos parceiros até a internalização de sua distribuição digital.
Como aponta a análise do The Athletic, a longo prazo, a prática de limitar acesso ( típica da TV paga) pode se voltar contra os próprios detentores de direitos, ao reduzir descoberta e o consumo recorrente do esporte.
O fim desse ciclo abre uma pergunta para a WTA: o tênis seguirá organizando sua distribuição como um mosaico de parceiros globais ou começará a operar como plataforma?
No clássico do cinema Um Estranho no Ninho, que inspira a metáfora do título deste artigo, Randall McMurphy é o agente externo que rompe a disciplina da instituição ao recusar suas convenções. No contexto desta discussão, a CazéTV é mais uma força que expõe os limites do controle do negócio de mídia no tênis, do que, necessariamente, uma intrusa.
Porque, no fim, o excêntrico talvez não seja a CazéTV, mas o próprio modelo que ainda insiste em tratar o gratuito como exceção.