A resposta dos criadores aos limites do marketing de influência

A frustração com a monetização nas plataformas e o esgotamento da viralidade começam a empurrar criadores para formatos episódicos e audiências fiéis, a base do movimento que o mercado começa a chamar de Creator TV

Eduardo Mendes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Chamado Creator Fast Track, o novo programa anunciado pela Meta oferece US$ 1.000/mês para criadores com pelo menos 100.000 seguidores no Instagram, TikTok ou YouTube, e até US$ 3.000/mês para quem ultrapassar um milhão de seguidores em pelo menos uma dessas plataformas.

Apesar de não divulgar os detalhes de seu modelo de compartilhamento de receita, a Meta revelou que pagou US$ 3 bilhões a criadores em 2025. Para efeito de comparação, o YouTube afirmou ter desembolsado US$ 100 bilhões a criadores, artistas e empresas de mídia desde 2021.

Em entrevista à CNBC, Yair Livne, vice-presidente de produto do Facebook Creators, afirmou que o programa foi criado para atender à necessidade de “facilitar a entrada” dos criadores, após ouvir relatos de profissionais já estabelecidos em outras plataformas sobre como pode ser desafiador começar.

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“Sim, os criadores estão muito ‘intimidados’ para se juntar a uma rede social com 20 anos de existência.”

A ironia do analista Simon Owens é suficiente para ele afirmar que, enquanto a Meta não “levar a sério” a ideia de compartilhar uma porcentagem definida da receita com os criadores, terá dificuldades para lançar seus próprios talentos.

O Scalable Pod ainda lembrou que a Meta se concentra em criadores já estabelecidos, em vez de criadores emergentes, apostando na velha fórmula do alcance impulsionado pelo algoritmo.

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Nas últimas semanas, Owens trouxe à tona depoimentos de influenciadores nos Estados Unidos queixando-se da remuneração no TikTok e Instagram. Uma das citadas é Elizabetheatsnyc, que explica como teve 360 milhões de visualizações em oito meses e, mesmo assim, não está ganhando o suficiente para pagar o aluguel.

Em meio ao desabafo, um apelo feito pela influenciadora de gastronomia com 1,4 milhão de seguidores no TikTok passou despercebido:

“Se você trabalha em TV, mídia, streaming ou produção… esta é a minha candidatura para continuar sendo eu mesma em uma plataforma maior.”

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O pedido espontâneo e urgente para migrar para plataformas digitais reflete o crescente interesse pela Creator TV, um termo que ganhou força nas últimas semanas, no epicentro deste mercado.

Phil Ranta, veterano da creator economy há duas décadas, reforçou o movimento, dizendo que “o conceito sempre esteve presente”, mas que agora os criadores começam a entender o conteúdo episódico de formato longo com a televisão como mecanismo de distribuição primário.

Para ele, Creator TV “não era apenas sobre plataforma, distribuição ou relevância cultural, mas tudo isso combinado.”

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O frisson gerado ao redor da expressão é decorrente dos dados de um estudo feito pela Spotter e apresentados em um evento realizado em Nova York no dia 4 de março: o público passou 52 bilhões de minutos no último ano assistindo a programas episódicos de criadores em formato longo em diferentes plataformas.

No entanto, o segmento ainda ocupa um espaço pouco explorado: cerca de 7 mil criadores estão produzindo esse tipo de conteúdo, somando mais de 28 bilhões de horas assistidas por ano só nos EUA. Isso representa apenas 0,02% de todos os vídeos publicados nas plataformas sociais de vídeo.

Os dados também mostram que 76% dos espectadores assistem ao conteúdo na televisão, e 72% veem mais de três episódios por sessão.

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Historicamente, a valiosa tela da sala de estar foi ocupada pelo domínio da TV aberta e a cabo como um ritual sagrado. Depois surgiu a Netflix. Mais recentemente, esse posto começou a ser ativamente contestado pelo YouTube, e agora Meta e TikTok também estão olhando para esse lugar.

Leia mais:  Se “tudo é TV”, o dinheiro segue o mesmo caminho

A indústria de mídia não pode mais se dar ao luxo de considerar o vídeo dos criadores como uma categoria separada.

O que diferencia Creator TV do marketing de influência

Dados compartilhados por Sofie Sue Rutgeerts mostram que, nos EUA, as marcas financiam 62% do marketing de criadores com orçamentos sociais e apenas 21% com TV linear. E se a TV abraçar os criadores, questiona a analista.

Antes, porém, é importante fazer uma distinção alertada por Nic Paul, presidente da Spotter.

“Nem todo alcance é igual. Fandom importa. Creator TV não é marketing de influência; é narrativa contínua e previsível, capaz de construir lealdade ao longo do tempo.”

Aqui há um paralelo com o artigo que escrevi na semana passada sobre o modelo de negócios dos microdramas. O especialista Ben Woods disse que essas plataformas, assim como as redes sociais, estão otimizadas para atenção descartável, e não para relacionamento duradouro com o público.

Atenção via rolagem de feed infinito não é o mesmo que fandom!

No início deste ano, mostrei que dos US$ 43,9 bilhões que os anunciantes devem investir em marketing de criadores nos Estados Unidos em 2026, 55% serão direcionados à amplificação paga de conteúdos já existentes, não à criação e publicação direta feita pelos próprios criadores.

Esse percentual cresce à medida que marcas e agências passam a tratar o conteúdo de creators como matéria-prima criativa para mídia paga, apoiadas por métricas mais claras de performance e impacto em negócio.

Ao analisar os dados da Spotter, Jennifer Quigley-Jones aponta que a verdadeira oportunidade geralmente está no nível inferior: criadores com verdadeira lealdade do público que ainda não têm preços equiparáveis às compras de TV. “Você não precisa de 148 bilhões de visualizações”, ironiza.

Recentemente, Mike Shields debateu como a Meta viu o YouTube se tornar um player dominante na TV conectada, capturando verba televisiva tradicional enquanto se tornava o centro da economia publicitária para criadores.

Para o analista, replicar esse feito não será simples. As diferenças entre YouTube e Reels, a principal plataforma de vídeo da Meta, são fundamentais.

O YouTube paga historicamente 55% da receita de anúncios pre-roll aos criadores. Mais importante que o percentual é a previsibilidade. Grandes criadores ainda conseguem garantir alcance orgânico significativo, o que sustenta modelos de integração com taxas fixas.

No Reels, a lógica é outra. Apesar da escala, a plataforma não é um celeiro consistente de talentos premium como o YouTube ou Twitch. O alcance orgânico é instável, o que desestimula investimento do criador e torna integrações de marca menos atraentes para compradores de mídia.

O problema do CPM e a armadilha da viralidade

O tema é oportuno para debater a última provocação de Ian Whittaker: o CPM (custo por mil impressões) é um dos conceitos mais prejudiciais da publicidade.

Para o analista, a publicidade é uma decisão de alocação de capital (como as empresas decidem gastar seu dinheiro), e não um exercício de volume. E aqui está o problema apontado por ele: o CPM empurra a indústria para a eficiência. Se tudo é precificado por mil impressões, a resposta lógica é comprar o mais barato, eliminando a diferenciação. Se o inventário é comparável com base no CPM, ele se torna intercambiável e, portanto, mercantilizado.

Whittaker argumenta que o CPM não está relacionado ao crescimento de receita, à expansão de margem ou ao valor da empresa. A verdadeira questão, portanto, não deveria ser “qual é o CPM?”, mas “como podemos gerar resultados duradouros?”.

Na mesma linha, a estrategista cultural Ana Andjelic destaca que a viralização, impulsionada por algoritmos de redes sociais, deixou de ser uma vantagem competitiva e se tornou um requisito básico.

As plataformas foram projetadas para maximizar o engajamento, mas isso cria uma armadilha, pois incentiva a otimização para métricas de curto prazo, manipuláveis pelo algoritmo.

Andjelic decreta a “morte da viralidade” e diz que ela pode ser atribuída à personalização algorítmica, ao crescimento exponencial do conteúdo e à fragmentação da cultura, levando à criação de micropúblicos homogêneos.

A história contada aqui fortalece a Creator TV, mas não como um modismo. O formato ascendente expõe as limitações do marketing de influência e forçará uma escolha que a indústria já vem adiando: continuar otimizando para custo e viralidade, ou começar a construir valor onde ele realmente se forma: na narrativa contínua e no fandom, agora disponíveis na tela da sala de estar.

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Eduardo Mendes

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.