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As biografias de Khaby Lame no TikTok e Instagram já não exibem mais o ticker de ações da Rich Sparkle. A ocultação remonta ao início de abril, quando várias corretoras, incluindo Fidelity, E*Trade e Charles Schwab, bloquearam negociações online ou impuseram restrições aos papeis da empresa por trás da recente fusão com a Step Distinctive Limited, responsável por monetizar a marca do maior influenciador do TikTok, com mais de 160 milhões de seguidores.
Três meses após o anúncio da operação, avaliada em US$ 975 milhões, porém, nenhum documento formal confirmou que a integração foi concluída, e não havia registros mostrando que a companhia de Lame havia recebido a participação na nova entidade.
As ações da provedora de serviços corporativos e empresa de impressão financeira, com sede em Hong Kong e capital aberto, dispararam em janeiro para quase US$ 180. Os investidores de curto prazo aproveitaram a oportunidade. Agora, despencaram mais de 90%.
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O Business Insider revelou os detalhes do que chama de “acordo envolto em mistério” no último dia 9. E somente na semana passada, os fatos que vieram à tona começaram a repercutir no ambiente da bolha da creator economy.
Anunciada como um marco, a colaboração projetava usar o criador mais seguido do TikTok para impulsionar uma estratégia ampla de comércio eletrônico, utilizando IA para recriar a imagem de Lame, gerenciar parcerias com marcas e vender jogos, brinquedos e produtos de consumo.
O combo influenciador + inteligência artificial soa como música para os ouvidos dos investidores, movidos, principalmente, pelo som do hype e da promessa de trilhões dessas duas indústrias.
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Na ocasião, o analista Adi Tiwary chegou a decretar que o momento para o IPO de criadores estava chegando. A realidade, porém, conta outra história.
Ouvido pelo Business Insider, Jeff Frommer, investidor com negócios no setor, foi incisivo: “Abrir o capital é como conseguir um investidor em grande escala. Você precisa ter um negócio real por trás disso.” O que não parece ser o caso de Lame e do plano intitulado de “Gêmeo Digital”.
A ilusão das 75 milhões de novas ações emitidas pela Rich Sparkle para adquirir a Step Distinctive e garantir 36 meses de direitos comerciais globais exclusivos sobre o conteúdo, nome e imagem do influenciador é oportuna para retomar uma discussão que trouxe à tona, há pouco mais de um ano: as métricas de vaidade podem causar espuma nos múltiplos da economia do criador.
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De fato, a distribuição digital se tornou um campo complexo, e os investidores estão começando a tratar as personalidades online como ativos empresariais reais.
O fiasco de Lame & Rich Sparkle, por sua vez, é a prova cabal do alerta feito por Andrew Duggan no momento do anúncio do negócio. Quando você sai do ecossistema da plataforma e compara esse valor com transações de entretenimento já estabelecidas, a avaliação se torna muito mais difícil de conciliar.
O advisor fez um paralelo oportuno com a música para justificar a bandeira vermelha hasteada. Semanas depois do anúncio do negócio (fake) de Lame, foi noticiado que Britney Spears vendeu seu catálogo por US$ 200 milhões.
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“Esses ativos representam propriedade intelectual multigeracional com comprovada durabilidade em royalties em rádio, streaming, sincronização, filmagem e performances ao vivo”, escreveu Duggan.
Em seguida, ele usou o exemplo para confrontar Lame e seu acordo com a Skechers. Segundo Duggan, com base em documentos legais recentes, a colaboração valeu aproximadamente US$ 1 milhão ao longo de dois anos, e foi estruturada em torno de entregas de conteúdo, em vez de participação acionária ou de receita de longo prazo.
“Embora significativo, isso está alinhado com preços de influenciadores baseados em desempenho, em vez de avaliações empresariais próximas a um bilhão de dólares.”
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O investidor e advisor, com 20 anos de experiência no mercado, Phil Ranta, reforça as premissas de Duggan. Recentemente, ele escreveu que o setor é altamente movido por “vibes” e acredita que empresas altamente capitalizadas não podem ser “creator-first”.
Khaby, por sua vez, mostra que a linha entre influência real e sintética (e inflada para o mercado) é mais facilmente rompida do que capitalistas possam acreditar.
A mentira do valuation da “empresa de fachada”
No fim do ano passado, com sua irresistível ironia peculiar, o Entertainment Strategy Guy escreveu uma sátira sobre manchetes relacionadas a produtoras e criadores “buscando” valorizações enormes para seus “impérios midiáticos”.
Pelo fato de os acordos desses negócios não serem públicos, o analista acredita piamente que muitas dessas valorizações “absurdas” têm brechas nos acordos de financiamento, como investidores com direitos de sair mais cedo ou parte do investimento sendo um empréstimo.
Nesta mesma linha, o analista Ian Whittaker repercutiu as críticas de Duggan e acrescentou: “A avaliação de US$ 975 milhões tem mais a ver com a empresa de fachada tentando inflar seu valor do que com uma avaliação verdadeira.”
É verdade que a comédia sem palavras traduzida com o deboche explícito na cara de Lame não apenas deu milhões de seguidores ao influenciador. Realmente, ele construiu um negócio.
Como detalhou Scott Van den Berg, a Step Distinctive Limited gerenciava licenciamento, comércio eletrônico e parcerias de marca. Khaby possuía 49% do dinheiro. O restante era detido por parceiros estratégicos, incluindo um gigante chinês do comércio eletrônico chamado Anhui Xiaoheiyang.
Nos termos do acordo obtidos por Berg, a Rich Sparkle projetava que seu público pudesse gerar US$ 4 bilhões+ anuais em vendas de comércio ao vivo. O plano de expansão tinha como alvo os EUA, Oriente Médio e Sudeste Asiático nos próximos três anos.
Novamente, em uma comparação com a indústria fonográfica, Duggan lembra que os ciclos culturais online se movem mais rápido do que em qualquer outro momento da história do entretenimento, enquanto os catálogos tradicionais de música provaram que podem sobreviver às transições tecnológicas porque sua propriedade intelectual (IP) atravessa formatos e gerações.
A principal questão colocada pelo especialista é que a IP dos criadores ainda está provando se pode manter sua defesa uma vez que a vantagem algorítmica se normalize e a novidade da audiência desapareça.
Duggan argumenta que uma avaliação séria, baseada em comparáveis do entretenimento estabelecido e benchmarks de endosso, não em impulso de manchete, precisaria considerar o risco de concentração, a dependência da plataforma e a incerteza sobre a longevidade. “E, acima de tudo, o envolvimento e a produção de Lame nos próximos cinco anos.”
Por enquanto, a única certeza é de que o influenciador e sua equipe se calaram diante dos questionamentos do Business Insider sobre os desdobramentos do caso.
A mesma lei da economia da mídia
Em 2024, a mídia de criadores gerou cerca de US$ 250 bilhões em receita no ano passado, cerca de 10% do mercado global de mídia e entretenimento (M&E).
A fragmentação dos consumidores em microculturas reforça o desgaste acelerado do modelo de negócios da mídia tradicional, enquanto a mídia de criadores cresce exponencialmente, com projeção de atingir US$ 600 bilhões até o fim da década.
Há dois meses, a Night Media Inc., empresa de gestão de talentos que representa celebridades das redes sociais, como o popular streamer da Twitch Kai Cenat, captou US$ 70 milhões para financiar aquisições e expandir suas atividades para os setores de jogos, esportes e música.
Vinculada com o Mr. Beast no passado recente, a Night é uma das principais agências de representação de talentos para colaboradores de plataformas como YouTube, TikTok e Twitch, e planeja usar seu novo capital para adquirir empresas que possam expandir seus negócios além da gestão.
Na ocasião do anúncio do aporte, Ranta questionou se seria mais um investimento bolha. Sob esse ponto de vista, o analista entende que, assim como na MCN 1.0 (redes multicanal), investidores são convencidos de que estão comprando o futuro do entretenimento, quando, na verdade, adquirem relacionamentos sem grande barreira competitiva.
Se a avaliação for compreendida do ponto de vista estrutural, Ranta argumenta que, diferentemente da MCN 1.0, hoje o caminho de sucesso de um criador é mais claro, exigindo mais conhecimento, ferramentas e trabalho operacional.
Portanto, essas organizações capitalizadas vão comprar empresas que já dominam as melhores rotas para monetização eficiente.
Apesar do contraponto, Ranta conclui que “essa estratégia tem cheiro de bolha.”
Após a rodada de Night, Simon Owens escreveu que a economia dos criadores está ficando “um pouco eufórica” quando se trata de rodadas de investimento de capital de risco. E trouxe uma provocação pertinente:
“Qual é a diferença fundamental entre uma agência de marketing de influência que capta US$ 70 milhões hoje e a Vice que captou US$ 70 milhões há uma década? Ambas estão sujeitas às mesmas leis da economia da mídia.”
É verdade que a mídia tradicional levou décadas para otimizar seus modelos de negócios. E, como bem colocou Doug Shapiro, a economia do criador deve passar por um refinamento e “endurecimento” semelhantes ao longo do tempo.
O momento pede a prudência sugerida pelo Entertainment Strategy Guy: alguém precisará descobrir essa gigantesca desconexão entre as estatísticas das redes sociais e a incapacidade de se traduzir em qualquer outra mídia, porque “há algo errado.”
Em um dos meus primeiros artigos de 2025, no qual analisei o retorno de longo prazo e as avaliações na economia do criador, deixei três perguntas: os valuation da economia do criador são justificados? Eles são sustentáveis? Quem são os vencedores e perdedores?
Estamos em 2026, e ainda seguimos sem respostas.