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Por que Trump e Brexit são pró globalização e contra o globalismo?

Existem dois termos que causam uma confusão enorme de conceitos: globalismo e globalização. Apesar de serem conceitos completamente diferentes, essas palavras são utilizadas como sinônimas, levando a conclusões equivocadas sobre fenômenos recentes, como a eleição de Donald Trump nos EUA e o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Globalização trata-se de um fenômeno econômico, enquanto globalismo é um conceito político. Entenda a diferença neste artigo.

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Existem dois termos que causam uma confusão enorme de conceitos: globalismo e globalização. Apesar de serem conceitos completamente diferentes, essas palavras são utilizadas como sinônimas, levando a conclusões equivocadas sobre fenômenos recentes, como a eleição de Donald Trump nos EUA e o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia).

Entende-se por globalização o livre comércio internacional, no qual cada país se especializa naquilo que tem vantagens comparativas. Por exemplo, suponha que tanto a Inglaterra como Portugal tenham condições de produzir vinhos e tecidos. De acordo com a teoria econômica das vantagens comparativas ( David Ricardo), é mais  vantajoso para Portugal se especializar apenas na produção de vinhos, e a Inglaterra produzir somente tecidos. A ideia é que as empresas de cada país se especializem naquilo que tenham vantagens naturais e competitivas. Nesse caso, Portugal produziria apenas vinhos e importaria o tecido da Inglaterra. Por sua vez, a Inglaterra produziria somente tecidos e importaria vinhos de Portugal. Essa especialização de cada país num tipo de produto levaria a um aumento da renda em ambos os países, desde que não houvesse barreiras protecionistas (tarifas, impostos, subsídios, etc.) no comércio entre eles.

Um erro comum é tratar globalização apenas como sinônimo de livre comércio sem levar em conta a especialização de cada país num tipo de produção. O intelectual Flávio Morgsetern foi muito feliz ao chamar a atenção para este ponto no seu programa no Senso Incomum (aqui), apontando que não existe globalização sem essa especialização.

Além do livre comércio internacional e da especialização da produção, também fazem parte da globalização o livre mercado, a mobilidade de mão de obra entre setores de um país, a desregulamentação econômica, a desburocratização e a livre circulação  de capitais entre nações.

Isso posto, é evidente que globalização trata-se de um fenômeno econômico, enquanto globalismo é um conceito político, conforme veremos agora. Entende-se por globalismo, a criação de organizações supranacionais, capazes de interferir na soberania dos países, a fim de resolver conflitos, na tentativa de encontrar relações harmoniosas entre as nações. De outro modo, o globalismo é a criação de uma espécie de um governo global (Leviatã global), por meio de organizações ou tratados capazes de interferir nas leis e na soberania dos países.

E por que o globalismo é contra a globalização? Porque a criação de organizações globais capazes de influenciar os rumos de um país exige a criação de uma série de regulações e um exército de burocratas sustentados com o dinheiro da população.  É evidente que burocracia, intervencionismo estatal e regulação são termos que vão contra a ideia de livre mercado, portanto, contra a globalização. 

A questão é que a criação dessas organizações supranacionais não é de natureza apenas econômica, muito pelo contrário. De acordo com o filósofo Roger Scruton, a criação da União Europeia foi uma tentativa de acalmar o nacionalismo europeu na criação de “Estado único”. Veja que a criação da União Europeia se encaixa perfeitamente nos objetivos do globalismo.

Do tratado de Roma de 1957  até a União Europeia de hoje, muita coisa mudou. A União Europeia não é apenas um acordo de livre comércio entre os países membros, mas um tratado de dissolução de fronteiras entre as nações, de unificação monetária e uma máquina de regulação gigantesca sobre questões comerciais e imigratórias. Evidentemente que essas políticas atacam a própria ideia de livre mercado e ferem a soberania de cada nação.

Ao criar um exército de burocratas e regulações para as empresas, a União Europeia atrapalha o livre mercado. Além disso, se um país quer realizar mais comércio com outro, um acordo bilateral não seria mais eficiente do que um acordo multilateral com vários países? É óbvio que num tratado multilateral é necessário a criação de mais regras, mais leis e mais burocratas para gerir o acordo comparativamente ao acordo bilateral. O ponto é que a imposição dessas regras, além de prejudicar o próprio comércio, geram custos para o cidadão comum. 

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Já a criação de uma moeda única (euro) afeta a autonomia de um país. A Grécia ao adotar o euro ficou com a moeda excessivamente valorizada, prejudicando suas exportações e seu turismo, enquanto a Alemanha ficou com o câmbio desvalorizado em relação à sua antiga moeda, favorecendo assim suas exportações. É bom lembrar que a crise grega passa pela questão do euro.

Por fim, as questões imigratórias e a livre residência de pessoas dos países membros trazem alguns problemas. Primeiro, parte-se do princípio que não há diferenças culturais entre estes países.  Portanto, não haveria conflitos entre pessoas de outras nacionalidades. Será que não há mesmo diferença cultural entre um inglês e um português? O economista Rodrigo Constantino esclarece bem a questão: “Mas a xenofobia aumentou no mundo justamente pela integração forçada imposta pelos globalistas. Eis o que eles ainda não se deram conta. Quando você obriga um a conviver com o outro, e ainda pagar sua fatura, isso pode levar ao aumento, não diminuição dos antagonismos. Separação amigável é melhor do que casamento forçado”.(leia em Globalização sim; Governo Muncial não!)

Além dessa convivência forçada apontada por Constantino, a qual gera tensões entre povos, a política imigratória se tornou outro elefante branco para os países membros. Primeiro, porque há uma pressão dos burocratas não eleitos da União Europeia para adoção de regras comuns nas questões imigratórias de cada país. Segundo, se, por exemplo, a Alemanha flexibiliza a política imigratória, permitindo a entrada de mais turcos; na prática, esses turcos terão acesso facilitado para qualquer país membro da União Europeia. E se a Inglaterra, por exemplo, for contra essa abertura imigratória? Como fica essa questão? Um povo não tem o direito de definir a sua soberania e ter controle sobre suas próprias fronteiras?

Roger Scruton sintetiza bem a questão ao dizer que a saída da União Europeia é “menos Europa” em vez de “mais Europa”. Essa posição é justamente para evitar o xenofobismo gerado pela imposição de convivência forçada entre povos e culturas distintas. Segundo Scruton, é claro que pode haver integração entre povos, mas esse casamento deve ocorrer de maneira espontânea, de baixo para cima, e não imposto por uma ordem de burocratas. 

Dessa forma, a saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) não está ligada a uma reação contrária à globalização, mas a uma oposição ao globalismo. A população inglesa não se via mais representada por leis que vinham de cima para baixo, por burocratas de Bruxelas não eleitos e completamente desconhecidos da população britânica. A maior evidência para mostrar que a globalização não está em risco é a própria bolsa da Inglaterra. Será que o mercado financeiro, pró globalização, estaria tão otimista se de fato o Brexit fosse contra a globalização?

Além da União Europeia, outra organização que se encaixa perfeitamente no Globalismo é a ONU. A ONU nada mais é que uma grande mediadora de conflitos internacionais, interferindo em questões locais. O ponto é: por que um burocrata da ONU sabe mais sobre a realidade local de uma pais do que os seus próprios cidadãos e governantes? Qual é a autoridade moral da ONU para decidir o que é certo ou errado para um país? Por que ela está acima dos anseios das populações locais de um país?

Evidentemente que a vitória de Trump tem muito a ver com a reafirmação da soberania dos EUA diante dessa onda globalista sintetizada na figura da ONU. Trump não é contra negócios, não é contra globalização; ele basicamente é contra a imigração ilegal aumentada no governo Obama e as interferências progressistas fomentadas pela ONU na cultura americana.

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Mas muito diriam que “Trump é contra a globalização porque é a favor do protecionismo”. Isso seria tão simplista quanto dizer que “Ronald Reagan era estatista e contra o livre mercado porque aumentou os gastos públicos”. Trump é contra acordo multilaterais na medida que trazem entraves burocráticos, prejudicando os negócios. Trump saiu do Acordo de Associação Transpacífico (TPP), porque ao contrário do senso comum, esse acordo era sim contra a globalização, conforme analisou Filipe Martins (analista que cravou o resultado das eleições em 46 dos 50 estados americanos). Segundo Martins, o comércio entre os países já existe e é bem livre. Na verdade, o acordo iria apenas criar regras de padronização de produção, regulações e um aparato de governança supra-estatal pouco transparente que só atrapalharia o livre comércio e interferiria na soberania nacional dos países membros (leia mais em Donald Trump não é protecionista, o TPP sim).  

Portanto, não há até hoje nenhum movimento concreto e substancial de Trump para o fechamento do comércio com outra nação no âmbito bilateral. Uma declaração mais inflamada ou até uma medida pontual não quer dizer que ele seja contra a globalização. Ah, e as montadoras? Ao contrário do que a grande mídia alardeou, não houve uma migração de empresas de automóveis do México para os EUA (apenas a Ford deixou de fazer um investimento de 1,6 bilhão). Pelo contrário, o México após 6 meses de governo de Trump bateu recordes de exportação de carro (aqui).

Conforme levantou Filipe Martins em outro artigo, Trump tomou uma serie de medidas que estão em perfeita sintonia com o livre mercado e a globalização. Entre as medidas estão: “congelou a criação de regulações governamentais; congelou a contratação de funcionários públicos; anunciou o corte de bilhões de dólares no financiamento da ONU; reduziu a dívida americana em 100 bilhões; apresentou um programa de reforma tributária, que realizará uma simplificação e uma diminuição drásticas dos impostos; os termos do NAFTA e de outros acordos comerciais estão sendo renegociados”. Para saber mais leia em Presidente Donald Trump – O primeiro semestre

É evidente que essas medidas, ao serem pró mercado, pro negócios, são automaticamente a favor da globalização. Mas e as declarações de Trump em relação à taxação das importações?

Por enquanto não há nada de concreto, apenas declarações. Uma hipótese é que Trump faça isso para mexer com as expectativas dos cidadãos americanos, para criar um clima de “América forte”, gerando otimismo que pode favorecer a economia. É claro que há riscos e o efeito possa ser contrário. Outra hipótese é que Trump realmente possa tomar uma ou outra medida protecionista. Cabe lembrar que mesmo com um grande fluxo de comércio internacional, o mundo não é tão liberal e racional como os manuais de economia. Não existe esse “fair play” em comércio internacional. Em maior ou menor escala, todos os países adotam medidas protecionistas como tarifas, impostos, subsídios governamentais e desvalorização cambial. Talvez Trump esteja blefando como para que os demais países diminuam suas barreiras protecionistas ou realmente ele tome ações práticas para tentar equilibrar o jogo do protecionismo no comércio internacional. É claro que uma guerra protecionista entre países, com participação americana, não é saudável economicamente e isso poderia trazer riscos para economia mundial; mas, por enquanto, não há nada concreto, muito pelo contrário. A bolsa dos EUA subiu bastante desde a eleição de Trump. (gráfico abaixo). Será então que o mercado é contra a globalização ou o mercado é míope? Ironias à parte, a verdade é que o mercado está otimista com a economia americana e de maneira alguma vê a globalização em check.

Em suma, o verdadeiro inimigo da globalização não é Trump nem o Brexit, mas o Globalismo.

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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