Paralisar ou não paralisar, eis a questão

Paralisação para conter avanço do coronavírus gera dilema econômico que não tem resposta simples

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Crédito: Fotos Públicas

Nunca poderíamos imaginar que a música de Raul Seixas seria tão profética: “O dia em que a terra parou”. E jamais teríamos pensado que um vírus fosse capaz de colocar a economia do planeta Terra de joelhos.

Fronteiras fechadas, megaeventos esportivos e musicais cancelados, programas de televisão parados, escolas com aulas suspensas e por aí vai. O prejuízo que a pandemia do coronavírus já causou para a sociedade é inestimável.

Um campeonato como a NBA, por exemplo, gera renda e milhares de empregos diretos e indiretos para a sociedade. Para um jogo da liga americana de basquete acontecer, além de jogadores e comissões técnicas, são necessários árbitros, médicos, bombeiros, seguranças, funcionários das lanchonetes, faxineiros etc.

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Além disso, o campeonato cria milhares de empregos indiretos. Com a venda de camisetas e acessórios dos times, a NBA gera inúmeros empregos no comércio. Ao proporcionar audiência nas redes de TV, o campeonato também sustenta uma série de profissões (operadores técnicos, jornalistas, etc.) nas emissoras.

Quando assistimos a um jogo, perdemos a dimensão de quantas profissões estão envolvidas para que a partida aconteça. A NBA não é apenas um campeonato de basquete de grandes jogadores: é parte da economia real, que afeta a vida de milhares de pessoas.

O exemplo da NBA se estende a shows, companhias aéreas, restaurantes e todas as demais empresas que compõem a economia de uma nação.

Damos o nome de Produto Interno Bruto à produção de bens e serviços geradas por essas empresas. Esse indicador equivale à renda gerada na sociedade, medida em dinheiro. No Brasil, aproximadamente 34% dessa soma fica para o governo na forma de impostos.

Portanto, com a pandemia do coronavírus, haverá menos produção (menos renda), e, consequentemente, ocorrerá redução de empregos. Além disso, os orçamentos dos governos ficarão mais restritos para tratamentos de outras doenças como câncer, HIV e diabetes.

Por que parar?

Se as consequências da redução do PIB serão tão drásticas, por que paralisar parte da produção de bens e serviços fundamentais para gerar bem estar econômico e social na sociedade?

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Por um lado, a paralisação visa frear o alastramento da doença, evitando mortes, principalmente de idosos, e a sobrecarga do sistema de saúde. Assim, a paralisação teria como objetivo uma razão humanitária, salvar vidas, e outra econômica, diminuir os prejuízos do Estado, dado que o sistema de saúde não tem condições de suportar milhares de pessoas infectadas.

Porém, por outro lado, a paralisação trará impactos econômicos severos, que não devem ser dissociados de questões de saúde e nem humanitárias. Economia é algo real, que afeta o cotidiano das pessoas, e não deve ser entendida como algo à parte da saúde. Uma piora na economia significa menos dinheiro para a saúde da população.

Dessa forma, a paralisação custará empregos e diminuirá o orçamento do governo para tratamento de doenças do dia a diadiabetes, câncer, HIV, dengue, etc. Embora o efeito da redução do orçamento do governo sobre a vida desses pacientes seja de difícil mensuração, é razoável supor que menos dinheiro na área da saúde poderá causar perda de vidas de pacientes que sofrem dessas enfermidades devido à redução de recursos para tratamento.

Eis o trade-off atual (opções conflitantes, nas quais existe uma renúncia para cada escolha):

i. salvar vidas agora e evitar um colapso da área da saúde, arcando com os riscos dos prejuízos – inclusive humanitários – que a paralisação do mundo poderá trazer futuramente?

ou

ii. não paralisar o planeta agora, e minimizar uma crise econômica com consequências inclusive para a saúde, arcando com perdas de vidas atualmente e com o risco do colapso do sistema de saúde?

Não é um dilema de fácil resposta. Talvez, nos tempos atuais, a famosa frase dita por Hamlet, “ser ou não ser, eis a questão”, poderia ser adaptada para “paralisar ou não paralisar, eis a questão?”

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Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós-graduação. 

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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