“Não importa nosso voto: somos todos Bolsonaro”

O deputado federal e candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, é esfaqueado  em Juiz de Fora (MG). Não é apenas um atentado contra Bolsonaro, é muito mais que isso: é um atentado à democracia, à cidadania, à civilidade. Independentemente, das eleições, a cidadania e a democracia no Brasil sofreram um duro golpe. Não importa o nosso voto, neste momento, somos todos pela democracia e pela civilidade. Somos todos Bolsonaro.

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O deputado federal e candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, é esfaqueado  em Juiz de Fora (MG). Não é apenas um atentado a Bolsonaro, é muito mais que isso: é um atentado à democracia, à cidadania, à civilidade. 

O que poderia explicar um atentado destas proporções? Certamente a psicopatia do terrorista. Mas não é só isso. Uma hipótese bem plausível é, talvez, a dissonância cognitiva que vivemos no Brasil. De acordo com Scott Adams (2018), entende-se por “dissonância cognitiva” o choque causado pela crença do indivíduo com uma realidade completamente diferente daquela na qual ele acredita. Por exemplo, você tem a certeza de que é um ótimo negociador e faz um péssimo negócio; seu cérebro imediatamente sofrerá um desconforto psicológico causado pela choque da sua autopercepção com a realidade de fato. Imediatamente, para minimizar o desconforto psicológico, seu cérebro tentará achar uma explicação “lógica” para a sua irracionalidade, num processo de  racionalização. No entanto, nem sempre as consequências da dissonância cognitiva são a racionalização. Infelizmente, atos completamente irracionais acontecem também.

O livro “Ganhar de lavada: Persuasão em um mundo onde os fatos não importam”, de Scott Adams, traz o fenômeno nas eleições de Donald Trump. Havia ali um processo de dissonância cognitiva em massa, talvez o maior da história dos EUA. Milhares de americanos, a mídia e os formadores de opinião em geral viam em Donald Trump um “novo Hitler”, e tinham certeza de que ele perderia as eleições. 

De repente, a crença destas pessoas vieram por água abaixo, quando Trump ganha as eleições americanas. Muitos opositores de Trump  acreditavam então que o impossível se realizava e o “novo Hitler chegava”. O pânico irracional e a histeria tomava conta de parte da sociedade americana. De acordo com Scott Adams, as consequências da dissonância cognitiva são imprevisíveis e podem ser catastróficas. Uma possível consequência do pânico irracional seria uma onda de atentados nos EUA contra Trump. A fim de minimizar este terrível efeito, muitos apoiadores de Trump entenderam o momento histórico e fizeram um discurso pacificador e de conciliação, colocando os EUA em primeiro lugar.

De acordo com o brilhante jornalista Carlos Andreazza, o Brasil poderia estar vivendo um início de um processo de dissonância cognitiva em massa. Na minha visão, os opositores mais radicais de Bolsonaro, alimentados por um discurso irresponsável da banalização do termo “fascismo”, passam por um processo muito forte de dissonância cognitiva, causado pela realidade concreta (Bolsonaro é líder nas pesquisas) contra as suas  crenças psicológicas internas (o medo irracional da chegada de um “novo Mussolini”). Novamente, é este medo, esta irracionalidade, esta outra percepção de realidade que podem alimentar atos irracionais; no limite, levando pessoas a cometerem crimes e barbáries. 

Ainda bem que majoritariamente a reação de todos os políticos, jornalistas e de formadores de opinião foi contra essa barbárie. Independentemente das eleições, a cidadania e a democracia no Brasil sofreram um duro golpe. Não importa o nosso voto, neste momento, somos todos pela democracia e pela civilidade. Somos todos Bolsonaro.

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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