Ivete Sangalo e o analista – não confunda desigualdade com pobreza

O entendimento correto da diferença entre desigualdade e pobreza é fundamental

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Ultimamente, a expressão “combate à desigualdade” tem sido bastante empregada no debate público. Normalmente, a palavra desigualdade é utilizada – e também entendida – como sinônimo de disparidade entre ricos e pobres, em que uma minoria detém a maior parte da riqueza e uma maioria vive muito mal, em péssimas condições de vida. Nesse sentido, estamos falando de desigualdade ou pobreza?

O entendimento correto da diferença entre desigualdade e pobreza é fundamental. A razão pela qual essa distinção é importante é que, sem pobreza, a desigualdade seria um problema? Em outras palavras, num mundo em que a maioria das pessoas fosse classe média, com uma vida decente, e uma minoria fosse milionária, a desigualdade em si seria um mal?

Provavelmente, a resposta para a pergunta acima seria “não”. Um exemplo (adaptado) que emprestei do escritor João Pereira Coutinho ajuda a responder essa questão.

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É inegável que a cantora Ivete Sangalo tem um padrão de vida muito acima de um analista de marketing de uma empresa. No entanto, a sociedade não fica indignada com esta diferença de renda, desde que o funcionário da companhia tenha uma vida digna (alimentação, moradia, plano de saúde), o que geralmente ocorre. Nesse caso, a desigualdade não seria um problema.

Agora, e a diferença de padrão de vida entre o analista de marketing e um mendigo na rua? Essa certamente choca a maior parte da população. Estamos agora falando de desigualdade ou pobreza?

É claro que há uma brutal diferença de padrão de vida entre o mendigo e o analista, mas essa desigualdade só se tornou um problema devido às péssimas condições de vida do morador de rua. Nesse caso, a desigualdade é um mal, porque está condicionada à pobreza.

De outro modo, se a desigualdade fosse um problema em si, por que a diferença de renda entre a Ivete Sangalo e o analista de classe média não gera protestos nas ruas? Pelo contrário, as pessoas pagam para assistirem a um show da cantora.

O ponto é que a palavra desigualdade, fora de contexto, se torna vaga e perigosa porque nos remete a ideia de que não possa haver nenhum tipo de diferença de renda ou patrimônio, alimentando a inveja e o ressentimento, como se um milionário não merecesse estar naquela posição.

Ivete Sangalo ganha muito dinheiro porque as pessoas vêm valor no seu trabalho, caso contrário, seus shows estariam vazios. Ninguém obriga um indivíduo ir a um show da excelente cantora. Além disso, para a realização de um show da Ivete é necessário centenas de pessoas trabalhando e produzindo. Isso significa que o trabalho da cantora movimenta toda uma indústria musical, gerando empregos e renda para outras pessoas.

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O mesmo raciocínio vale para altos executivos e empreendedores em geral. Essas pessoas se tornam milionárias devido à capacidade produtiva, ou seja, o quanto de renda geram para a sociedade.

Diante dos altos lucros dos empreendedores e dos elevados salários de executivos, uma pergunta se torna tentadora: mas será que precisam de tanto para viver? E se tributássemos essas pessoas ao ponto que mantivéssemos suas vidas bem dignas, distribuindo o restante para os pobres por meio de impostos?

A história mostra que regimes que foram nessa direção – invariavelmente socialistas –  produziram mortes e misérias, e o dinheiro dos impostos foi para a elite de burocratas, que podiam gozar de todas as benesses do capitalismo. A lógica para o fracasso é simples: a partir do momento que se exclui o prêmio pelo mérito, tira-se todo o incentivo de uma pessoa para produzir. E sem essas pessoas, quem (e como) vai gerar produtividade e inovação para a sociedade, motores da prosperidade?

É claro que existem injustiças, nas quais algumas pessoas se tornam milionárias não pelo mérito, mas pela corrupção ou benesses estatais. Mas nesse caso, o problema é gerado justamente pelo mau funcionamento da economia de mercado, e não o contrário.

Sem dúvida, ainda há muita pobreza no mundo, mas é inegável que desde a Revolução Industrial, milhares de pessoas vêm saindo da pobreza, conforme gráfico abaixo, elaborado pelo Instituto Mercado Popular:

 

Hoje, por exemplo, muitas faxineiras de grandes centros urbanos têm um padrão de vida melhor que qualquer rei da Idade Média. A faxineira extrai um dente sem dor, fala no celular e tem vaso sanitário na sua casa, enquanto um rei da Idade Média não tinha acesso a nada disso. Ah, mas não vale, você está comparando épocas diferentes? E, por acaso, o progresso se dá de maneira espontânea simplesmente com o passar do tempo? Ou foi justamente o avanço da economia de mercado que possibilitou esse desenvolvimento?

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De acordo com a economista Deirdre N. McCloskey da Universidade de Chicago, o progresso tecnológico, num primeiro momento, só beneficia os ricos; mas, depois, devido à produção em larga escala (que nada mais é que capitalismo, segundo Mises) permite a massificação de bens e serviços para os mais pobres, que, outrora, somente ricos tinham acesso. Foi assim com o automóvel, celulares, turismo, medicamentos, internet, etc.

É óbvio que ainda há muito a ser feito pelo combate à pobreza no mundo – a começar pelo abandono do termo vago “desigualdade” como sinônimo de pobreza.

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Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós-graduação.

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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