Impeachment: dólar a 3,00 e preservação das instituições

O dólar na casa de 3,45 é um bom termômetro das causas de uma doença que ainda pode piorar muito. Hoje, defender o impeachment não é mais colocar em risco a economia em nome da preservação das instituições, é exatamente o contrário: é defender a economia para preservar as instituições.

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Logo após que Dilma foi reeleita o mercado e muitos formadores de opinião entendiam que um impeachment representaria uma instabilidade política muito grande para o país e defendiam a permanência de Dilma no poder em nome da tal “preservação das instituições”. 

A palavra “preservação das instituições” foi tão falada que virou até jargão, dando ares intelectuais a quem repetisse a expressão. Ora, mas afinal o que é “preservação das instituições”? É manter um governo economicamente incompetente, que se elegeu na base do estelionato eleitoral, e que há fortes evidências de crime de responsabilidade (caixa 2 de campanha advindo do Petrolão e pedaladas fiscais) em nome da estabilidade econômica? Se isso for preservação das instituições, perdemos o senso da normalidade há muito tempo ou não sabemos o que são instituições.

Instituições são as regras do jogo, sejam elas formais ou informais. Como disse o filósofo Olavo de Carvalho, instituições não são eternas e imutáveis e podemos mudá-las quando não estão indo bem.  O mercado provavelmente não leu Olavo, mas compreendeu isso. Ao contrário do início do ano, o mercado entende que, agora, a permanência de Dilma prolongaria ainda mais os efeitos da crise diante de um governo que está sem dinheiro, sem diálogo com o Congresso, sem apoio da sociedade civil e desmoralizado perante os investidores nacionais e internacionais. 

De outra forma, o mercado e a sociedade entendem que a saída de Dilma seria uma forma de conter a doença que atingiu o paciente, no caso, o Brasil. Os sintomas dessa doença são mais que conhecidos – inflação, desemprego, queda da renda, dólar alto, etc.. – e começaram a atingir a vida de todos, sem exceção: petistas e não petistas, direitistas e esquerdistas e principalmente a população mais pobre.  Como disse, em entrevista para InfoMoney, realizada pela jornalista Paula Barra, “o país está parado, vivemos um impeachment branco” (veja aqui ) . Disse isso quando os efeitos da crise estavam apenas começando. Imagine agora… 

É claro que quem assumir não vai fazer milagre da noite para o dia e o Brasil não vai se transformar na Holanda. Mas o impeachment teria um efeito positivo para o mercado, seja pela melhora do diálogo com o Congresso, seja na melhora das expectativas. Aliás, expectativas que estão contidas no preço dos ativos.  Arriscaria dizer que, se Dilma cair, o dólar volta para 3,00; se ela permanecer, dólar a 4,00 em jan/16. (muitos são testemunhas que falava em dólar a 3,00 ainda no início de 2014). O dólar na casa de 3,50 é um bom termômetro das causas de uma doença que ainda pode piorar muito.

Projeções à parte, parece que agora vai ficando claro que  o crescimento da renda do brasileiro durante a era Lula não se deu de forma sustentável, pelo contrário, todos os benefícios alcançados estão sendo corroídos por uma crise econômica que mal começou.  Hoje, defender o impeachment não é mais colocar em risco a economia em nome da preservação das instituições, é exatamente o contrário: é defender a economia para preservar as instituições.

Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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