Insanidade imobiliária

A ousadia das construtoras parece não ter fim. Recentemente, uma empresa lançou um empreendimento em São Paulo cujos apartamentos têm área útil de 19 metros quadrados. O mais interessante é o valor: R$ 266 mil. A ideia seria boa e inteligente, sobretudo para reduzir o deficit habitacional, não fosse o preço impraticável e inacessível a boa parte das famílias.

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Até onde vai a “criatividade” do setor imobiliário, inventando e reinventando soluções para se destacar no mercado e abocanhar uma fatia maior do que a concorrência? Entre as “tendências do futuro” que são apresentadas, estão edifícios em concreto aparente com cara de prédios comerciais e sem paredes internas, sustentabilidade ecológica e promessas de salvar o meio ambiente, e, mais recentemente, os micro imóveis.

 Anunciados recentemente por uma incorporadora paulista, os imóveis de 19 m2 são menores do que quarto de hotéis populares, não têm sequer banheiro e, além da cama e um pequeno armário, o sortudo morador poderá ter um microondas. É tudo que cabe no espaço.

 Segundo os criadores do brilhante projeto, a ideia se inspira em imóveis japoneses, destinados aos trabalhadores, que por falta de espaço precisam ser criativos no momento de se ajustar dentro de pequenos imóveis. No Brasil, a ideia dos incorporadores é que os “apertamentos” sejam disputados por executivos e estudantes da região da Vila Olímpia.

 A partir dessas informações preliminares, apesar do aperto, o conceito até poderia ser bom, atenderia operários temporários e estudantes carentes, que precisam de um lugar para dormir enquanto cumprem sua jornada na capital. Boa sacada e visão de mercado, não fosse o preço anunciado de 14 mil o m2. Ou seja, o espaço de uma cela de delegacia vendido por R$ 266 mil. Quem se habilita?

 Na desenfreada corrida imobiliária, a ousadia em alguns casos beira a insanidade e o óbvio deixa de ser observado. É certo que o deficit habitacional é enorme no país e famílias inteiras vivem em barracos minúsculos, como também é verdade que a maioria das pessoas não aguenta mais encarar horas de trânsito para chegar ao trabalho. Tais premissas, vistas de forma dissociadas, podem fazer crer que a ideia não é tão ruim.

 Mas se considerarmos que famílias miseráveis não têm 266 mil para investir em um imóvel e que executivos não morariam em locais onde não poderão sequer guardar suas raquetes de tênis e terão que limitar sua coleção de sapatos a 3 ou 4 pares, estarão impedidos de receber visitas em “casa” e não terão a oportunidade de ter uma adega, por menor que seja, a conclusão é que a reinvenção dos imóveis não servem nem a um nem a outro.

 E os estudantes? Esses podem se interessar em morar sozinhos, perto da faculdade, num quarto particular. Possivelmente não, se analisados outros pontos. O custo continua sendo um grande inimigo, especialmente porque além do preço do imóvel em si, o morador precisará de serviços de lavanderia, até para as peças mais simples, e necessariamente fazer todas as refeições fora de casa, o que torna o custo de vida bastante alto.

 Talvez seja uma boa para investidores, que alugariam os quartos para executivos que queiram passar pouco tempo na cidade. Então, a pergunta é: por que essas pessoas deixariam de ir para um flat, com serviços e boa estrutura, onde os quartos são maiores e mais bem equipados, e ficariam confinados em um espaço minúsculo, cujo valor da locação necessariamente será alto, senão não paga o investimento também alto?

 Seja qual for o ponto de vista e objetivo do interessado, parece que a nova proposta não atende ninguém e não passa de uma arriscada jogada de marketing sem qualquer estudo de viabilidade que torne o negócio atraente para nenhum tipo de público.

 Imóveis compactos, para apenas uma pessoa viver com o mínimo de conforto e até dignidade precisa ter, no mínimo, 30 m2. O morador precisa ter um banheiro, uma pequena pia para lavar ao menos um prato e uma xícara e um espaço para colocar uma poltrona e um frigobar, além da cama, é claro. Espaço para TV e um apoio para um computador também é essencial, afinal tanto executivos, quanto estudantes, tomam banho, fazem lanche e precisam guardar roupas, livros, computadores e objetos pessoais essenciais.

 Agora é esperar para ver como o mercado, que já apostou em tantas maluquices, reage a essa grande inovação imobiliária.

Marcelo Tapai

Marcelo Tapai é advogado especialista em direito imobiliário, vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB/SP, diretor do Brasilcon e sócio do escritório Tapai Advogados.