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Toda empresa conhece o seu índice de rotatividade, seu absenteísmo e a sua nota de clima. Nenhuma sabe quantos por cento do time está endividado no rotativo do cartão. É a informação que ninguém coleta, e ela explica parte do que aparece nos três indicadores que todo mundo acompanha.
Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior patamar já registrado pela Confederação Nacional do Comércio, e o sexto recorde seguido. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, a proporção chega a quase 85%. E não é dívida de casa própria nem de carro. O cartão de crédito aparece na conta de 85,3% das famílias endividadas, contra 9,6% de financiamento da casa e 9% do carro, e o juro do rotativo chegou a 442,4% ao ano em junho. Traduzindo, boa parte dos seus funcionários acorda todo dia devendo, na modalidade mais cara que existe no mercado.
Esse é o ponto que as empresas ainda não conectaram. A dívida não fica em casa esperando o fim do expediente. Ela entra pela porta junto com o funcionário. A pesquisa de saúde financeira do trabalhador brasileiro feita pela SalaryFits, do grupo Serasa Experian, com 1.029 trabalhadores, mostra o percurso completo. Entre os trabalhadores ouvidos, 66% relatam aumento de estresse por causa do endividamento, 51% dizem que esse estresse aparece dentro do trabalho, 47% sentem exaustão física e 33% reconhecem queda na própria produtividade. Um em cada três admite que rende menos por causa de dinheiro.
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É preciso ser honesto sobre o que esse número é e o que ele não é. São dados de percepção, o trabalhador respondendo sobre si mesmo, e não medição objetiva de produção. Servem para mostrar prevalência e direção, não para cravar magnitude. O Brasil não tem um estudo causal sobre isso, e essa ausência já diz muito sobre a prioridade que damos ao tema.
Lá fora existe medida mais dura: pesquisas da PwC com trabalhadores americanos apontam que quem vive sob estresse financeiro tem cinco vezes mais chance de se distrair no trabalho e gasta três horas ou mais por semana do próprio expediente resolvendo problemas de dinheiro. Não é preguiça nem falta de compromisso. É a matemática da atenção. Ninguém desliga a cobrança que vai ligar no meio da tarde.
Há um lugar onde essa conta já aparece em dado oficial brasileiro. Em 2025, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, 16% acima do ano anterior. Transtornos ansiosos e episódios depressivos lideram a lista. Ninguém consegue dizer quanto disso é dívida, e seria desonesto tentar. Mas quem trabalha com gente sabe que aperto financeiro crônico e ansiedade caminham juntos, e esses afastamentos são a fatura mais visível de um problema que começa bem antes da perícia médica.
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O ambiente regulatório também mudou. Os fatores de risco psicossociais já eram obrigatórios no programa de gerenciamento de riscos de toda empresa com empregado celetista, mas até maio a fiscalização era só orientativa. Desde maio deste ano ela passou a ser punitiva, com multa. E aqui cabe uma correção que tenho visto muita gente errar em apresentação de fornecedor: a norma trata de riscos ligados ao trabalho, como carga excessiva, jornada e assédio. Dívida pessoal não é risco ocupacional e a norma não obriga ninguém a montar programa de educação financeira, mas o que ela faz é obrigar a empresa a olhar para a saúde mental do time com método. E quando você olha com método, o dinheiro aparece.
Agora amplie a lente, porque é aqui que o assunto deixa de ser tema de recursos humanos e vira tema de economia. A produtividade do trabalho no Brasil praticamente não cresce há décadas, e discutimos isso quase sempre pelo lado da infraestrutura, da tributação e da tecnologia. Falta somar a esse diagnóstico algo mais banal. Uma força de trabalho endividada em nível recorde é uma força de trabalho com parte da atenção permanentemente alocada em outro lugar. É um imposto invisível sobre o foco, cobrado todo mês. Ele não aparece em nenhuma estatística oficial e ninguém consegue medir com precisão. Mas ele é cobrado de 82% das famílias, todos os dias, dentro do horário comercial.
Assumido o problema, vem a parte em que a maioria erra a dose. Educação financeira funciona, mas não é mágica. A maior revisão já feita sobre o assunto, publicada em 2022 no Journal of Financial Economics, juntou 76 experimentos aleatorizados com mais de 160 mil pessoas e concluiu que treinamento financeiro tem efeito positivo e relevante sobre conhecimento e comportamento, comparável ao de intervenções educacionais em outras áreas. Efeito real, portanto, mas não do tamanho de um juro de 442% ao ano. Ou seja, palestra anual no mês da educação financeira não resolve nada.
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O que muda o jogo é combinar três coisas. A primeira é educação contínua e oferecida no momento em que a decisão de gastar ou tomar crédito acontece, e não em novembro. A segunda é trocar dívida cara por dívida barata, colocando dentro da empresa uma alternativa ao rotativo, o que é uma barra baixíssima de superar. A terceira é diagnóstico recorrente, para o RH saber quantos por cento do time está no vermelho, do mesmo jeito que sabe o índice de rotatividade.
A boa notícia é que ninguém precisa convencer o trabalhador. Na mesma pesquisa, 83% dizem acreditar que o empregador pode ajudar na gestão das suas finanças. A demanda existe e está represada. A oferta é que não apareceu, e mais da metade das empresas avaliadas sequer promove iniciativas de saúde mental.
No fim, a conta é simples. Empresas gastam milhões procurando alguns pontos de produtividade em tecnologia nova e ignoram os pontos que já estão perdendo dentro da própria folha, por um motivo que não tem nada de sofisticado. Cuidar da saúde financeira de quem trabalha deixou de ser benefício bonito de página de carreira. Virou gestão de custo, e das mais baratas que existem.