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Em agosto, o Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial, declarando um passivo de R$ 17,3 bilhões. O detalhe que deveria incomodar qualquer investidor não está no tamanho do número, e sim no que veio antes dele. No trimestre anterior ao pedido, a empresa reportava alavancagem de apenas 0,5 vez na relação entre dívida líquida e Ebitda. Pelo indicador que quase todo mundo olha primeiro, a companhia parecia saudável. E, ainda assim, foi parar na Justiça.
Se nem a alavancagem “sob controle” avisou, a pergunta que abre esta coluna é simples: o que você, como investidor, deveria estar olhando de verdade?
Um recorde que mudou de significado
O Brasil fechou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial da série histórica da Serasa Experian: 2.466 CNPJs envolvidos em processos de reestruturação, alta de 13% sobre 2024. Foram 977 novos processos abertos no ano, o maior volume desde 2016. Não é um fenômeno restrito a um setor específico nem a empresas pequenas e desconhecidas: agro e serviços concentraram cerca de 60% dos pedidos, e nomes como Americanas, Oi, Odebrecht, Light, 123 Milhas e Tok&Stok já passaram por esse caminho nos últimos anos.
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Mas o dado que realmente deveria mudar a forma como o investidor enxerga o tema é outro: no segundo trimestre de 2025, a proporção de empresas que acabaram falindo mesmo depois de entrar em recuperação judicial atingiu 30%, contra algo entre 10% e 20% em períodos anteriores. Em outras palavras, a recuperação judicial está sendo mais acionada e, ao mesmo tempo, funcionando menos.
Para quem investe, isso desfaz um mito perigoso. Recuperação judicial não significa que “a empresa vai se reorganizar e eu recupero meu dinheiro”. Cada vez mais, é o começo do fim e, quando sobra alguma coisa, o credor sem garantia — o chamado quirografário — é o último da fila. Na Casas Bahia, 94,8% da dívida está justamente nas mãos de credores sem garantia.
Os sinais de alerta que você pode acompanhar
A boa notícia é que a maioria dos problemas graves é perceptível antes do pedido de recuperação judicial. Montei um roteiro prático para ajudar qualquer investidor a identificar esses sinais. Nenhum indicador funciona sozinho, e esse é justamente o aprendizado central.
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- Alavancagem (dívida líquida/Ebitda)
É o indicador mais direto: mede quantos anos de geração operacional de caixa a empresa levaria para quitar a dívida líquida. Como regra geral, níveis muito acima de 3 a 3,5 vezes já pedem atenção, variando conforme o setor. O problema, como a Casas Bahia mostrou, é confiar apenas nele.
- O passivo que não aparece na dívida líquida
Aqui está a lição mais valiosa do caso. A dívida líquida ajustada da Casas Bahia era de pouco mais de R$ 1 bilhão, o que produzia aquela alavancagem confortável de 0,5 vez. Só que o passivo real, o que apareceu na recuperação judicial, era de R$ 17,3 bilhões.
A diferença estava espalhada em risco sacado, FIDCs, fornecedores e contingências, linhas que não entram na conta tradicional de dívida financeira. A mensagem é clara: olhe o passivo total e a estrutura de capital, não apenas a dívida financeira líquida que a empresa gosta de destacar no release.
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- Cobertura de juros
Compare o resultado operacional com a despesa financeira. Quando os juros que a empresa paga passam a consumir a maior parte — ou mais — do que a operação gera, a conta simplesmente não fecha, e o problema tende a se agravar em ciclos de juros altos como o atual.
- Patrimônio líquido negativo
A Casas Bahia encerrou o trimestre do pedido com patrimônio líquido negativo em R$ 8,1 bilhões. Patrimônio líquido negativo significa que os passivos superam os ativos: a empresa “vale menos que zero” no papel. É uma das bandeiras vermelhas mais claras e costuma ser subestimada por investidores focados apenas no resultado do trimestre.
- Prejuízo recorrente x prejuízo pontual
Nem todo prejuízo é igual. Uma perda causada por um evento não recorrente pode ser tolerada. Já o prejuízo crônico, trimestre após trimestre, corrói o balanço e leva justamente ao patrimônio líquido negativo. Separe o que é ruído do que é tendência.
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- Geração de caixa
Lucro no papel não paga dívida; caixa paga. Empresas que apresentam resultado contábil razoável, mas não convertem isso em caixa, vivem no fio da navalha. O caixa é o oxigênio: é com ele que a empresa opera, reduz a alavancagem e remunera o investidor.
- O que o mercado de crédito já está dizendo
Um sinal frequentemente ignorado pelo acionista é o preço das debêntures. No caso da Casas Bahia, os papéis de dívida já precificavam a deterioração muito antes do pedido formal. O mercado de crédito costuma “cantar a bola” antes de o problema virar manchete. Vale acompanhar.
A diferença que quase ninguém explica
Existe um limite honesto para tudo isso, e ignorá-lo seria vender uma falsa sensação de segurança. Compare os dois casos mais emblemáticos.
A Casas Bahia foi uma crise de modelo de negócio: não houve rombo escondido, e os sinais estavam no balanço para quem quisesse ler. Já a Americanas foi uma crise de informação: inconsistências contábeis que somaram mais de R$ 40 bilhões e que ninguém de fora conseguia enxergar nas demonstrações divulgadas.
A conclusão prática é desconfortável, mas necessária: alguns riscos são detectáveis com análise de balanço; outros, não. Contra fraude contábil, não há indicador que proteja o investidor individual. É por isso que a resposta nunca é apostar todas as fichas em uma única empresa, por mais sólida que ela pareça. Diversificação não é uma opção; é a única defesa real contra o risco que você — e nenhum investidor experiente — consegue ver.
O que vem por aí
A pressão não deve ceder tão cedo. A inadimplência empresarial segue elevada, com 8,7 milhões de CNPJs negativados no início de 2026, e historicamente a inadimplência antecede novos pedidos de recuperação judicial. A Selic iniciou um ciclo de corte, mas os juros devem permanecer em patamar restritivo por um bom tempo, com projeções em torno de 12,5% a 13% ao fim do ciclo. Crédito caro e seletivo continua sendo o pano de fundo.
O que fazer com isso, na prática:
- Trate a recuperação judicial como risco real de perda, não como uma pausa temporária. Em crédito privado, o quirografário está no fim da fila.
- Olhe o passivo total e a estrutura de capital, não só a dívida líquida que a empresa destaca.
- Cruze vários indicadores: alavancagem, cobertura de juros, patrimônio líquido, geração de caixa e o comportamento das debêntures.
- Lembre que prêmio maior em crédito privado existe porque o risco é maior. Rendimento acima da média pede leitura redobrada do balanço.
- Diversifique. Contra a crise de modelo, o balanço protege. Contra a crise de informação, só a diversificação protege.
Recuperação judicial deixou de ser exceção para virar instrumento comum de gestão de passivo, inclusive entre gigantes conhecidas. Isso não é motivo para pânico, e sim para uma leitura mais atenta. O investidor que aprende a olhar além do rótulo e do número mais óbvio não elimina o risco, mas para de ser o último a saber.
As opiniões aqui expressas não constituem recomendação de investimento. Dados: Serasa Experian, balanços das companhias e petições de recuperação judicial (2025-2026).