A semana mais perigosa do ano para o investidor

O investidor que tenta adivinhar o resultado costuma errar duas vezes: no palpite e no momento de sair da posição

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Faltam poucos dias para o segundo turno, e o mercado já mudou de opinião duas vezes em menos de duas semanas. Para quem investe, esta é a semana mais perigosa do ano. O risco não está na eleição em si, e sim na tentação de transformar a carteira em aposta.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O mercado comemorou como se a disputa estivesse decidida. Dias depois, as pesquisas mostraram uma diferença menor, e boa parte da euforia foi devolvida. Quem montou posição com base na manchete da segunda-feira pagou caro na sexta.

Tenho mais de 18 anos de mercado e vi esse filme em todas as eleições. O investidor que tenta adivinhar o resultado costuma errar duas vezes: no palpite e no momento de sair da posição.

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O dólar mudou de ideia em dez dias

Na véspera do primeiro turno, o dólar fechou a R$ 5,22. Na terça seguinte, estava em R$ 4,975, abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio. Na semana passada, com as pesquisas mais apertadas, a moeda subiu 1,75% e terminou a sexta-feira em R$ 5,07.

Quem vendeu todo o dólar na euforia para aproveitar o real forte já devolveu parte do ganho. E quem esperava o dólar a R$ 6 por causa da eleição viu o contrário acontecer. No ano, a moeda ainda cai 7,58%, sinal de que o câmbio responde a muito mais fatores do que um domingo de votação.

A inflação também entrou na conversa

A eleição não é o único assunto da semana. O IPCA de setembro subiu 0,82%, e a inflação em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta de 4,5%. O número veio acima das projeções e reacendeu uma dúvida: o Banco Central ainda tem espaço para cortar juros?

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A Selic está em 13,75% depois de cinco cortes seguidos. Com os núcleos de inflação e os serviços acelerando, parte do mercado já fala em pausa no ciclo. A próxima leitura chega na sexta-feira (23), com o IPCA-15 de outubro, no mesmo dia do último debate presidencial.

Lá fora, o cenário também ficou mais apertado. A inflação americana subiu para 3,7% em 12 meses, e o Fed, que se reúne nos dias 27 e 28, pode voltar a subir os juros. Juros mais altos nos Estados Unidos costumam atrair dólares para lá, o que pressiona o câmbio aqui e pode gerar inflação importada.

Para completar, o petróleo Brent passou de US$ 109 com a escalada das tensões no Oriente Médio.

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Resumo: eleição, inflação, Fed e petróleo, todos ao mesmo tempo. Quem tenta acertar o resultado de cada um desses eventos tem quatro chances de errar.

A carteira que não precisa adivinhar

Em vez de tentar acertar o cenário, monte uma carteira em que cada classe de ativo cumpra um papel diferente. Quando uma sofre, outra compensa.

Repare que o quadro abaixo não cita candidatos: o mercado reage ao prêmio de risco que enxerga no país, não à cor da camisa.

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Em cada coluna existe pelo menos uma classe que ganha. É por isso que o dólar sobe quando a bolsa cai, e o pós-fixado sustenta a carteira enquanto o resto oscila.

A carteira diversificada nunca é a campeã de um cenário específico, mas é a única que atravessa todos eles sem quebrar. A proporção entre as classes depende do seu perfil, dos seus objetivos e do seu prazo. O que não muda é o princípio: ela deve ser decidida antes da notícia, e não por causa dela.

Três atitudes para esta semana

1. Rebalanceie, não aposte.
Se a alta de quase 28% da bolsa no ano levou sua parcela em ações acima do que você definiu, realize parte do ganho e volte ao alvo. Se o dólar perto de R$ 5,00 deixou sua parcela internacional abaixo do plano, complete aos poucos. Você não precisa saber quem ganha para fazer isso.

2. Compre proteção antes de precisar dela.
Dólar e ativos no exterior funcionam como seguro, e seguro se compra com tempo bom. Aportes mensais e regulares tiram de você o peso de acertar a cotação do dia.

3. Não mexa na reserva de emergência.
Ela existe para os seus imprevistos, não para os do mercado. Pós-fixados com liquidez diária, como o Tesouro Selic ou o Tesouro Reserva, continuam sendo o lugar dela, com qualquer presidente.

Um teste simples: se a sua carteira só dá certo com um resultado específico no domingo, ela não é uma carteira. É um palpite, e dos mais arriscados.

Para fechar

No dia 26 de outubro, metade dos investidores vai se sentir um gênio e a outra metade vai se sentir enganada. Quem tem uma carteira diversificada vai abrir o extrato, ver uma parte subindo e outra caindo, e seguir a vida.

Na prática, é isso que um bom planejamento financeiro oferece: tranquilidade para atravessar qualquer cenário, sem depender de acertar o resultado de domingo.

Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Dados de mercado até o fechamento de 16/10/2026.


Daniel Carraretto é consultor de Investimentos CFP® e sócio do Multi Family Office Zanella Wealth, com mais de R$ 2 bilhões sob gestão. Tem mais de 18 anos de experiência e gerencia o patrimônio financeiro de famílias de alta renda. Foi reconhecido pela Anbima com uma das principais vozes sobre investimentos no Brasil, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram (@danielcarraretto)