Violinos e carbono: vamos seguir tocando até o naufrágio?

Na questão do carbono, a grita de cientistas e empresários do setor não tem sido suficiente para chamar a atenção dos investidores que, em festa, seguem ignorando os riscos

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Crédito de Carbono
(David McNew/Getty Images)

A cena mais icônica do clássico filme Titanic mostra uma orquestra tocando no convés a música Nearer My God To Thee (Mais perto de ti, Meu Deus, em tradução livre) enquanto o navio naufragava.

Pesquisas mostraram que a orquestra não era formada por tripulantes do navio. Os músicos tinham sido contratados por uma agência em Liverpool. Portanto, a hipótese de que o capitão tenha ordenado que a banda tocasse para que os passageiros não percebessem a magnitude do desastre não se sustentou.

Contudo, ainda se usa o exemplo da orquestra do Titanic tocando violinos durante a tragédia como uma analogia de quem finge não enxergar riscos extremamente evidentes.

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O curioso é que, quando nos transportamos à situação do Titanic, nos parece até bizarro que os passageiros não se atentassem ao perigo iminente só porque uma música tocava. Mas, quando estamos diante de uma situação equivalente, nos comportamos exatamente da mesma forma.

Tais situações nem são tão infrequentes assim. O índice S&P 500 atingiu seu ponto máximo histórico no dia 19 de fevereiro, data em que a China já registrava 74,5 mil casos e mais de 2 mil mortes por Covid-19 e, na Itália, os casos já começavam a aparecer.

Olhando em retrospectiva, muitos investidores se penitenciam de não terem agido mais cedo. Mas a autocrítica tem usualmente pouca serventia, uma vez que, na próxima ocasião, a tendência natural é convencer-se de que “desta vez é diferente” e manter o mesmo comportamento.

Na questão da mudança climática, não faltam alertas, mas sobram violinos.

Antes que você desista do texto, crendo que se trata de uma apologia a abraçar a árvore ou uma repetição de algo que você já tenha lido, dou já o spoiler: tratarei, de forma pragmática, dos riscos e oportunidades para seus investimentos.

Talvez muitos não tenham se atentado ao fato, mas já são 57 os países no mundo em que o carbono é precificado.

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Alguns deles em forma de taxas (como na Suíça, Suécia, França, Espanha, Japão) e outros em forma de plataformas voluntárias em que corporações podem transacionar CO² e compensar suas emissões (são os casos da Austrália, Itália, Alemanha, estado da Califórnia e China ainda neste ano, entre outros).

Empresas gigantescas no mundo já assumiram compromissos nesta direção, tais como Amazon, Microsoft e McDonald´s.

Mas, ao contrário do que possamos imaginar, não são só as empresas de serviços e bens de consumo, mas muitas organizações de setores controversos também abraçaram a iniciativa, como as gigantes de petróleo BP, Repsol e Total.

Importante também frisar que a descarbonização não é um movimento exclusivo das empresas estrangeiras: Ambev, Ipiranga, Natura e até a Vale já assumiram este compromisso.

A questão é que o compromisso custa. E os investidores precisam entender rapidamente duas coisas.

Ainda que em muitos países – incluindo o Brasil – este compromisso seja voluntário, é muito improvável que as grandes corporações deixem de fazê-lo. Sem ilusão de que seja pela consciência ambiental, mas as pressões regulatórias e dos consumidores é crescente.

Mais forte ainda será a pressão das empresas que já estão neste caminho e clamam por aumento de regulação para que a competitividade se mantenha justa.

Além disso, o impacto financeiro para algumas companhias também pode ser muito relevante.

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Para as que emitem muito gás de efeito estufa (como petrolíferas, siderúrgicas, mineradoras e frigoríficos) o custo do carbono deveria ser incorporado nas planilhas de valuation, que refletiriam numa queda substancial do seu valor.

Analogamente, para as companhias sequestradoras de carbono (empresas que possuem grandes projetos de reflorestamento) trata-se de um ativo importante, que será convertido em caixa, e, por isso, incrementará a avaliação da companhia.

Apenas como referência, vale fazer um exercício rápido e bastante simplificado deste efeito.

Tomemos como exemplo a Petrobras, que apenas assumiu o compromisso público de não elevar suas emissões, mas não de reduzi-las ou de neutralizá-las.

Somando o escopo 1 (emissões próprias) e escopo 2 (energia), a Petrobras despeja cerca de 61 milhões de toneladas de CO² por ano na atmosfera.

Supondo, por hipótese, que a companhia quisesse neutralizar suas emissões a partir de hoje: ao custo de US$ 25/tonelada, teria uma despesa anual de US$ 1,5 bilhão que, trazendo a valor presente, significaria um impacto de cerca de US$ 17 bilhões em sua avaliação, ou quase um terço de seu valor de mercado de US$ 54 bi.

É claro que esta é apenas uma hipótese e que a Petrobras não decidirá ser “net zero” do dia para a noite. Mas em algum momento terá que fazê-lo.

Estima-se que, antes de 2030, o carbono já valerá US$ 50. Neste cenário, o impacto da neutralização já seria de dois terços do valor da companhia.

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Caso o carbono atinja o preço estimado de equilíbrio (US$ 75), em teoria o tamanho do impacto seria a totalidade do valor de mercado da Petrobras, que, ainda por hipótese, passaria a valer zero.

A análise, na verdade, é bem mais complexa do que o relatado acima. Mas este exercício serve como ponto de partida para entendermos a magnitude do impacto que muitos investidores negligenciam.

Como colocado anteriormente, grandes petroleiras do mundo já assumiram o compromisso de neutralização. Será que elas aceitarão pagar as despesas sozinhas ou exercerão pressão cada vez maior para que tal política seja exigida das demais? Não dá para ignorar esta hipótese.

Vamos aumentar então um pouco o nível de complexidade.

Uns podem argumentar que, se a indústria toda adotar esta prática, o custo da neutralização das emissões de carbono seria repassado ao preço do petróleo, e, portanto, as petroleiras não pagariam a conta. É possível.

Assim como é possível que ao fazê-lo, incentive ainda mais a migração para energias renováveis, como a solar (que está ganhando espaço rapidamente) e o hidrogênio (cuja viabilidade parece ser cada vez mais concreta).

Neste caso, o impacto sobre as petroleiras seria ainda mais severo, pois ainda sofreriam potencial impacto da redução do volume de vendas.

E podemos ainda subir mais um grau na escala da complicação.

Além dos escopos 1 e 2 citados anteriormente, há ainda o escopo 3, que se refere às emissões indiretas pelo uso de seus produtos.

Enquanto a Petrobras emite 61 milhões de toneladas nos escopos 1 e 2 somados, no escopo 3 as emissões atingem 432 milhões de toneladas – um valor sete vezes maior.

Embora muitas empresas (ainda) não estejam se comprometendo com reduções do escopo 3, há várias iniciativas ganhando corpo, como o “Science Base Target”. De acordo com ela, uma empresa precisa ter metas para o escopo 3 quando representarem mais de 40% das emissões totais.

No caso da Petrobras, este índice é de 87% – mais cedo ou mais tarde, esta conta também pode chegar. E, nesta hipótese, o impacto seria devastador.

Além do próprio planeta e das empresas que sejam sequestradoras de carbono, há um outro possível beneficiado com tudo isso: o Brasil.

Nosso país tem capacidade de ser o maior fornecedor de crédito de carbono do planeta, dada a vastidão das florestas tropicais – uma vantagem natural que ninguém (além de nós mesmos) pode nos tirar.

O presidente da Suzano, Walter Schalka, acredita que o Brasil poderia gerar US$ 10 bilhões por ano de divisas exportando tais créditos; mas a gestora britânica Schroders discorda e crê que no preço atual do carbono o Brasil atrairia US$ 60 bilhões por ano, garantindo 3% de crescimento anual do PIB, podendo chegar de 6% a 8% do PIB de crescimento.

As diferentes hipóteses e os diferentes cenários de cômputo do impacto, tanto na Petrobras como para o Brasil, demonstram a complexidade do tema. Porém, também demonstram que a direção é clara.

Wallace Hartley, o violinista do Titanic, foi um herói. Há uma grande estátua em sua homenagem, na cidade britânica de Colne, por ter sacrificado sua vida ao seguir tocando música até nove minutos antes do naufrágio total do Titanic para acalmar os passageiros.

Na questão do carbono, a grita dos cientistas, ambientalistas, empresários do setor e investidores ESG não tem sido suficiente para chamar a atenção dos investidores que, em festa, seguem ignorando os riscos com seus respectivos violinos, mas, desta vez, com acordes nada heroicos.

Fabio Alperowitch

Co-fundador e portfolio manager da FAMA Investimentos, gestora independente que se dedica à gestão de uma carteira de empresas listadas na Bolsa brasileira. É formado em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), com cursos de extensão na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Harvard Kennedy School. Iniciou sua carreira na Procter & Gamble e fundou a Fama em 1993.