Por que os combustíveis fósseis não vão financiar a transição energética

A ideia de que “o caixa do petróleo vai pagar a transição” soa lógica, mas se torna frágil quando analisada a forma que as petroleiras realmente alocam capital

Fernanda Delgado

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Por décadas, analistas, formuladores de políticas e investidores repetem um argumento, aparentemente, simples: os enormes fluxos de caixa gerados pelo petróleo e gás poderiam ser o motor que financiaria a transição energética global. Mas, a realidade estratégica das grandes petroleiras demonstra que esse raciocínio não se sustenta frente aos dados de investimento real. A ideia de que “o caixa do petróleo vai pagar a transição” soa lógica, mas se torna frágil quando analisada a forma que as petroleiras realmente alocam capital.

As receitas do fluxo de caixa de uma empresa de petróleo são destinadas principalmente ao financiamento dos investimentos em ativos e operações, incluindo a manutenção e expansão da produção, o pagamento de arrendamentos de ativos operacionais, a distribuição de dividendos aos acionistas, a amortização líquida de dívidas e a cobertura das despesas financeiras, como juros e encargos, e, finalmente, novos projetos.

Em outras palavras, o padrão dominante dessas companhias é dar prioridade ao core business: Exploração e Produção (E&P), Refino, Transporte e Infraestrutura Logística associada de terminais, dutos, entre outros. Assegurado o negócio fóssil, somente então, de forma tática e limitada, investimentos são destinados a novos projetos classificados de renováveis ou de baixo carbono. Assim, os combustíveis fósseis não vão “financiar” a transição; vão, no máximo, financiar a continuidade do próprio modelo fóssil e a remuneração do acionista.

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Além desse padrão na alocação do capital pelas empresas de O&G, os investimentos são condicionados pelo ciclo de preços do barril de petróleo, que levam os agentes a reagir, em geral, de modo pró-cíclico. Em síntese, ciclos de alta do preço do barril ampliam o fluxo de caixa livre, o que dá às empresas de O&G mais espaço para assumir risco, diversificar portfólio e investir em negócios alternativos. Já períodos de baixa pressionam margens e balanços, levando à disciplina de capital, com foco em eficiência operacional, redução de CAPEX e do nível de endividamento, além do foco em projetos de retorno mais rápido e previsível, normalmente no core business.

Considerando a volatilidade dos preços somente nos últimos cinco anos, há uma incerteza quantos aos compromissos do setor de O&G que impactam, no curto prazo, decisão final de investimento e, por consequência, a confiança na continuidade do financiamento e no comprometimento em longo prazo.

A narrativa de que o “dinheiro do petróleo” pagaria a transição para energia limpa foi útil politicamente. No entanto, para quem observa o setor global com lupa, o que se vê de fato é um contínuo reinvestimento dos lucros no próprio modelo fóssil — e apenas uma fração marginal direcionada a energias renováveis e tecnologias de baixo carbono.

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Os desafios de compatibilidade do setor de O&G com negócios de baixa emissão de carbono são ilustrados no artigo The Energy Transition and Oil Companies’ Hard Choices, publicado pelo Instituto Oxford para Estudos de Energia. O artigo destaca que o sucesso das empresas de O&G em investir em renováveis não é garantido, especialmente quando soluções descentralizadas e de pequena escala se mostram mais competitivas, e a capacidade de aproveitar oportunidades em negócios alternativos ao core business petrolífero pode variar entre as empresas: algumas veem a diversificação como arriscada, com potencial de reduzir a rentabilidade e gerar reação negativa dos acionistas, enquanto outras não dispõem das competências técnicas e gerenciais necessárias para atuar em mercados com estruturas regulatórias e modelos de negócio muito diferentes.

Em continuidade, embora escala e integração favoreçam certas tecnologias compatíveis com a experiência e o modelo das petroleiras, essas vantagens tendem a não se aplicar a áreas completamente novas, que exigem habilidades e estruturas corporativas distintas.

Outro artigo que se debruça sobre o tema, “The rise of renewables and energy transition: what adaptation strategy for oil companies and oil-exporting countries?”, indica que as empresas de petróleo enfrentam um dilema estratégico. Ao adiar sua adaptação diante das incertezas, correm o risco de abrir espaço para concorrentes; por outro lado, investir cedo demais ou apostar em tecnologias que não se consolidem pode restringir opções futuras e aumentar o risco de desvalorização e baixa contábil de ativos.

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A lógica, portanto, é relativamente simples: a prioridade estratégica das petroleiras é o petróleo. Grandes companhias de petróleo continuam a alocar a maior parte de seus recursos em E&P, que continuam sendo sua principal fonte de lucro e justificativa de mercado. E&P e projetos integrados (óleo, gás e LNG) continuam sendo o “core” com métricas consolidadas, cadeia madura e retorno mais claro. Já renováveis/novos negócios costumam ter: margens menores, competição pesada, risco regulatório, retorno mais longo, e, em vários casos, histórico de rentabilidade abaixo do esperado (o que levou a recuos estratégicos recentes, sobretudo na Europa).

A BP, por exemplo, anunciou que pretende investir cerca de US$ 10 bilhões por ano em óleo e gás até 2027, enquanto reduz seus gastos em energias renováveis e outros negócios de transição para apenas US$ 1,5–2 bilhões anuais — mais de 5 vezes abaixo do dedicado ao business fóssil. A Shell gastou mais de sete vezes em óleo e gás do que em energias renováveis e “energy solutions” em 2024 (≳£14 bilhões vs. ≳£2 bilhões).

A ExxonMobil, por sua vez, planeja investir cerca de US$ 20 bilhões até 2030 em projetos de baixas emissões, mas com um escopo mais restrito do que se esperava, pois 60% desse valor será destinado a reduzir emissões de clientes terceiros (por exemplo, por meio de CCS ou soluções industriais), e não a transformar diretamente o próprio modelo de negócios. Isso contrasta com expectativas anteriores de uma trajetória de investimento mais ampla e ambiciosa na divisão de Low Carbon Solutions, que inclui SAF, diesel renovável, captura e armazenamento de carbono (CCS) e hidrogênio — sinalizando uma postura mais cautelosa e focada em retornos e mitigação de risco.

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Esses números mostram claramente a estratégia predominante: a expansão e a manutenção do modelo fóssil são vistas como mais lucrativas e prioritárias do que uma transição acelerada para renováveis. Isso reduz o espaço para uma reorientação agressiva do portfólio para renováveis. Adicionalmente, as iniciativas corporativas de “energia limpa” geralmente se refletem em divisões de baixo carbono que não representam uma reviravolta estratégica, pois os investimentos miram CCS atrelada à redução de emissões operacionais do próprio upstream, biocombustíveis/SAF e, porventura, hidrogênio azul (não verde).

Ainda que iniciativas como essas possam ser úteis, elas não representam uma real reorientação do core business, nem o redirecionamento substancial de capital de E&P para renováveis em escala global. A transição energética para as petroleiras torna-se, então, um instrumento para posicionamento de marca, sustentado por narrativas subjetivas e descoladas de métricas/categorias objetivas acerca das reais tecnologias que impulsionarão a transição.

E a razão disso é simples e econômica, ainda que extremamente curto-prazistas: retornos mais altos e previsíveis em petróleo e gás — em comparação com os riscos e retorno mais longo de projetos renováveis — continuam a favorecer investimentos fósseis nas grandes petrolíferas.  Há ainda a pressão de acionistas por dividendos e recompra de ações, o que faz com que o caixa gerado seja distribuído de volta aos investidores, em vez de ser revertido integralmente em transição energética. Isso significa que, nos curto e médio prazos, as petroleiras continuarão priorizando seus negócios tradicionais, mesmo quando anunciam metas climáticas ambiciosas.

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No Brasil, essa dinâmica global tem implicações diretas. Por um lado, o setor petrolífero local — com iniciativas do mercado interno e capitais provenientes de gigantes internacionais — possui mecanismos de incentivo à inovação como a cláusula de PD&I da ANP, que obrigou empresas de E&P a investir cerca de R$ 4,2 bilhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em 2024.  Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo de projetos com foco em transição energética e sustentabilidade (de 15 para 97 projetos entre 2020 e 2024, com valor contratual saltando de R$ 264,9 milhões para R$ 1,88 bilhão).

Ainda que esse montante obrigatório represente uma parcela dos recursos vinculados ao setor fóssil, o foco permanece em CCS, biocombustíveis e redução de emissões do upstream, não uma transformação estrutural do investimento global do petróleo em direção às renováveis.

A relevância da cláusula de PD&I da ANP não impede um debate mais amplo sobre governança das receitas auferidas do setor O&G, que compreende participações governamentais e dividendos ao Estado brasileiro, acionista majoritário da Petrobras. Uma nova governança deve ser gestada à luz das demandas atuais de transição energética, que gere riqueza com sustentabilidade para as atuais e próximas gerações.

O dado mais importante a extrair dessa análise é que a transição energética, como uma eficiente forma de redução das emissões de gases de efeito estufa, jamais será financiada em escala suficiente pelos próprios combustíveis fósseis. A máxima “consumir mais petróleo, para parar de consumir petróleo” fica, dessa forma, comprovada.

O caixa petrolífero, por fim, seguirá alimentando a exploração e produção de hidrocarbonetos; a manutenção e expansão de refinarias e infraestrutura fóssil; a remuneração de acionistas; e, iniciativas “de baixo carbono” complementares, não substitutivas, que visam prolongar a permanência dos fósseis na economia global.

Para que a transição aconteça de forma acelerada e justa, são necessárias fontes de financiamento que não estejam amarradas ao risco de conflito de interesses entre manter o status quo fóssil e investir em tecnologias limpas. Isso inclui:

Não se trata de uma visão reducionista dos combustíveis fósseis na economia nacional ou mundial. De forma alguma. Isso é assunto para uma outra análise. Trata-se de analisar que se o mundo espera que o fluxo de caixa dos combustíveis fósseis pague pela transição energética, a realidade mostra que isso é uma expectativa infundada e economicamente inviável. As grandes petrolíferas não estão redesenhando seu modelo de negócios — elas estão reajustando prioridades dentro dele.

O Brasil, com sua matriz energética relativamente limpa comparada à de outros países e com enorme potencial em hidrogênio verde e renováveis, tem a oportunidade de definir seu próprio caminho de financiamento e desenvolvimento tecnológico — sem depender da “boa vontade” do setor fóssil.
Essa é uma mudança de mentalidade fundamental para que a transição energética brasileira seja financiada por inovação, políticas públicas eficazes e investimentos verdadeiramente orientados para a sustentabilidade — e não por uma ilusão de que o próprio petróleo irá pagar sua substituição.

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Fernanda Delgado

Fernanda Delgado é diretora executiva da ABIHV (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), liderando a missão de desenvolver a cadeia produtiva do H2V no país, com foco tanto na oferta quanto na demanda. Professora de pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e na Escola de Comando e Estado Maior do Exército, tem mais de 20 anos de experiência em empresas de destaque no Brasil e no exterior e também atua como Conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Sustentável da Presidência da República. Doutora em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, é autora de quatro livros e dezenas de artigos sobre o setor energético e geopolítica, além de coordenar programas de equidade feminina na área. Sua vasta experiência em gestão estratégica, fusões e aquisições e inteligência competitiva a capacitam a promover o hidrogênio verde como vetor de desenvolvimento e competitividade para a indústria nacional.