Nos últimos tempos, voltou ao debate a ideia de acabar com os relatórios trimestrais obrigatórios das companhias abertas. A pressão vem de alguns governos, bolsas e grandes investidores institucionais, que sugerem substituir a obrigação trimestral por reportes semestrais, sob o argumento de que reduziria custos e aliviaria a “pressão de curto prazo” sobre executivos.
Não é a frequência de reporte que gera pressão de curto prazo — são as motivações e os incentivos desequilibrados que fazem isso. Reduzir a transparência e a frequência de informações vai justamente na direção contrária da construção de um mercado eficiente:
- Aumento da assimetria informacional (informação desigual entre as partes);
- Redução dos direitos dos acionistas externos;
- Maior espaço para decisões corporativas sem escrutínio;
- Decisões de investimento menos qualificadas, em razão do acesso reduzido às informações corporativas.
Além disso, é importante destacar que investidores qualificados de longo prazo não se incomodam com oscilações de lucro no curto prazo. Eles sabem que o valor de uma empresa resulta de decisões consistentes de médio e longo prazo.
Uma empresa de tecnologia que decide expandir seu time de engenheiros hoje pode reportar um lucro menor nos trimestres seguintes — mas não será penalizada por isso se houver clareza e transparência na comunicação com o mercado.
O mesmo vale para uma farmacêutica que investe em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). O investidor de longo prazo aceita abrir mão de resultados imediatos se compreender que o futuro está sendo fortalecido. E essa clareza cabe à empresa e à área de Relações com Investidores oferecer.
Balanços trimestrais: Governança e criação de valor
Outro ponto que não pode ser negligenciado são os custos invisíveis para as empresas que abandonarem as publicações trimestrais.
Diversos estudos mostram a relação entre boas práticas de governança e criação de valor; neste caso, estamos falando de governança financeira, que será reduzida. Isso inevitavelmente impactará de forma negativa o valor das empresas.
Menos transparência significa custo de capital mais alto, pois aumenta o risco informacional, a assimetria e a dificuldade de compreender planos, trajetória de resultados e riscos. Esse efeito se refletirá diretamente nas emissões de dívida e de equity.
Basta lembrar: empresas de capital fechado não acessam determinados mercados de debêntures ou de ações, ficando restritas ao capital de sócios correntes e de bancos. Quanto maior a taxa de juros e o custo do capital próprio, menor será o valor da empresa.
Da mesma forma, menos transparência significa menos investidores dispostos a investir, desequilibrando a oferta e a demanda e encarecendo o dinheiro para essas companhias.
“Ou seja, o movimento, ainda que pareça atrativo no curto prazo pelo menor gasto com auditoria, preparação de demonstrações e rigor das práticas, gera efeitos colaterais e custos indiretos muito maiores no médio e longo prazo.”
O custo de manter relatórios trimestrais e a suposta pressão não podem se sobrepor ao benefício de permitir que investidores acompanhem de perto as empresas nas quais colocaram seu capital em risco.
É a disciplina imposta pelo mercado de capitais que melhora a governança, orienta as decisões e, ao final, fortalece a dinâmica de geração de valor.
Transparência não é fardo: é parte do contrato de confiança com o mercado.