Polarização virou risco de negócio e a resposta passa pela comunicação

Num ambiente em que a confiança se fragmentou, as empresas já não controlam o significado de suas decisões. A reputação, construída pelo que a empresa faz e não pelo que anuncia, é assunto de gestão e de conselho

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Há um diagnóstico confortável sobre a polarização: o de que as pessoas ficaram intolerantes. Ele é confortável porque joga o problema no caráter alheio e nos poupa de olhar para o que o produz.

Proponho outra leitura. A polarização não é excesso de conflito; é falta de mediação. E, para as empresas, isso deixou de ser uma questão abstrata: virou risco.

O que se quebrou

Durante décadas, ciência, imprensa profissional e Justiça funcionaram como filtros. Não eram perfeitos, mas produziam um terreno comum de fatos sobre o qual era possível discordar.

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A antropóloga Letícia Cesarino mostra como esse sistema perdeu força na era das plataformas, cujo modelo de negócios premia o engajamento, e não a verificação. Em seu lugar, ganharam espaço o “ver para crer” da experiência pessoal, as explicações conspiratórias e uma lógica de amigo e inimigo, na qual não importa o que se diz, mas de que lado está quem diz.

É nesse ambiente que a divergência de opinião vira divisão de identidade. Quem discorda não está errado. Está do outro lado.

Um jeito brasileiro de brigar

Roberto DaMatta ajuda a entender a versão brasileira do fenômeno. Ele distinguiu a casa, espaço da família e das relações pessoais, da rua, espaço da lei, do mercado e da impessoalidade.

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Paulo Nassar, presidente da Aberje, observa que essa chave também explica as redes digitais, onde a intimidade invade o espaço público em circulação contínua.

O debate público passou a ser vivido com a temperatura de uma briga de família, e o adversário deixou de ser concorrente para virar invasor.

Por isso, um patrocínio, uma campanha ou a fala de um executivo são recebidos não como decisões empresariais, mas como traição pessoal.

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A empresa não controla mais o significado

Para as organizações, a neutralidade confortável acabou. Se a empresa se posiciona, aliena parte do público. Se silencia, é acusada de omissão. Um boicote coordenado pode destruir, em horas, o que levou décadas para ser construído.

Um estudo recente da Aberje sobre polarização resume o novo cenário: a empresa decide, mas não controla o significado que os públicos darão à decisão. E esses públicos já não cabem em listas fixas. A mesma pessoa é consumidora de manhã, funcionária à tarde e ativista à noite.

O estudo trata a polarização como uma infraestrutura cognitiva: um filtro que condiciona como qualquer decisão será interpretada. Como toda infraestrutura, ela não é percebida enquanto funciona. Mas está lá, em cada anúncio, nota oficial ou postagem de executivo.

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As empresas perceberam isso. Outra pesquisa da Aberje, com 145 organizações, mostra que 96% das áreas de comunicação já participam das decisões de posicionamento institucional e 91% participam da gestão de crises. A comunicação deixou de ser divulgação e passou a integrar a governança.

O custo além da reputação

Na educação, professores evitam temas sensíveis por medo de patrulhamento, e alunos perdem o treino de discordar sem romper.

Nas famílias e nos escritórios, laços de décadas se desfazem por causa da política. Algoritmos que mostram apenas o que confirma nossas crenças fazem o outro lado parecer mais radical do que realmente é.

Na democracia, quando imprensa, ciência e Justiça passam a ser vistas como militância, perde-se o terreno comum sobre o qual se negocia. Abre-se espaço para quem promete resolver o impasse eliminando o adversário.

O filósofo Byung-Chul Han oferece uma pista: perdemos os rituais que criavam pertencimento. Nunca nos comunicamos tanto, e raramente tivemos tão pouca comunidade. Han lembra também que transparência total não gera confiança. Gera controle.

O que as empresas podem fazer

Se o problema é falta de mediação, a resposta é reconstruí-la. Quatro caminhos:

Assumir a mediação. Prometer “conversa direta e autêntica” sem admitir que toda comunicação edita e enquadra é o mesmo truque dos populismos digitais. Dizer quem fala, com que critério e para quê é o primeiro passo para a credibilidade.

Levar o tema ao conselho. A reputação é um ativo intangível estratégico, construído pelo comportamento real da empresa, por sua governança, sua cultura e suas entregas de longo prazo a todos os públicos. Os riscos da polarização precisam ter dono, métrica e lugar no mapa de riscos. A comunicação deve estar na mesa quando a decisão é tomada, e não ser chamada depois para explicá-la.

Investir em educação midiática. Ensinar equipes a perguntar quem produziu um conteúdo, quem ganha com ele e o que ficou de fora é, hoje, uma prática de gestão de risco.

Recuperar rituais. Encontros, memória institucional e celebrações que não sejam campanhas criam vínculos que nenhum algoritmo produz. Como diz Nassar, é o vínculo humano que sustenta uma organização durante uma crise.

Mediar custa caro

Polarizar é barato; mediar é caro. Essa assimetria explica boa parte do que vivemos. A comunicação não é o verniz aplicado depois da decisão; é a infraestrutura que torna possível decidir em conjunto.

Quando a desordem informacional é um subproduto do modelo de negócios das plataformas, reconstruir uma mediação confiável deixa de ser uma função de apoio. Vira condição de sobrevivência para as empresas e, no limite, para a própria democracia.


Nelson Silveira é mestre em Antropologia Social pela Unicamp, sócio-fundador da PRhub Comunicação 360, professor da Aberje/FGV e conselheiro certificado pelo IBGC. Liderou a comunicação da General Motors na América do Sul e na Europa por 22 anos e foi eleito Comunicador do Ano Aberje em 2016 e 2018