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Por Gê Coelho*
Durante décadas, a indústria de seguros concentrou seus esforços nos mesmos mercados, perfis de consumidores e até estratégias de distribuição. Esse modelo foi importante para consolidar o setor, mas hoje revela um limite evidente: boa parte da população brasileira continua distante dos mecanismos de proteção financeira.
Ao mesmo tempo, uma transformação silenciosa acontece nas periferias do país, convertendo territórios antes vistos apenas como objetos de políticas públicas em polos estratégicos da economia nacional.
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Segundo o Instituto Data Favela, as periferias brasileiras movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano em renda própria, o que é um volume superior ao consumo de 22 estados brasileiros. Dados do IBGE divulgados em 2024 reforçam essa dimensão ao registrar 12.348 favelas e comunidades urbanas em todo o país, distribuídas por 656 municípios, onde vivem quase 16,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 8,1% da população nacional.
Esses números revelam uma realidade que o mercado ainda demora a reconhecer: a favela não representa uma fronteira de assistência, mas uma fronteira de negócios e desenvolvimento econômico.
Durante muito tempo, o olhar direcionado a esses territórios foi construído a partir de suas carências. É evidente que desafios relacionados à infraestrutura, à segurança e ao acesso a serviços permanecem e precisam ser enfrentados. Entretanto, a favela também produz riqueza, movimenta a economia, gera renda e desenvolve seus próprios mecanismos de organização econômica.
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É justamente essa dinâmica que fundamenta o conceito de “favelismo”, que venho desenvolvendo como uma teoria política, econômica e social que propõe compreender a favela como protagonista na produção de conhecimento, inovação e desenvolvimento.
Sob essa perspectiva, a inclusão financeira deixa de ser apenas uma pauta social e passa a representar também uma oportunidade estratégica de expansão econômica.
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No mercado segurador, essa discussão ganha ainda mais notoriedade. Historicamente, o acesso aos seguros esteve concentrado nas camadas de maior renda, enquanto milhões de brasileiros permaneceram à margem desse mercado, muitas vezes por desconhecimento, dificuldade de acesso ou ausência de produtos e canais compatíveis com sua realidade.
O desafio, portanto, não é apenas levar seguros para as periferias. É construir soluções com as periferias.
Essa diferença parece sutil, mas redefine completamente a lógica de atuação. Quando moradores dos próprios territórios são capacitados para atuar como profissionais certificados do mercado de seguros, cria-se uma relação baseada em confiança, proximidade e conhecimento da realidade local. A distribuição deixa de ser uma operação exclusivamente comercial e passa a fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento econômico do território.
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O próprio comportamento econômico das periferias reforça essa oportunidade. Levantamentos do Data Favela mostram que cerca de 40% dos moradores das favelas do Rio de Janeiro possuem um negócio próprio e, para quase um quarto deles, essa atividade representa a principal fonte de renda. Trata-se de um ambiente em que o empreendedorismo não é exceção, mas parte estrutural da vida econômica cotidiana.
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Isso significa que o mercado segurador pode encontrar nesses territórios não apenas novos consumidores, mas também novos parceiros comerciais, novos distribuidores e novos empreendedores capazes de ampliar o alcance da proteção financeira no país.
O Brasil discute, com razão, formas de ampliar a inclusão financeira. Mas talvez seja hora de ampliar também a forma como enxergamos os próprios mercados. As periferias não são apenas destinatárias de soluções criadas fora delas. São ambientes onde inovação, empreendedorismo e desenvolvimento já estão em movimento diariamente.
Reconhecer a favela como um ambiente estratégico de negócios não é uma concessão nem uma ação de responsabilidade social. É, cada vez mais, uma decisão inteligente para organizações que desejam compreender onde estão as próximas oportunidades de crescimento da economia brasileira.
*Gê Coelho é líder de Relações Institucionais da Favela Seguros