O preço da excelência: como a mente sustenta o corpo no esporte e nos negócios

Empreender, liderar equipes, tomar decisões estratégicas, inovar e abrir caminhos exige da mente a mesma clareza que uma final de campeonato

Filipe Toledo

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Foto: Divulgação/Andrew Shield
Foto: Divulgação/Andrew Shield

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A competição sempre fez parte da minha vida. Desde cedo, tudo ao meu redor gira em torno de performance, metas e resultados. Essa mentalidade moldou minha carreira, meus desafios e minhas conquistas. Mas, após tantos anos competindo no limite físico e emocional, entendi uma verdade que demorou para amadurecer: não existe alta performance sem saúde mental.

Essa percepção ficou ainda mais evidente quando, em 2024, optei por tirar um ano sabático do circuito mundial. Para muitos, parecia apenas uma pausa. Para mim, foi um investimento de vida na minha família, nos meus projetos e no futuro enquanto atleta. Depois do bicampeonato mundial e de um ciclo olímpico exaustivo, eu estava fisicamente preparado para continuar, mas emocionalmente drenado. Antes de seguir em frente, eu precisava respirar, assim como faço antes de entrar no mar, mas dessa vez para encarar outro tipo de swell – ondas formadas em tempestades distantes que viajam por longas distâncias até chegar na costa.

Essa decisão não nasceu de fragilidade, mas de maturidade. O esporte de alto rendimento cobra muito mais do que o corpo consegue mostrar. Existe a pressão pública, a expectativa coletiva, a cobrança interna e um ritmo de viagens que desmonta qualquer estrutura pessoal. Quando entrei no circuito aos 16 anos, era movido pela adrenalina e pelos sonhos. Aos 30, com meus filhos em casa, percebi que precisava reencontrar o prazer de estar ali. E essa realidade não é só minha. Atletas do mundo inteiro vêm entendendo que, sem equilíbrio emocional, não há carreira longa, consistente ou saudável. A mente é o combustível da performance. Sem ela, nenhum talento se sustenta.

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Curiosamente, quanto mais me afastei das competições, mais percebi que a lógica é exatamente a mesma no mundo dos negócios. Nos últimos anos, me envolvi em projetos que expandem minha atuação para muito além das ondas: a Let’s Poke, a Pasokin, a prancha Ecoboard FT77, minha parceria com a Beyond The Club, a escola e loja de surfe, o projeto “Kids on Fire” e o Instituto Filipe Toledo, que usa o esporte como ferramenta de transformação social. Empreender, liderar equipes, tomar decisões estratégicas, inovar e abrir caminhos exige da mente a mesma clareza que uma final de campeonato. E clareza só existe em meio a um cenário de equilíbrio. Não há empresa saudável com líderes adoecidos. Não há criatividade no caos. Não há inovação sem pausa.

Com o tempo, compreendi que saúde mental era um pilar fundamental para continuar buscando meus objetivos. Foco, presença, energia e equilíbrio emocional viraram recursos escassos em um mundo acelerado, hiperconectado e cheio de cobranças. No esporte ou nos negócios, quem ignora isso compromete o próprio futuro. Quem prioriza, cresce a longo prazo.

Meu ano sabático não foi sobre parar. Significou evoluir. Treinei, fiquei ainda mais próximo da minha família, desenvolvi projetos alinhados aos meus valores e me reconectei comigo mesmo. Quando voltei ao circuito em 2025, meu ritmo estava mais leve, consciente e equilibrado. O mais importante foi recuperar o prazer de competir, de estar no tour e de viver o esporte de forma saudável, sem o peso que carreguei por tantos anos.

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Se existe uma mensagem que aprendi e que quero dividir, tanto com atletas quanto com empreendedores, é que cuidar da mente não atrasa ninguém. Pelo contrário: acelera. Não enfraquece. Fortalece. Não tira você do jogo. Te coloca à frente dele.

Vencer é importante. Mas vencer sem se perder no caminho é a verdadeira forma de sucesso.

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Filipe Toledo

Bicampeão mundial de surfe e empreendedor