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Quando comecei no skate, existia um padrão invisível. Ninguém precisava dizer nada, mas ele estava lá: no comportamento, na atitude e, principalmente, na aparência. Eu não tinha referências de representatividade feminina como as meninas têm hoje.
Então, fiz o que muita gente faz quando entra em um ambiente onde não se vê: me adaptei. Andava com os meninos e tentava me encaixar como dava. Por muito tempo, achei que esse era o único caminho.
Mas, quando fui crescendo, comecei a perceber que aquela adaptação tinha um custo. Não era uma questão da roupa que eu usava ou com quem eu andava. Eu me deparei com um questionamento sobre algo ainda mais profundo: minha própria identidade. Estava ali, performando, evoluindo e competindo, mas não era eu por inteira.
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Foi quando decidi que não precisava seguir um roteiro para pertencer. Eu podia ser feminina, me expressar do meu jeito e, ainda assim, performar no mais alto nível do esporte. Parece simples hoje, mas na época não era.
No momento em que me dei conta desse livre arbítrio, e de que esses os julgamentos diziam mais sobre os outros do que sobre mim, passei a criar uma forma própria de expressão dentro do skate.
A primeira vez que eu competi com roupas desenhadas dentro de um padrão feito para mulheres, mais alinhadas com o meu estilo, gerou um incômodo imediato. Lembro claramente da etapa de Austin, no X Games. Os olhares eram diferentes; não era apenas curiosidade, era julgamento.
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Era a primeira vez que uma mulher aparecia vestida daquela forma feminina. E vieram as críticas, mas tampouco me importava. Pintava o cabelo de rosa, me vestia da forma como me sentia bem e tudo isso foi se tornando, aos poucos, uma identidade autêntica.
Diziam que não era apropriado, que eu estava “fugindo do padrão” do skate. No Brasil, a reação não foi muito diferente: muita gente questionando, opinando e tentando me enquadrar. Para mim, aquilo nunca foi sobre “chamar atenção”.
Eu não precisava mais me esconder; a forma como eu me vestia ou as fotos que eu tirava não interferiam no meu desempenho técnico. Pelo contrário, esse movimento me trazia uma leveza e uma sensação de liberdade que me motivaram ainda mais a arriscar nos campeonatos.
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Além de competir com outras atletas, precisei lidar com a pressão de corresponder a uma expectativa que não fazia sentido para o que eu sempre acreditei. Aos poucos, entendi que o processo para vencer também inclui incomodar padrões e sustentar escolhas, mesmo quando não são bem recebidas.
No fim, o que estava em jogo não eram apenas as medalhas, mas a liberdade de ser quem eu sou dentro do universo esportivo que escolhi habitar, pertencer e contribuir.
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Hoje, quando vejo novas gerações chegando com muito mais autenticidade e liberdade para se expressar, sinto que cada crítica que ignorei lá atrás abriu caminho para que a autenticidade não fosse mais um tabu, mas uma força.
No fim das contas, uma das minhas maiores manobras foi aprender a sustentar a minha originalidade diante de quem dizia que eu não pertencia àquela cena.