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Por Nilton Molina*
Escrevo estas linhas do alto dos meus noventa anos. É uma idade que me concede um privilégio raro: o de ter atravessado, de corpo presente, boa parte da história recente do Brasil. Vi o país rural se tornar urbano, assisti à inflação corroer o salário de gerações inteiras, participei da construção da legislação previdenciária e acompanhei, década após década, a promessa adiada de nos tornarmos uma nação próspera.
Há muitos anos repito uma frase que resume, a meu ver, o maior desafio brasileiro: o Brasil está envelhecendo antes de enriquecer. Não se trata de uma previsão pessimista, mas da descrição de um fato. O chamado bônus demográfico, período em que há mais pessoas em idade de trabalhar do que dependentes, praticamente se encerrou. Perdemos essa oportunidade sem alcançar o desenvolvimento que muitos países conquistaram antes de envelhecer.
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Quando observamos o Brasil de hoje, percebemos um país de contrastes profundos. Há cidades que oferecem condições para que seus moradores cheguem à velhice com saúde, autonomia e segurança. Outras ainda enfrentam enormes dificuldades para garantir o básico. Entre esses extremos existe um abismo que não se atravessa com discursos, mas com planejamento, continuidade administrativa e políticas públicas consistentes.
Essas diferenças revelam algo que deveria nos inquietar. O lugar onde uma pessoa nasce ainda influencia suas chances de envelhecer bem. As desigualdades regionais persistem e continuam sendo um dos maiores obstáculos ao futuro.
Ao mesmo tempo, há razões para acreditar que esse cenário pode mudar. Existem municípios pequenos, distantes dos grandes centros e com recursos limitados, que conseguiram construir redes eficientes de atenção à saúde, ampliar a proteção social e oferecer melhores condições de vida à população idosa. Esses exemplos mostram que geografia não é destino. Planejamento, gestão e compromisso público podem alterar trajetórias.
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Outra lição importante é que riqueza, por si só, não garante qualidade de vida na velhice. O desenvolvimento econômico precisa caminhar ao lado de instituições sólidas, saúde acessível, educação, vínculos formais de trabalho e proteção previdenciária. A segurança na velhice é construída ao longo de toda a vida, por pessoas e governos.
Entre todos os desafios, a saúde talvez seja o mais visível. À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de fortalecer a atenção primária, ampliar o acesso aos serviços especializados e preparar o sistema para o aumento das doenças crônicas. Não basta investir em hospitais: é preciso acompanhar as pessoas durante toda a vida, prevenindo doenças e preservando autonomia.
Ainda assim, não sou pessimista. Aos noventa anos, continuo acreditando na capacidade que o Brasil tem de aprender com seus desafios. Vejo duas oportunidades claras: investir mais e melhor na educação de uma juventude numericamente menor e criar condições para que brasileiros mais velhos, saudáveis e experientes permaneçam ativos, contribuindo para a sociedade.
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Envelhecer não deve ser encarado como um problema, mas como uma conquista civilizatória. O verdadeiro desafio é garantir que esses anos a mais sejam vividos com dignidade, autonomia e participação social. Isso exige planejamento, cooperação e decisões que ultrapassem calendários eleitorais.
Costumo lembrar a fábula do beija-flor que transporta pequenas gotas d’água para combater o incêndio na floresta. Ele sabe que não apagará o fogo sozinho, mas também sabe que fazer a sua parte é indispensável. Sempre enxerguei o envelhecimento do Brasil dessa forma. Cada instituição e cada cidadão pode contribuir para construir um país mais preparado para viver mais. O Brasil já envelheceu. Cabe a nós decidir se será capaz de envelhecer com inteligência, justiça e dignidade.
*Nilton Molina é um dos maiores expoentes do seguro de pessoas e previdência no país, atua no setor previdenciário há 59 anos e ocupa, atualmente, a cadeira de presidente do Instituto de Longevidade MAG.