O Bitcoin pode realmente se tornar o “ouro digital”?

O Bitcoin precisa se firmar como um meio de troca relevante para melhorar as suas credenciais como reserva de valor

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(Shutterstock)

A moeda é algo tão corriqueiro nas nossas vidas que, raramente, paramos para pensar sobre ela. Os que se debruçaram a entender sua natureza apontaram três funções principais: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor.

A função de meio de troca baseia-se na ampla aceitação da moeda, que elimina o problema conhecido como dupla coincidência de interesses. Numa sociedade de escambo, por exemplo, para que duas pessoas negociem, é preciso que uma delas tenha interesse por algum bem ou serviço que o outro está ofertando e vice-versa, o que pode ser bastante restritivo.

A função de unidade de conta é relacionada ao uso da moeda como referência de preços e de valores contábeis.

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Por fim, a função de reserva de valor está associada à capacidade de transferir o poder de compra ao longo do tempo, ou seja, a moeda acumulada no presente pode ser usada na compra de bens e serviços no futuro.

Moedas podem perder essas funcionalidades, notadamente em períodos de alta inflação. Evidentemente, a corrosão do valor da moeda ao longo do tempo a torna uma má reserva, mas os efeitos negativos da inflação podem ir além.

Quem viveu no Brasil dos anos 1980 deve lembrar de como os imóveis aqui eram precificados em dólares, um claro exemplo de perda da função de unidade de conta. Em casos ainda mais extremados de hiperinflação, até mesmo a função de meio de troca pode ser comprometida.

Vide, por exemplo, o gigantesco volume de notas necessário para a compra de itens simples como um rolo de papel higiênico na Venezuela há poucos anos. Especificamente, na função de reserva de valor, existem diversas alternativas à moeda, dentre as quais, ativos financeiros, imóveis, obras de arte e metais e pedras preciosas.

Há algumas propriedades técnicas desejáveis para moedas. Durabilidade é uma das mais óbvias, já que aquilo que perece ou expira tende a perder muito valor. Da mesma forma, a escassez é uma condição necessária, mas não suficiente, para a manutenção do valor no tempo, já que artigos com oferta abundante podem ter seu valor minorado.

A divisibilidade permite que a moeda seja dividida frações compatíveis com transações cotidianas. A fungibilidade, que significa que cada unidade individual de uma moeda seja essencialmente igual às outras unidades, facilita a atribuição de valor. Por exemplo, o fato de os diamantes serem diferentes entre si dificulta seu uso como moeda.

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A transferibilidade é importante para viabilizar o uso como meio de pagamento. O ouro possui boa parte dessas propriedades e, não por outra razão, ele foi a principal moeda do mundo por séculos, até poucas décadas atrás. Hoje em dia, apesar de ser pouco usado como meio de troca ou unidade de conta, o ouro mantém sua importância como reserva de valor.

É fácil encontrar na Internet reportagens e artigos apresentando comparações entre o ouro e o Bitcoin em termos das propriedades acima. Neles, fica claro que a moeda digital é páreo duríssimo para a tradicional commodity, sendo melhor em alguns casos. Uma pergunta natural diante dessa constatação é: o que falta para o Bitcoin rivalizar com o ouro como reserva de valor?

O Bitcoin é uma tecnologia altamente disruptiva, capaz de revolucionar a forma como se pensa em moeda. Esse grande potencial é refletido no valor atualmente atribuído a ele, que está mais relacionado ao o que o Bitcoin pode vir a ser no futuro. É, principalmente, esse caráter especulativo do seu valor que torna seu preço altamente volátil.

A alta volatilidade, por sua vez, torna a criptomoeda pouco atraente como reserva de valor quando comparada, por exemplo, ao ouro. O fato de não ser uma reserva de valor, mas uma potencial reserva de valor, o torna especulativo, realimentando esse ciclo. Seria possível acabar com essa recursividade perversa? A resposta é sim, e há, pelo menos, dois caminhos para isso.

Originalmente, o Bitcoin foi concebido para ser um meio de pagamento direto entre duas partes sem envolvimento de terceiros. Para tal finalidade, a volatilidade é muito menos problemática do que o é para reservas de valor.

Uma volatilidade anualizada de 80% é equivalente a apenas 0,85% de volatilidade na janela de uma hora e 0,35% na janela de dez minutos. Ou seja, para os intervalos de tempo necessários a uma transação, a volatilidade do Bitcoin é tolerável.

Portanto, uma maneira de quebrar o ciclo vicioso é o Bitcoin consolidar-se como alternativa de meio de pagamento, o que tornaria o seu valor corrente mais relevante proporcionalmente ao futuro, reduzindo a volatilidade e, posteriormente, viabilizando o Bitcoin como reserva de valor. Nesse sentido, é curioso pensar que a Lightning Network, alternativa criada para aumentar a escalabilidade das transações com Bitcoin, pode ser, em última análise, o que vai possibilitar que ele se torne uma reserva de valor.

Uma outra possibilidade passa por uma instância na qual o Bitcoin já é, em grande medida, meio de troca e unidade de conta. Dentro da chamada criptoeconomia, o Bitcoin exerce um papel muito semelhante ao do dólar no comércio internacional. A maioria dos criptoativos tem mais volume negociado contra o Bitcoin do que contra qualquer outra moeda (fiduciária ou cripto).

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Caso as demais blockchains floresçam e ganhem usuários em larga escala, tornando a criptoeconomia mais relevante dentro da economia como um todo, é esperado que a sua moeda principal, o Bitcoin, torne-se mais estável. Ou seja, nesse cenário, o sucesso de outras blockchains alçaria o Bitcoin à condição de reserva de valor.

Curiosamente, em ambas as circunstâncias, o Bitcoin precisaria se firmar como um meio de troca relevante para melhorar as suas credenciais como reserva de valor. É possível que haja outros caminhos que levem o Bitcoin a rivalizar com o ouro nesse certame onde, certamente, os séculos de vantagem do metal contam. É como bem disse Mark Twain: “frequentemente, quanto menos há para justificar um costume tradicional, mais difícil é se livrar dele”.

João Marco Braga da Cunha

Bacharel e Mestre em Economia, pela PUC-Rio e pela EPGE-FGV, e Mestre e Doutor em Engenharia Elétrica, também pela PUC-Rio. Há mais de uma década no mercado financeiro, já trabalhou nas áreas de quant trading, private equity, risco de mercado, pesquisa macroeconômica e gestão de portfólios, posição que atualmente ocupa na Hashdex.