Moeda de 2.500 anos bate recorde e é vendida por R$ 2,8 mi em leilão

Cunhada durante o reinado de Creso (c. 561–546 a.C.), a moeda impressiona não pelo tamanho, mas pelo seu excepcional estado de preservação

Mariana Campos Bruno Pellizzari

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Uma das primeiras moedas produzidas na história da humanidade, um stater de ouro da Lídia, foi vendida no último dia 12 de janeiro por US$ 536,8 mil (cerca de R$ 2,8 milhões), em leilão promovido por uma das maiores casas de leilões do mundo, a Heritage Auctions, em Nova York. O resultado estabeleceu um recorde mundial para esse tipo de peça, reforçando o interesse global por raridades numismáticas de alto significado histórico.

(Divulgação/ Heritage Auctions)

Cunhada durante o reinado de Creso (c. 561–546 a.C.), a moeda impressiona não pelo tamanho — são apenas 10,77 gramas e 16 milímetros de diâmetro —, mas pelo seu excepcional estado de preservação. O exemplar foi graduado pela NGC com a nota Gem MS★ 5/5 – 5/5, a classificação máxima possível para moedas clássicas, indicando excelência tanto na qualidade da cunhagem quanto na conservação da superfície, algo extraordinariamente raro em uma peça com mais de 2.500 anos.

(Divulgação/ Heritage Auctions)

A tradição numismática atribui a Creso, o lendário rei cujo nome se tornou sinônimo de riqueza, a criação de um sistema monetário bimetálico, com moedas padronizadas de ouro e prata. “Esse avanço representou um dos primeiros passos concretos em direção ao dinheiro moderno, transformando o stater lídio em um marco não apenas numismático, mas também econômico e civilizacional. Trata-se de um objeto diretamente ligado ao surgimento do comércio organizado e da economia monetária na Antiguidade”, afirmou Cristiano Bierrenbach, sócio da Heritage Auctions.

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Na iconografia do stater lídio, o leão e o touro compõem um dos conjuntos simbólicos mais antigos da história monetária. O leão, tradicional símbolo de poder, soberania e autoridade real, estava diretamente associado ao Estado e à figura do governante do Reino da Lídia. Já o touro representava força, fertilidade e abundância, atributos intimamente ligados à prosperidade econômica e à riqueza material.

A presença dessas duas figuras — em confronto ou em composição — ia muito além de um elemento estético: tratava-se de uma poderosa mensagem política e econômica, afirmando a capacidade do reino de controlar, garantir e legitimar o valor da nova moeda, reforçando a confiança no sistema monetário nascente. Ao unir poder político e prosperidade material em um único símbolo, o stater lídio ajudava a construir confiança no sistema monetário nascente, um princípio que permanece central para qualquer forma de dinheiro até os dias atuais.

O catálogo oficial da Heritage descreve o exemplar como um verdadeiro “elo perdido” entre os primeiros protótipos monetários atribuídos a Creso e os staters mais convencionais das séries posteriores. A peça conecta, de forma material, a evolução inicial do dinheiro físico aos sistemas monetários estruturados que moldariam o mundo ocidental.

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Contexto no mercado numismático atual

O leilão da Heritage em janeiro de 2026 ocorre em um momento de forte aquecimento do mercado. O ano de 2025 foi marcado por volumes recordes em leilões internacionais, consolidando a numismática como um segmento relevante dentro do universo de ativos alternativos.

Somente em 2025, a Heritage Auctions superou US$ 470 milhões (R$ 2,5 bilhões) em vendas de moedas e cédulas raras, com diversas peças históricas ultrapassando as estimativas iniciais. Outra casa bastante conhecida do setor, a Stack’s Bowers Galleries, também registrou resultados expressivos, arrecadando mais de US$ 325 milhões (R$ 1,7 bilhão) em leilões de moedas, papel-moeda, medalhas e tokens.

Entre os destaques da Stack’s estão a descoberta e venda de um 1804 silver dollar — uma das moedas mais raras da numismática norte-americana — por cerca de US$ 6 milhões (R$ 32,2 milhões), além de um exemplar 1794 Flowing Hair silver dollar, em estado Choice Mint State, negociado por US$ 4,5 milhões (R$ 24,2 milhões).

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(Divulgação. Stacks and Bowers)

Esses números ajudam a explicar por que recordes como o do stater de Creso deixam de ser exceção e passam a refletir uma tendência estrutural: a valorização crescente de moedas raras como ativos históricos e globalmente demandados.

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Mariana Campos

Diretora de Comunicação da Sociedade Numismática Brasileira (SNB)

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Bruno Pellizzari

Presidente da Sociedade Numismática Brasileira (SNB)