México: uma eleição diferente

Em primeiro lugar, os mexicanos vão eleger uma mulher como presidente. Além disso, a eleição parece ser um plebiscito de fato sobre o governo AMLO

Marco Oviedo

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A candidata presidencial do partido governista MORENA, Claudia Sheinbaum (à esquerda) e Xochitl Galvez, a candidata presidencial da 'Fuerza y ​​Corazon por Mexico', uma aliança de partidos de oposição (REUTERS/Quetzalli Nicte-Ha)
A candidata presidencial do partido governista MORENA, Claudia Sheinbaum (à esquerda) e Xochitl Galvez, a candidata presidencial da 'Fuerza y ​​Corazon por Mexico', uma aliança de partidos de oposição (REUTERS/Quetzalli Nicte-Ha)

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Em 2 de junho haverá eleições presidenciais no México, quando não será apenas eleito o presidente, mas também se renovará o Congresso. E esta eleição não será como a de outros ciclos porque, nessa ocasião, há condições diferentes em relação aos outros processos.

Em primeiro lugar, os mexicanos vão eleger uma mulher como presidente. Além disso, a eleição parece ser um plebiscito de fato sobre governo de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) e sua Quarta Transformação, que tem mantido uma divisão dentro do país. O ambiente polarizado persistiu, se não ficou ainda mais forte.

O governo de AMLO realizou mudanças que alguns segmentos da população não estiveram em total acordo. Ele desmantelou o sistema de saúde, deixou de apoiar o campo e descuidou da política de segurança, com a violência aumentando e o crime organizado avançando em várias áreas do país. E colocou o Exército em trabalhos que não lhe correspondiam.

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AMLO concentrou seus esforços na política de transferências sociais, como pensões e benefícios, e projetos de infraestrutura como o Trem Maya e a refinaria de Dos Bocas, que não estão totalmente funcionais.

Mesmo que sua popularidade seja relativamente elevada, em torno 60%, no México isso não é algo anormal, uma vez que tanto os presidentes Fox [Vicente Fox, presidente de 2000 a 2006] e Calderón [Felipe Calderón, de 2006 a 2012] também tiveram esses níveis, ou até mais altos, nas mesmas épocas eleitorais.

Por outro lado, AMLO tem sido reprovado em temas como saúde, segurança e corrupção. Assim, a eleição chega com um governo desgastado.

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Segundo as pesquisas, Claudia Sheinbaum, a candidata de seu partido – Morena – ex-chefe de governo da Cidade do México, tem uma vantagem média de 20 pontos. No entanto, há evidência de que essas pesquisas não são de todo exatas e apresentam problemas, uma vez que nem todos os pesquisados estariam revelando sua verdadeira intenção.

A candidata da oposição, Xóchitl Gálvez, que foi escolhida num processo interno, está enfrentado um aparato estatal de promoção de votos em favor do Morena e o peso da baixa popularidade dos partidos tradicionais. Ela afirmou que, se a participação for elevada, de mais de 60%, poderia ganhar.

Pode ser. Nas últimas eleições, as pesquisas tenderam a superestimar o voto no Morena e a oposição acabou recebendo mais votos que o esperado.

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Há temores de que, se Claudia Sheinbaum e o Morena tiverem votos suficientes para alcançar dois terços da Câmara de Representantes, os deputados e senadores poderiam implementar as reformas necessárias para consolidar a Quarta Transformação.

A mais preocupante dessas mudanças seria a reforma judicial: colocar um Poder Judiciário de modo a impor um governo autoritário e ditar uma agenda política e econômica sem nenhum obstáculo. Há quem diga que a democracia está em perigo e que essas poderiam ser as últimas eleições livres. A oposição está se mobilizando.

A efervescência da eleição subiu nas últimas semanas e setores da população reagiram, como ficou claro nas últimas manifestações da “Maré Rosa”, que apoia Gálvez. Sheinbaum já disse que não reconhecerá uma derrota e, inclusive, já está fazendo acusações de uma possível fraude.

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Será uma eleição apertada, e os riscos de um conflito pós-eleitoral são altos. Os olhos do mundo estarão vigiando, principalmente nos Estados Unidos, onde uma crise política no sul seria, no mínimo, indesejável neste momento.

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Marco Oviedo

Estrategista sênior para a América Latina da XP