Mercados preditivos e eleições: o que o 1º turno revela sobre o custo de proibir

Resultado do primeiro turno reacende o debate sobre a proibição dos mercados preditivos, que sinalizaram com antecedência uma tendência não captada pela maioria das pesquisas eleitorais

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No último domingo (4), as urnas contrariaram, mais uma vez, o retrato que as pesquisas haviam oferecido ao eleitor. Encerrada a totalização pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,16%. Os dois disputam o segundo turno no próximo dia 25 [1].

Acontece que, dos seis institutos que divulgaram levantamentos na reta final, apenas um apontava o senador numericamente à frente. Os outros cinco indicavam liderança do presidente[2] , por margens que iam de um a quase seis pontos percentuais.

Enquanto isso, fora do alcance do investidor brasileiro, os mercados preditivos contavam outra história. Desde 10 de setembro, o contrato da Kalshi[3] sobre o vencedor da eleição presidencial brasileira apontava Flávio como favorito; na manhã da votação, atribuía-lhe 76,8% de probabilidade de vitória, contra 30,7% de Lula. Tudo isso em plataformas cujo acesso está bloqueado no Brasil desde maio deste ano.

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O contraste não poderia ser mais oportuno. Em 14 de julho, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um “Selo Acurácia Eleitoral”, que premiaria os institutos cujos números mais se aproximassem do resultado real das urnas. A proposta, contudo, não passou isenta de controvérsias. Dentre as contribuições recebidas em sede de Consulta Pública, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) argumentou que pesquisa eleitoral é retrato do presente, não profecia sobre o futuro; e que premiar acerto pode gerar incentivos perversos para institutos menos rigorosos “colarem” em levantamentos de casas consolidadas na reta final da campanha.

Independentemente do destino do selo, o episódio marca um reconhecimento público, por parte da Justiça Eleitoral, de que (i) acurácia importa; (ii) existem diferentes tecnologias de apuração da percepção do eleitorado; e (iii) cabe à regulação lapidar o seu funcionamento.

Acontece que o primeiro turno das eleições brasileiras parece ter evidenciado que a mesma tecnologia que o Brasil decidiu proibir, seis meses antes da eleição, conseguiu capturar, com semanas de antecedência, uma tendência que passou despercebida pelas pesquisas eleitorais.

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Hoje, mercados preditivos eleitorais são vedados no Brasil por força de dois atos normativos. De um lado, a Resolução 5.298/2026 do Conselho Monetário Nacional, em vigor desde 4 de maio, que proibiu a oferta e a negociação de contratos derivativos referenciados em eventos de natureza política ou eleitoral; de outro, o artigo 6º, § 7º, da Resolução 23.735/2024 do próprio TSE, que incluiu na caracterização de ilícito eleitoral o uso de plataformas comerciais para a prática de apostas vinculadas a candidatos ou ao resultado do pleito.

Em outras palavras, estamos tratando de uma vedação por excesso de abrangência, isto é, um remédio originalmente pensado para impedir ilícitos eleitorais específicos e que acabou eliminando, por tabela, uma tecnologia de mensuração de expectativas que tem se mostrado um instrumento de reforço ao processo democrático.

Para entender a função dos preditivos em processos eleitorais, é importante relembrar a intuição por trás desses mercados, o que remonta à tese da “sabedoria das multidões” (wisdom of crowds), segundo a qual a agregação das estimativas de muitos participantes dispersos tende a produzir uma previsão mais precisa do que a opinião de poucos especialistas, desde que seus participantes tenham incentivos para revelar sua real crença e não apenas a sua preferência. É exatamente esse o diferencial estrutural em relação à pesquisa eleitoral, isto é, enquanto a pesquisa pergunta em quem o entrevistado vai votar, o mercado pergunta, na prática, em que evento futuro o participante investiria.

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Como apontou David Rothschild em estudo sobre o ciclo eleitoral americano de 2008[4], mercados de predição tendem a superar as pesquisas em acurácia, sobretudo no início do ciclo eleitoral e em corridas mais indefinidas[5]. Evidências mais recentes caminham na mesma direção. Em estudo realizado em 2025 sobre a eleição norte-americana de 2024, pesquisadores da Universidade Vanderbilt concluíram que os preços negociados na Polymarket superaram as pesquisas na previsão do resultado[6], com vantagem particularmente nítida nos estados decisivos[7].

Do ponto de vista teórico, o modelo baseado em agentes de Tongkui Yu e Shu-Heng Chen[8] ajuda a explicar por que esse mecanismo funciona: cada participante negocia com base no que observa ao seu redor, sem que nenhum agente detenha, isoladamente, informação completa sobre o resultado da eleição. O mercado opera, assim, sobre aquilo que a literatura econômica, desde Hayek, chama de conhecimento disperso, que o processo de negociação consolida em um único sinal de preço, o que também ajuda a explicar por que mercados de predição tendem a incorporar as novidades da campanha mais rapidamente do que as pesquisas eleitorais.

Ora, o que vivenciamos no primeiro turno das eleições brasileiras foi um teste dessa literatura em condições reais. Na média dos seis levantamentos da reta final, Lula aparecia com cerca de dois pontos de vantagem em votos válidos. Ou seja, dado que as urnas deram 1,87 ponto a favor de Flávio Bolsonaro, houve um desvio de aproximadamente 4 pontos na margem projetada pelos institutos de pesquisa entre os candidatos.

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Mais importante do que o tamanho do desvio é a sua direção. A votação de Flávio, que, na média dos institutos, ficava pouco abaixo de 44%, chegou a 47,03%, e, em pelo menos quatro dos seis levantamentos, ficou fora da margem de erro declarada. E não é a primeira vez que isso acontece.

Em 2022, às vésperas do primeiro turno, Datafolha e Ipec, os dois institutos de maior visibilidade, apontavam 14 pontos de vantagem para Lula sobre Jair Bolsonaro em votos válidos (50% a 36% e 51% a 37%, respectivamente), e a diferença apurada foi de 5,2 pontos (48,43% a 43,20%) – isto é, quase um terço.

De toda forma, a ressalva realizada pela Abep está correta, visto que a pesquisa eleitoral mede intenção em uma data, e parte dessa diferença pode refletir movimentos de última hora. Mas um erro que se repete na mesma direção em dois ciclos consecutivos deixa de ser ruído.

Do lado dos mercados, a trajetória foi outra. Em 1º de agosto, a Polymarket atribuía a Lula 64,5% de probabilidade de vencer a eleição; na manhã da votação, Flávio tinha 63% na Polymarket e 64% na Kalshi[9]. Aqui é importante fazer uma ressalva: enquanto as pesquisas dizem respeito ao percentual de votos, os preditivos se referem à probabilidade de vitória de um determinado candidato. Ainda assim, o sinal revelado pelos mercados era inequívoco e antecedeu em mais de três semanas o que as urnas viriam nos mostrar.

Acontece que, em função do bloqueio das plataformas, os preços sobre a eleição brasileira passaram a refletir predominantemente negociações feitas fora do país. Ficou impedido de participar justamente quem detém o conhecimento disperso do qual este importante mecanismo de sinalização depende, ou seja, o brasileiro que observa o que se passa em sua cidade, em sua igreja, em seu sindicato, em seu local de trabalho.

Em que pese a vedação não ter suprimido o mercado, que seguiu operando e sendo noticiado pela imprensa nacional, ela parece ter apenas piorado a qualidade do sinal, retirando-o do alcance de qualquer supervisão brasileira, o que reacende a discussão sobre a importância de regular em vez de simplesmente proibir.

É que reconhecer o potencial informacional dos mercados preditivos não significa ignorar os riscos genuínos que esse tipo de operação traz, como a manipulação de preços em mercados de baixa liquidez[10], o uso de informação privilegiada e a baixa representatividade de quem negocia. A experiência de outros mercados regulados, contudo, já oferece caminhos para lidar com cada um deles: limites de posição por participante[11], obrigação de reportar negociações atípicas, vedação à participação de servidores da Justiça Eleitoral e de integrantes de campanhas, e regras de comunicação que deixem claro que o preço de mercado é um sinal agregado de expectativas, e não uma estimativa de intenção de voto.

Ao proibir o uso de preditivos no Brasil, contudo, o que aconteceu neste primeiro turno foi que não era incomum ver grupos de WhatsApp utilizando prints de tela da Kalshi e da Polymarket como referência sobre quem ganharia a eleição. Ou seja, a proibição surtiu o efeito contrário, já que as pessoas continuaram a utilizar as plataformas, mas sem qualquer tipo de instrução sobre o que aquela informação significava.

O mesmo espírito que levou o TSE a abrir o debate sobre a acurácia das pesquisas eleitorais, isto é, de qualificar a pluralidade de instrumentos em vez de eliminá-la por presunção de risco, deveria orientar a revisão da vedação hoje aplicada aos mercados preditivos eleitorais no Brasil. O primeiro turno mostrou que a evidência internacional vale também aqui, com as mesmas ressalvas. Mercados preditivos não são oráculos, mas ofereceram um sinal complementar, mais tempestivo e, no contrato de maior liquidez, mais próximo ao que as urnas vêm nos revelando.

Em outras palavras, sua proibição não impediu que mais de US$ 170 milhões fossem negociados em função das expectativas do resultado da eleição brasileira. O que ela fez foi apenas garantir que isso ocorresse fora do país, sem que a informação chegasse para quem vivia a eleição de perto, sem a adequada supervisão regulatória e sem a arrecadação tributária decorrente de uma atividade econômica tão pujante para o país.

É que proibir o uso de termômetros não baixa a febre, apenas deixa o eleitor brasileiro com um único instrumento de medida, que falhou por duas vezes seguidas e na mesma direção, sem que existisse um sinal concorrente, público e auditável que o contestasse. Proibições como esta não me parecem atos neutros, mas têm o condão de reduzir a pluralidade de sinais disponíveis, concentrar a formação de expectativas em um único instrumento e, no limite, reduzir a informação tão crucial para que o eleitor brasileiro possa decidir.

[1] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. 5 out. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/flavio-bolsonaro-e-lula-vao-disputar-o-2o-turno-para-a-presidencia-da-republica. Acesso em: 6 out. 2026.

[2] Só uma pesquisa apontava Flávio numericamente à frente de Lula. Gazeta do Povo, 5 out. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/um-de-seis-institutos-de-pesquisa-apontava-flavio-numericamente-a-frente-de-lula/. Acesso em: 6 out. 2026. Os percentuais dos institutos citados neste artigo referem-se a votos válidos e foram extraídos desse levantamento.

[3] What Prediction Markets Say About Brazil’s Runoff. The Rio Times, 6 out. 2026. Disponível em: https://www.riotimesonline.com/brazil-runoff-prediction-markets-polymarket-kalshi-odds/. Acesso em: 6 out. 2026.

[4] ROTHSCHILD, David. Forecasting Elections: Comparing Prediction Markets, Polls, and Their Biases. Public Opinion Quarterly, v. 73, n. 5, p. 895-916, 2009.

[5] Nas palavras do autor, “early in the cycle and in not-certain races debiased prediction market-based forecasts provide more accurate probabilities of victory and more information than debiased poll-based forecasts” (ROTHSCHILD, op. cit., p. 895).

[6] CUTTING, Laurie E.; HUGHES-BERHEIM, Sarah S.; JOHNSON, Paul M.; BAROUD, Hiba; GOLDSTEIN, Brett. Are Betting Markets Better than Polling in Predicting Political Elections? Vanderbilt University, jul. 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2507.08921. Acesso em: 6 out. 2026.

[7] Nas palavras dos autores: “Overall, findings suggest that Polymarket was superior to polling in predicting the outcome of the 2024 presidential election, particularly in swing states”. Os próprios autores ressalvam que os dados de mercado provêm de uma única plataforma, cujo perfil de participantes é desconhecido, e que resta verificar se o resultado se replica em outras eleições.

[8] YU, Tongkui; CHEN, Shu-Heng. Agent-Based Modeling of the Prediction Markets for Political Elections. In: Multi-Agent-Based Simulation XII (MABS 2011). Lecture Notes in Computer Science. Berlim: Springer, 2012. p. 31-43.

[9] The Rio Times, cit. (nota 3), para a série histórica da Polymarket; para a cotação da Kalshi e os volumes negociados até a manhã da votação: Eleições 2026: 158 milhões vão às urnas hoje; Kalshi e Polymarket apontam Flávio com 64% e Lula 37%. BitNotícias, 4 out. 2026. Disponível em: https://bitnoticias.com.br/mercado/eleicao-2026-lula-flavio-bolsonaro-empate-tecnico-mercado/. Acesso em: 6 out. 2026.

[10] ROTHSCHILD, David M.; SETHI, Rajiv. Trading Strategies and Market Microstructure: Evidence from a Prediction Market. The Journal of Prediction Markets, v. 10, n. 1, p. 1-29, 2016. Ao analisar o mercado da Intrade sobre a eleição presidencial norte-americana de 2012, os autores encontram “evidence suggestive of manipulation by a single large trader”.

[11] Sobre o ponto, outro estudo da Universidade Vanderbilt, de Joshua Clinton e TzuFeng Huang (Prediction Markets? The Accuracy and Efficiency of $2.4 Billion in the 2024 Presidential Election, 2025), examinou cerca de 2.500 mercados da eleição norte-americana de 2024 e verificou que a plataforma com limite de posição por participante (PredictIt) teve desempenho superior ao das plataformas de maior volume (Kalshi e Polymarket), o que sugere que limites dessa natureza não comprometem, e podem até favorecer, a qualidade do sinal.


Advogada e economista. Presidente da Associação Nacional de Mercados Preditivos (ANMP). Doutora pela USP. LL.M. pela Universidade de Georgetown. Mestre em Finanças pelo COPPEAD/UFRJ. Pós-graduada em Direito Econômico e Concorrencial pela FGV. Consultora do Banco Mundial. Árbitra e professora