Maternidade e liderança: a escolha que ninguém deveria ter que fazer

Dados mostram que a maternidade ainda impacta a carreira de mulheres em cargos de liderança — e expõem o peso da cultura organizacional nessa equação

Giovana Pacini

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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O dia das mães passou, e para quantas mães que são líderes você desejou um “feliz dia”? Por trás da homenagem, há um dado para refletirmos.

Uma pesquisa recente da FESA Group trouxe um dado que não me saiu da cabeça desde que li: 59% das brasileiras que são mães afirmam que a maternidade impactou suas carreiras. Mais da metade.  

O número importa. Mas o que me interessa mais é o que ele revela sobre uma lógica que o mercado ainda não teve coragem de questionar com profundidade: a ideia de que, para uma mulher construir uma carreira de verdade, ela precisa, de alguma forma, resolver a maternidade primeiro.

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Ao longo dos anos, ouvi variações da mesma frase de formas diferentes. Em conversas de corredor, em processos seletivos disfarçados de papo informal, em comentários bem-intencionados de colegas. No fundo, a mensagem era sempre a mesma: você pode ter uma carreira sólida, mas vai precisar administrar a maternidade para que ela não atrapalhe.

Essa premissa coloca o problema no lugar errado: na mulher, e não no ambiente. Ela transforma uma condição biológica em uma variável de risco profissional. E, o que é mais grave, ela invisibiliza algo que raramente é dito em voz alta: nem toda mulher quer ser mãe. E isso também é uma escolha legítima, completa, que não precisa ser justificada.

A maternidade não é o caminho natural de todas as mulheres, assim como a ausência dela não é uma renúncia. São escolhas diferentes, mas igualmente válidas, que merecem ser tratadas com a mesma dignidade dentro das organizações.

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Os dados da FESA Group mostram que a barreira não está na capacidade das mulheres. Está em outro lugar: 66% das entrevistadas apontaram a cultura organizacional como o principal fator que dificulta a ascensão feminina. Não a maternidade em si, mas a cultura que a penaliza.

Mães enfrentam questionamentos sobre disponibilidade depois da licença, perdem projetos estratégicos e são afastadas de redes de influência nos momentos em que mais precisam delas. E colegas que se tornam pais, ao mesmo tempo, ganham prestígio.

O mesmo evento biológico produz consequências profissionais opostas. Isso não é coincidência. É estrutura.

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Chegar a um cargo de liderança sendo mulher já exige mais comprovação. A pesquisa aponta que 86% das mulheres concordam que existe um modelo ideal de liderança baseado em comportamentos masculinos. Quando a maternidade entra nessa equação, as exigências de comprovação aumentam mais.

Já vivi parte disso. E o que aprendi, na prática, não na teoria, é que a maternidade e a liderança não são variáveis que se cancelam. Elas coexistem. O que não pode coexistir é um ambiente que exige que as mulheres escolham entre as duas.

A liderança não invalida a maternidade. E a maternidade não invalida a liderança. O que invalida ambas é uma cultura organizacional que ainda trata as mulheres como uma variação do padrão, e não como o padrão em si.

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O que precisa mudar e quem precisa mudar

Programas de diversidade existem. Mentorias existem. Políticas de licença existem.

E, ainda assim, 47% das mulheres avaliam que as iniciativas de D&I nas empresas são ações isoladas, sem impacto real na cultura. E isso diz muita coisa.

Mudança cultural não acontece por decreto. Ela acontece quando as pessoas em posição de poder — e aqui me incluo — param de tratar a maternidade como uma variável a ser gerenciada e começam a tratar o ambiente como o problema a ser resolvido.

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Significa rever critérios de promoção, não presumir disponibilidade reduzida e criar condições para que mulheres — mães ou não — possam construir carreiras sem precisar justificar suas escolhas pessoais a cada nova oportunidade.

Outro dado: 59% das mães brasileiras sentiram o impacto da maternidade na carreira. É um número alto. Me pergunto quantas mulheres deixaram de tomar decisões sobre maternidade, em qualquer direção, por medo do impacto profissional?

Esse é o dado que a pesquisa não consegue capturar. E talvez seja o mais revelador de todos.

O objetivo não é que toda mulher seja mãe — e nem que toda mãe seja líder. O objetivo é que cada mulher possa fazer suas escolhas sobre maternidade, carreira e o que quer construir, sem que o ambiente ao redor torne essas escolhas mais difíceis do que já são.

Isso ainda parece muito, mas é o mínimo.

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Giovana Pacini

Giovana Pacini é Country Manager da Merz Aesthetics®️ Brasil desde 2020. Com mais de 20 anos de experiência na indústria farmacêutica, reconhecida por sua liderança humanizada e orientada para resultados, Giovana promove uma cultura de equidade de gênero e foca na entrega de resultados sustentáveis.