Liderança feminina: desafios globais e a força da vulnerabilidade compartilhada

As mulheres continuam sub-representadas nos mais altos níveis de decisão; veja análise

Giovana Pacini

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Acabo de retornar de um encontro de líderes que, por uma semana, me tirou do Brasil e me colocou em contato com culturas e desafios de vários outros países. A experiência reforçou uma convicção: embora a liderança feminina no Brasil tenha suas particularidades, os grandes obstáculos que enfrentamos são, em essência, globais, seja no âmbito do mercado ou nas questões intrínsecas à nossa jornada como mulheres em cargos de tomada de decisão.

O primeiro desafio global é que as mulheres continuam sub-representadas nos mais altos níveis de decisão. Dados recentes mostram que não basta vontade, é preciso estratégia e políticas estruturadas para mudar esse quadro. A lentidão do avanço é, de fato, um desafio sentido em toda parte.

A Grant Thornton (pesquisa Women in Business 2024) aponta que, no ritmo atual, a equidade em posições de liderança no mid-market só será alcançada globalmente em 2053. No Brasil, dados do estudo State of Women in Leadership, produzido pela plataforma LinkedIn, revelam que apesar das mulheres representarem 45% da força de trabalho total do país, o número de mulheres cai em 17% da posição de gerência para diretoria, e em 21% de diretoria para vice-presidência.

Tive a oportunidade de conversar com as presidentes da Merz Aesthetics da Rússia e da Itália, e foi notável como compartilhamos diversos desafios, seja no âmbito do mercado ou nas questões intrínsecas à nossa jornada como mulheres em posições de liderança. Questionamento constante da competência ou autoridade feminina. Pressão para se adaptar a comportamentos “masculinos” de liderança, mesmo que isso não seja natural. Difícil equilíbrio entre ser assertiva e ser percebida como “agradável”, fenômeno conhecido como double bind.

Esses momentos de troca são essenciais. Eles nos lembram que a rede de apoio e a inspiração nas trajetórias das outras mulheres são vitais para nossa resiliência e para o avanço da equidade. Afinal, nenhum desafio é individual. Cada experiência reflete questões sociais mais amplas.

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Daniel Pink autor de livros sobre trabalho, gestão, e ciência comportamental conduziu um momento deste encontro de liderança e trouxe uma reflexão crucial sobre como a sociedade enxerga a vulnerabilidade e a força em homens e mulheres.

Um homem consegue navegar bem entre os polos de se mostrar vulnerável e ser firme ou forte, e isso é aceito. Para a mulher, a dinâmica é muito diferente. Quando expressamos vulnerabilidade, corremos o risco de ser vistas como frágeis ou incompetentes. Por outro lado, se somos firmes e assertivas, somos rotuladas como mandonas ou excessivamente ambiciosas. É uma dupla penalização: ser punida por ser humana (vulnerável) e por ser competente (firme). Uma desvantagem gigante que os estudos comprovam existir.

A troca com outras culturas se torna, então, importantíssima. Ela nos permite entender que essas inseguranças não são individuais ou exclusivas do nosso país; elas são de todas. Ao compartilharmos, percebemos que não estamos sozinhas na complexa tarefa de equilibrar a força com a autenticidade. Inspirar-se no percurso das colegas globais pode ser o combustível que impulsiona a resiliência e a busca por um ambiente mais equitativo para todas nós.

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Mas essas conversas e conexões, por mais valiosas que sejam, não podem ser apenas espaços de troca.

Os desafios que compartilhamos exigem uma agenda global de ação: políticas estruturadas que promovam equidade, ambientes corporativos que reconheçam e apoiem a liderança feminina, e redes de mentoria que fortaleçam a próxima geração.

O aprendizado é claro: não basta reconhecer as barreiras, é preciso agendar mudanças concretas, criar métricas de progresso, assumir responsabilidade institucional e cultural. Cada mulher que ocupa uma posição de liderança hoje tem o poder de abrir caminhos, não apenas para si, mas para todas que virão depois.

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O futuro da liderança feminina depende da coragem de agir coletivamente. Transformar inspiração em estratégia, vulnerabilidade em força, e diálogos em mudanças tangíveis. A equidade não é apenas uma meta a longo prazo; é um compromisso que cada uma de nós pode começar a concretizar hoje.

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Giovana Pacini

Giovana Pacini é Country Manager da Merz Aesthetics®️ Brasil desde 2020. Com mais de 20 anos de experiência na indústria farmacêutica, reconhecida por sua liderança humanizada e orientada para resultados, Giovana promove uma cultura de equidade de gênero e foca na entrega de resultados sustentáveis.