Infraestrutura superinteligente

Quando uma atividade econômica transforma incerteza em previsibilidade, o custo do capital muda, e tudo o mais se reorganiza ao seu redor

George Santoro José Roberto Afonso

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Rodovias, ferrovias, hidrovias, até há pouco eram vistas apenas como obras físicas e, por si só, sinais de progresso. A economia do setor se resumia a CAPEX, manutenção e risco regulatório. Mas, sem anúncios ruidosos, a modelagem econômica dessas concessões está a se alterar expressamente a partir dos dados produzidos pelos próprios corredores.

Cada caminhão que freia, cada vibração de trilho, cada variação de temperatura gera informações que antes se dissipavam e agora, tratadas por inteligência artificial, passam a valer quase tanto quanto o pavimento ou o aço. Quando uma atividade econômica transforma incerteza em previsibilidade, o custo do capital muda, e tudo o mais se reorganiza ao seu redor.

Boa parte dos chamados “custos de engenharia” não abrange bens ou serviços, mas decorrem da falta de informação, como já demonstrado por pesquisadores do MIT, Carnegie Mellon e ETH Zürich. Sensores e modelos preditivos reduzem essa assimetria e, por consequência, diminuem despesas que durante décadas foram tratadas como inevitáveis. Concessionárias francesas e espanholas, por exemplo, incorporaram IA ao investimento inicial, pois entenderam que informação confiável reduz litígios, revisões contratuais e surpresas indesejadas.

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O investidor percebeu o impacto, o regulador também, e a operação se tornou viável. A aplicação de Inteligência Artificial em rodovias e ferrovias já produz resultados mensuráveis no mundo, conforme casos a seguir.

No Colorado (EUA), a inspeção automatizada reduziu vistorias presenciais de 30 mil para 9 mil quilômetros por ano, uma queda de 65%. No Reino Unido, a Network Rail diminuiu de 70 mil para 24 mil as inspeções manuais, economizando £26 milhões anuais. No Japão, o Shinkansen reduziu de 30 para 8 inspeções mensais com digital twins, cortando 30% do custo de manutenção.

Na Alemanha, a Autobahn GmbH reduziu 48% do custo de vistoria com monitoramento estrutural contínuo. E nos Estados Unidos, a Union Pacific passou de seis para apenas uma inspeção manual por locomotiva, economizando US$ 120 milhões ao ano. Esses casos, dentre tantos outros, mostram, de forma inequívoca, que IA significa menos vistoria cega, menos custo operacional e mais segurança, exatamente a direção das transformações que o Brasil começa a trilhar.

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Sem que ninguém percebesse, o Brasil já começou a trilhar caminho semelhante. Por exemplo, previsões de falhas estruturais são apontadas com antecedência de até 72 horas, ou seja, são identificados movimentos anormais a partir de imagens de satélites e uso de sensores em locais de monitoramento.

Se melhora eficiência ao memos tempo que se reduz custos públicos, graças a pesquisas de brasileiros da UFSC, UFMG, ITA e LNCC. O que parece simples tem efeito econômico profundo pois muda a natureza dos riscos, de imprevisíveis para mensuráveis. É aqui que o setor começa a economizar de forma permanente: menos acidentes, menos intervenções emergenciais, menos contingências financeiras.

Nos Estados Unidos, a autoridade ferroviária testou IA embarcada em locomotivas e obteve redução significativa de incidentes ao prever desgaste de eixos e trilhos. Austrália e Canadá fizeram o mesmo com modelos climáticos que antecipam interrupções em corredores de mineração. A lógica é direta: menos interrupção significa mais receita, mais confiabilidade e menos renegociação de contratos.

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De novo, o Brasil também embarcou nessa onda de modo que drones identificam incidentes, câmeras analisam fluxos, radares climáticos antecipam deslizamentos e sistemas monitoram vibração e desgaste dos trilhos em tempo real. Tudo isso cria operações mais seguras e tarifas mais estáveis.

Nesse novo cenário, passa despercebido que, quando a infraestrutura se digitaliza, o Estado recebe uma fonte contínua de dados. O Banco Mundial observou que corredores logísticos digitalizados constituem a melhor base de informações para políticas de mobilidade, segurança e resposta a desastres. Sensores em estradas e ferrovias permitem mapear deslocamentos, identificar gargalos, orientar investimentos e prever impactos de eventos extremos. Nos episódios climáticos recentes no Sul e no Sudeste do nosso País, modelos de IA geoespacial permitiram antecipar bloqueios e recomendar rotas alternativas. Isto permite que economia e sociedade possam reagir melhor e perder menos.

Nos países que avançaram mais rapidamente, a mudança não começou pela tecnologia, mas pelos incentivos. Reino Unido, Espanha e Estados Unidos incluíram inovação como cláusula econômica das concessões, não como um adorno regulatório. Inovação reduz incerteza, estabiliza contratos longos e torna o financiamento mais barato.

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O Brasil segue a mesma direção de modo que as políticas recentes de concessões rodoviárias e ferroviárias passaram a exigir supervisão digital, métricas de desempenho, sandboxes regulatórios e projetos que operem de forma inteligente. O Ministério dos Transportes consolidou essa agenda e deu a ela caráter estratégico e permanente.

Rodovias e ferrovias continuam deixaram de ser meros caminhos, para conectar um a outro local, e se tornaram também redes inteligentes. Investir em pavimento e trilho permanece fundamental, mas não é mais condição suficiente. O valor adicional surge dos dados, dos modelos e da capacidade de transformar o cotidiano das operações em um conjunto de previsões confiáveis. Essa mudança altera custos, tarifas, produtividade, gestão de risco e até a forma de responder a eventos climáticos. Estão subsidiando o novo Plano Nacional de Logística.

Em silêncio, o setor de transportes já atravessou um novo limiar. Embora o Brasil ainda não disponha de uma grande infraestrutura física digital, como datacenters robustos ou modelos de IA de larga escala, estamos aplicando tecnologia de forma concreta e transformadora.

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Assim como o PIX revolucionou o sistema financeiro, estamos promovendo uma mudança semelhante na infraestrutura: usando tecnologia para resolver problemas reais, muitas vezes com equipes e soluções genuinamente brasileiras. A maior transformação, no entanto, está acontecendo nos dados que circulam sobre essa infraestrutura.

Ao perceber esse movimento antes de muitas outras economias, o Brasil se posiciona para colher ganhos duradouros ao investir simultaneamente em infraestrutura física e inteligente. Se o asfalto se desgasta, os algoritmos aprendem, e ensinam todo o sistema a ser mais eficiente, seguro e produtivo.

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George Santoro

É advogado, contador, mestre em contabilidade e administração pela Fucape Business School, com especializações em economia empresarial pela Universidade Candido Mendes; em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas; e em direito, trabalho e previdência pela Universidade Candido Mendes. Atualmente é o Secretariado Executivo do Ministério dos Transportes. Esteve à frente da Secretaria da Fazenda de Alagoas por oito anos. Também é auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro e acumula passagem como Subsecretário de Política Fiscal e de Receita do estado do Rio de Janeiro.

José Roberto Afonso

Doutor em Economia pela UNICAMP e pós-doutorado em Administração Pública pela Universidade de Lisboa. Professor da pós-graduação do IDP em Brasília e do ISCSP em Lisboa. Diretor do Forum Integração Brasil-Europa. Sócio fundador da FINANCE. Consultor independente, inclusive de organismos internacionais. Ex-superintendente do BNDES e ex-assessor do Congresso Nacional e do Constituinte.